3 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte II)

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Quando o cortejo de Ludovico III despontou na primeira esquina, toda Nandinávia estremeceu em fogos, morteiros e gritos de viva el-Rei[1]. Os moleques saiam correndo para ver de perto os carros reais passarem. As moças não podiam deixar de revelar um ar de admiração. Tanta riqueza junta! O Rei, o Rei, o Rei! Atravessando a pobre vila deles! Seria um sonho?

O carro parou à porta de Frederico Baptista, o Marquês de Nandinávia[2], amigo pessoal do Rei Ludovico I. Na vida Real até as amizades são hereditárias.[3] Herda-se do pai quase tudo, desde amor a ódios. A amizade do Marquês de Nandinávia chegava à terceira geração da família real. Era nesta casa, a mais rica de Nandinávia (talvez a única), que todos os reis ficavam quando vinham visitar a ilha.

Na verdade, isso tudo era apenas uma questão de cortesia. Outra coisa que os príncipes herdavam de seus pais era o total desprezo que tinham para com as vilas pequenas como Nandinávia. Em geral, não ofereciam diversão, eram atrasadas política e economicamente e contribuía muito pouco com o reino na arrecadação dos impostos. Sorte de Nandinávia, que ficava no caminho da fronteira entre o Reino de Lagolândia e o Reino Santarém[4] e, mais sorte ainda, que os reis tinha essa obrigação hereditária com o Marquês de Nandinávia. Senão, capaz de darem a volta ao mundo pra não terem de passar por aquele lugarejo parado no tempo.

Ludovico III, no entanto, quando pisou o solo sagrado de Nandinávia, quando respirou seu ar campestre, quando viu as esverdeadas folhas das frondosas árvores da riquíssima vegetação da vila de Nandinávia, não sentiu nada de especial, como era de se esperar. Ao descer do seu coche, contemplou o povo todo ajoelhado em sua presença – que sensação maravilhosa! – e seguiu o seu caminho, em direção ao abraço do amigo de seu pai e do pai de seu pai.

- Ora, mas está um homem! – disse o marquês de Nandinávia – Um rei!

E abraçou apertado o moleque que nunca vira mais gordo nem mais magro. Os filhos de Ludovico II pouco saíram da corte durante sua vida. Menos ainda para irem àqueles lugares pavorosos. Fim de mundo! Só sendo rei mesmo! Rei tem aguentar cada uma!

- Meu pai falava muito do senhor!

- Era um bom homem! Perda irreparável, a sua morte.

Para Ludovico III não era perda alguma, muito ao contrário. Mas não ficava bem falar.

- Antes de entrar, dê uma palavrinha a esses pobres – sussurrou o marquês – eles gostam e acabam simpatizando com a figura real. É bom para o prestígio e pra angariar simpatia do povo. Tem muito agitador solto por aí. Nunca se sabe...

- Tenho mesmo que falar?

- Penso que sim. Vossa majestade é rei moço. O povo precisa ver que o senhor é bom. Mais que isso. O povo precisa acreditar cegamente que o senhor é bom!

- Mas é só uma vila!

- Bem se vê que vossa majestade não conhece Nandinávia. Esse povo é capaz de muita coisa.

- Bem, se o senhor fala, vou confiar, em nome da amizade que meu pai tinha pelo senhor.

- Fico muito honrado, majestade. Não pense que eu esteja falando por mal. É só política.

- Eu sei, eu sei... política.

Disse isso e subiu num palanque improvisado pelo marquês justamente para esse fim. Pigarreou e, moço corajoso, preparou-se para iniciar um discurso ex abrupto, fitando os seus súditos, como lhe ensinara o Conselheiro Real. Só então percebeu que centenas de pessoas o olhavam, esperando por isso. Mais. Só então percebeu que existia ser humano vivendo em Nandinávia. Mais. Só então percebeu a quantidade incontável[5] de mulheres bonitas que existiam na vila.

- Mas isso aqui é o paraíso! - murmurou

- Que disse?

- Nada não...

E enchendo o peito, iniciou o discurso. Afora alguns deslizes, uma excelente retórica. Os homens aplaudiram a clareza e a energia jovem com que o novo monarca falava. As mulheres também aplaudiram a energia jovem, mas numa outra dimensão. As mais respeitosas murmuravam respeitosamente, como se espera de mulheres respeitosas: “É um moço bonito. Há de ser bom rei.”

- Viu, majestade? – Disse com entusiasmo um dos amigos do Marquês, elo político de fundamental importância em Nandinávia – Nandinávia é o termômetro do reino!

- Quem dera a corte fosse tão caliente como isso aqui – Disse usando a expressão sem permissão do Rei de Espanha.

- O que quer dizer? – disse o marquês, desconfiado, lembrando-se das muitas histórias que se contava do príncipe.

- Nada. Escuta, quem era aquela moça de vestido branco e azul que estava aqui logo na frente na hora em que comecei a falar?

- Assim vossa majestade complica as coisas. Metade das moças daqui usam vestido branco e azul[6].

- Cabelo preto, olhos jaboticabosos assim, e belas curvas. Estava ao lado de uma outra moça loira que carregava um bebê a tiracolo.

- A moça loira eu sei de quem se trata – disse o Coronel Máximo, o tal elo político – é minha filha, casada com o tenente Dantas.

- A outra – completou o marquês – só pode ser minha sobrinha, Açucena. Moça séria, noiva do Poeta da Vila.

Falavam dos compromissos da moça como se isso intimidasse um jovem e poderoso rei.

- Noiva de quem? – indagou o rei com desdém.

- Emanuel Rodrigues, poeta e jornalista da Gazeta.

- Tudo bem. Amanhã quero o endereço desse Rodrigues, preciso ter uma conversinha com ele.

- Não entendo...

- Pode ser que precisemos de um jornalista muito competente para registrar as ações do glorioso Exército Imperial.

Naquele momento o Marquês de Nandinávia, entendeu tudo. A sobrinha e o noivo estavam perdidos.

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Novembro de 2010


[1] Não faço a mínima idéia de por que o povo de Lagolândia falava assim!
[2] Todos os marqueses tem o nome de seu lugar de origem. Regras de Lagolândia.
[3] Não confundir Vida Real com vida real. Vida Real é Vida Real e vida real é vida real. São coisas totalmente distintas. Com o tempo se aprende...
[4] Que também era distante, mas perto de Lagolândia
[5] Umas quinze ou vinte moças.
[6] Nunca disse que Nandinávia era notável por sua originalidade!

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?