10 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte III)




- Olá!

- O senhor me desculpa – disse Açucena sem se virar – mas estou um tantinho ocupada agora.

- E não tem nenhum minuto sequer?

- Desculpa, senhor – e voltou-se ao interlocutor – eu realmente... Oh! Majestade! Perdão!

E abaixou-se em reverência.

- Tudo bem, pode se levantar.

- A que devo tal honra?

- Vinha passando e achei digno de um rei tentar descobrir de que fonte provinha esse aroma maravilhoso!

- Ora, majestade, assim me deixa encabulada!

- Como é seu nome? Bela desse jeito, só pode ter nome de flor.

- Açucena.

- Não disse?

- Nunca tinham me dito que vossa majestade era tão gentil.

- Dizem muitas coisas de mim que não são verdade.

- Acontece. Vossa majestade me perdoe, eu não gostaria de ser impetulante, mas eu tenho que terminar meus afazeres. Isto é, se vossa majestade me dá licença.

- O mínimo que eu poderia fazer, por teres me dado licença de contemplar por infindáveis minutos a sua beleza e ouvir sua doce voz.

- Com sua licença.

E desapareceu casa adentro. O rei montou em seu cavalo e seguiu caminho. Tinha lançado a primeira semente. Agora iria à Gazeta, ver o tal poeta.

Emanuel Rodrigues preparava-se para fechar a porta da gráfica quando sentiu uma mão no ombro. Voltou-se e não pôde ocultar a surpresa:

- Majestade! – Reverenciou-o.

- Pode se levantar. Tem tempo para um chá?

- Sim, mas, perdoe-me a pergunta, a que devo a honra de tomar um chá com vossa majestade?

- Já explico.

- Tudo bem, vamos.

Emanuel caminhava desconfiado. Reis eram reis. Não andavam de papo com jovens rapazes da plebe assim, sem mais nem menos. Quanto mais sendo um jornalista. Quanto mais sendo de uma Gazeta oposicionista – mas isso o rei não sabia. Quanto mais morando numa vilinha furreca e oculta como aquela! Alguma coisa sua majestade queria...



**************

- Mas qual o interesse em me ter na província do Norte[1]? – fez o Poeta sem entender nada da proposta do rei.

- Você não entende, homem? O exército está com ações planejadas na fronteira com a Espanha. Precisamos de um bom cronista para registrar tudo. Memórias da guerra. Você entende como são essas coisas...

- Sim, mas por que eu? Tanta gente boa na corte! Ou na própria província do Norte!

- Assim vou pensar que é desfeita.

- Vossa majestade tem que entender. Não dá pra sair daqui agora!

- Ora bolas, por que não?

- A menos que...

As reticências mais reticenciosas que já se viu.

- Fala, fala! – disse o rei com uma pontinha de esperança

- Só vou daqui a um mês. E levo minha mulher. Adianto o casamento e levo ela.

- Está louco? Vai levar uma mulher pra guerra?

- Não necessariamente. Mas quero ela perto de mim!

- Não, nem pensar! A moça fica.

- Então vossa majestade pode procurar outro jornalista! De preferência da própria província do Norte, pra manter o orgulho da terra.

Dizendo isso, levantou-se sem dar tempo a reações por parte do rei.

- Agora preciso ir! Adeus, majestade! E saiu caminhando calmamente.

Perplexo, o rei admirava a insolência do rapaz. Ao mesmo tempo em que prometia a si mesmo irritado:

- Vai ser minha! Vai ser minha! Agora é que quero mesmo! Vai ser toda minha!

Quando Açucena contou ao noivo poeta a visita do Rei e seus galanteios[2], Emanuel entendeu tudo. Sua noiva tinha sido sorteada pelos olhos do rei-moço como objeto de desejos.

- Estamos desgraçados! – disse Açucena chorando e abraçando o noivo. Naquele dia não tiveram a mínima vontade de fazer poesia.


[1] Já dei uma pista de onde fica Nandolândia: ao sul da Espanha
[2] Num casal de poetas, segredo fica guardado só pra poesia. De resto, tudo é compartilhado

Novembro de 2010

Um comentário:

Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?