27 de nov de 2010

A Revolução dos Coraças (parte I)

Era uma vez um reino bem distante. Como todo mundo sabe, todo reino que se preze tem que ser distante. Pode não ser bom, pode não ser ruim, contanto que seja distante. Se não for distante não é reino. E se insistir em vender-se por reino não sendo distante, não será usado como pano de fundo para histórias encantadoras. É assim que funcionam as coisas! Essas são as regras! Porque as histórias encantam por serem distantes, do contrário, não encantariam. Produto importado é sempre melhor, é o que dizem.[1]

Este reino, distante como ele só, era governado por um rei. O mínimo esperado de um reino. Reinos são governados por reis. Não dá pra subverter a ordem natural das coisas.

O rei que governava o reino distante em questão era o Rei Ludovico III, recém coroado por seu pai em leito de morte, coisa mais linda de se ver. O velho tossindo, volta e meia expelindo substâncias espessas e nojentas pelo nariz e pela boca, dizendo que urgia dar a coroa a seu filho. Única vez que ele usou o verbo urgir na vida, que aprendera com um dos membros de seu conselho real, mas nunca achou ocasião de liberá-lo. Urgia! Ora, se urgia! Urgia e muito bem urgido! Já não suportaria por muito e os olhos da Rainha inglesa crescia diante das férteis terras distantes de Lagolândia, um reino ainda mais distante que o reino da rainha britânica, que por si já é bem distante, dependendo do ponto de vista.[2] Ludovico II praticamente deixou cair a coroa na cabeça do primogênito, deixando-lhe, inclusive, um galo na cabeça que não parou de cantar na festa da coroação – logo depois, expirou satisfeito porque, numa fração de segundos, vira de longe as ancas de Maria Nívea, a criada mulata[3] que se esticava para trocar as cortinas, na outra ponta do quarto.

- Como a vida é bela! – Suspirou seu último suspiro, tão salafrário como o primeiro que dera ao desfrutar das maravilhas da puberdade.

Ludovico III, o novo rei, tinha fama de ser um príncipe ainda mais intrépido do que o pai, no que dizia respeito às mulheres. Agora que era rei, as menininhas se assanhavam tanto quanto as brasileiras, quando viam o jovem e belo Pedro II, na época de moço – ou mesmo depois de velho[4]. Mas Ludovico III, diferentemente de Dom Pedro II e do velho finado Ludovico II, tinha a fama de ter a mulher que queria, à hora que queria, a todo custo. Rapazes de todo o reino admiravam-no profundamente, invejavam-no profundamente e profundamente rezavam para que o jovem príncipe nunca na vida de suas retinas tão pouco fatigadas olhasse para suas prometidas. Ainda mais agora, que era rei.[5]

Ludovico III queria, Ludovico III conseguia. Fosse quem fosse, mulher de quem fosse, filha de quem fosse, amante/amada de quem fosse. Moças pra uma noite. Moças pra várias noites. E algumas premiadas com o título de concubina real.[6]

Nunca se tinha confirmado, mas havia rumores, de que o nosso jovem rei, quando ainda príncipe, conseguiu levar pra cama uma freira, o que gerou calorosos protestos no reino. O povo começou a falar em abuso e a discutir a tal da república, mas o competentíssimo Ludovico II conseguiu por panos quentes em tudo, sob a velha técnica de dar porrada em quem desobedecesse a ordem de não falar mais no assunto.[7] Ninguém tem certeza da veracidade do fato. Mas a crise foi inegável.

A verdade é que era um risco qualquer visita de Ludovico III. Era um homem que se apaixonava demais. Como, aliás, acontece com muitos outros. A única e essencial diferença é que muitos apaixonados se sentem rei; mas Ludovico era rei de fato, e tinha em suas mãos o poder.

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Na vila de Nandinávia, pequena extensão de terras pertencentes ao reino de Lagolândia e habitadas por sujeitos simples, bravos e trabalhadores, vivia a doce e bela Açucena. Longo cabelo moreno, com ensaios de encaracolamento na ponta. Olhos grandes e pretos como jabuticaba, braços fortes de campesina e vestido à moda da vila. Começando abaixo do pescoço e terminando abaixo do joelho. Sem deixar de valorizar, no entanto, o decote amaluquecedor de Açucena, como o de todas as moças da vila. Decote era uma especialidade da terrinha.

O perfume de Açucena, como é que eu vou explicar? Melhor deixar que o Poeta da Vila[8] diga:

“Todo mundo na vila
Não vê Açucena com os olhos
Assim, logo de cara
Açucena é moça de cheiro
E tem mais cheiro que cor
Todo mundo na vila
Enxerga Açucena de longe
Enxerga com o nariz
O cheiro de Açucena
É visibilidade pura
Capaz de guiar cego
E de cegar muita vista
De homem que se diz são”

O Poeta da Vila era também conhecido pelo nome de Emanuel Rodrigues[9]. Publicamente apaixonado em segredo por Açucena. Quantas peripécias para manter um segredo sabido de todos! E quantas peripécias de todos para manter em segredo do dono do segredo o fato de o segredo não ser mais segredo nenhum. Arre! Nandinávia era uma confusão!

No dia que Emanuel Rodrigues marcou para se declarar oficialmente a Açucena, por A + B, vírgula por vírgula, sem direito a ambigüidade ou rodeios de palavras, Nandinávia inteira[10] suspirou: “Até que enfim”.

Tudo correu muito bem. Açucena dispensou a serenata. Atitude unanimemente aplaudida: o Poeta da Vila era só poeta, não cantor; e tinha voz de taquara rachada. Ouviu pacientemente uma maratona de poesias: ao seu cheiro, aos seus olhos, ao seu rosto, às suas pernas, aos seus vestidos – que, verdade seja dita, eram praticamente iguais a todos os vestidos da vila, à sua mãe, “terreno fértil de belezas” e a seu pai “cultivador-mor da planta mais bela que já se viu no mundo”.

Açucena também meteu-se a poetisa. Disse ao mundo Nandinávico que tudo o que o pretendente acabava de falar tinha sido à toa. Foi um esforço de balde – ou um esforço debalde; ninguém entendeu ao certo o que ela quis dizer. As moçoilas da vila já preparavam o choro e Manuel Rodrigues já traçava o primeiro verso de um poema byroniano quando Açucena esclareceu. Foi à toa, desperdício de versos, porque não precisava! Ela já nascera amando-o, mesmo antes de conhecê-lo; imaginara-o. De modo que “nem toda a poesia do mundo poderia explicar”. E disse que a vida até ali tinha sido “o Prefácio para a nossa grande história de amor, cujo primeiro capítulo abrimos agora.”

Por motivos óbvios, dali em diante Açucena ficou sendo conhecida como a Poetisa da Vila. Título que não dava moral ou poder algum, a não ser de estar ao lado de quem se ama.[11] Poeta e Poetisa caminhavam pela rua, noivos de corpo, alma e papel passado na sacristia do padre Villavintém. E viveram felizes para sempre. Mas só por dois meses.

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Fernando Lago Santos - Novembro de 2010


[1] Os imigrantes da 25 de Março bem sabem disso.
[2] É que a distância não é tão distante, se medida de lá pra cá.
[3] Em Lagolândia também existia!!!
[4] Coroa usando coroa é sempre um belo coroa
[5] Só não era bedel e nem juiz, embora, como os dons Pedros luso-brasileiros em tempos de outrora, Ludovico III tivesse o poder moderador.
[6] Dependendo da ocasião, título mais cobiçado até que o de rainha.
[7] Milenar e infalível. Até hoje tem gente que usa.
[8] Não confundir com Martinho. E também não é seu parente.
[9] Ninguém sabe, mas Lagolândia também foi colonizada por Portugal.
[10] Uns cem ou duzentos metros quadrados.
[11] O que já é grande coisa. Outros intitulados poetas não têm nem isso.

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?