24 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte V)

Parte I   -  Parte II  -  Parte III  -  Parte IV


Havia uma semana que o rei Ludovico III deixara Nandinávia. Quando ele chegou, cheio de pompa, coisa de rei, ninguém imaginava que iria ficar tanto tempo. Quando ele saiu, com a mesma pompa, todo mundo já conhecia o motivo de ele ter ficado tanto tempo na pobre vila. Sempre tinham ouvido falar na destreza do príncipe para conseguir as mulheres que quisesse. Agora poderiam orgulhar-se de terem vivido isso de verdade. E mais. De terem conseguido vencê-lo. Nandinávia era uma vila pequena. Todo mundo podia se dizer co-participante da trajetória do rei para conquistar a noiva do Poeta da Vila. Coisa para entrar nos anais da história.

Mulheres mais moças e tão bonitas quanto Açucena iam ao gabinete improvisado do rei para oferecer-lhes seus serviços.

- Sim, majestade! Tenho certeza que serei uma concubina muito melhor que Açucena! Me leva pra corte.

Mas Ludovico era focado. Chegou a se balançar pela irmã de Açucena, Milena. Mais jovem, virgem, beleza fresca de adolescência, parecida com a irmã. Tão nova e já tão sedutora! Mas perdeu todo o interesse quando percebeu que Milena estava fazendo aquilo para tirar os olhos do monarca da noiva do poeta. Isso era o que mais irritava o rei. Que diabo de amor é esse, que todo mundo apóia!?

Mas agora tudo estava bem. O rei voltara a reinar novamente. Isto é papel de rei. Deixem-se as paixões aos poetas, que tão pouco na vida têm!

Emanuel Rodrigues e Açucena jantavam felizes no restaurante do francês Michel[1] fazendo planos para casarem-se dali a três ou quatro meses.[2] Quadro magnífico! Se houvesse outro poeta da vila que não fosse ele ou outra poetisa que não fosse ela, com certeza escreveriam várias poesias, vendo aquele casal assim tão belo.

Lá fora, alguma coisa fazia as pessoas se movimentarem na rua. Uma pessoa entrou e o burburinho invadiu também o interior do restaurante.

- O que será que está acontecendo?

- Não sei. Mas deve haver alguma coisa.

- Estou com um mau pressentimento...

Terminaram e caminharam calmamente em direção à porta. Ali, perceberam dois soldados que pareciam esperar por alguém que estava dentro do restaurante. Mas as pessoas iam passando normalmente, apesar da estranheza com relação aos milicos. Devia ser esse o motivo do burburinho. Quando o casal de poetas ia passando, um dos soldados se pôs à frente.

- Mas que raios é isso?

Dois outros soldados aproximaram-se. Só então o poeta e a poetisa da vila perceberam que a rua estava tomada por soldados[3] aparentemente em operação importante.

- Senhor Emanuel Rodrigues, o senhor acaba de ser convocado para a missão Fronteira Norte. Informação confidencial. Iremos tratar dos detalhes no quartel mais próximo, na Terra de Sapucaia!

- Me prendam como desertor. Ou atirem em mim, porque eu não vou!

E continuo seu caminho, sem a menor cerimônia.[4] Ao virarem a rua, sussurrou à moça:

- Amanhã estaremos longe.

Não houve, porém, amanhã para o casal. Na casa de Açucena, dois soldados da guarda da corte esperavam-na para levá-la. Ordens de sua majestade.

**************

Cinco dias preso no calabouço do quartel da Terra de Sapucaia. Cinco dias sem comer. Cinco dias chorando a desgraça de não poder quebrar todas as paredes daquele lugar e correr a resgatar a sua noiva dos braços daquele cafajeste real. Cinco dias apanhando dos soldados mais truculentos, quando queriam obrigá-lo a fazer qualquer coisa que ele achava humilhante. Beijar o retrato de sua majestade, por exemplo.

Uma das piores torturas que sofria era quando entrava o major Flores[5]. Homem não muito encorpado, mas sua cara expunha respeito. Sua voz era seca, suave... Não era irritante nem intimidava. Mas dizia coisas terríveis.

- A essa hora o rei deve estar indo para o banho. Hora em que a rainha mãe está recolhida na leitura de folhetins e rainha esposa no seu passeio pelo jardim do palácio. Você não acha que é uma boa hora para uma concubina entrar em ação?

Ou:

- Olha, lá no palácio tem um quarto bem fechado, quase não se ouve nada de que se diz lá dentro, mesmo que seja aos berros. Aposto que é lá que sua majestade vai fazer bom proveito da mais bela flor nandinavense.

Como das primeiras vezes o poeta reagiu com socos e cabeçadas, chegando a tirar sangue do major, o oficial passou a usar a tática de manter o rapaz sentado na cadeira e segurado por dois fortes soldados de infantaria[6].  Isso, porém, não impediu o major de levar umas duas ou três cusparadas na cara.

No palácio, num quarto cuja porta era protegida por dois soldados, Açucena não fazia nada além de chorar. À rainha Vitória, sua esposa, Ludovico tinha dito que era uma criada xucra do sul, convinha não mexer com ela, era do tipo de gente que não aceitava muito a sua condição servil. A rainha mãe, porém, conhecia o filho, sabia perfeitamente que ele era capaz de tudo para sujeitar uma mulher aos seus caprichos. E ouvira rumores sobre o caso da vila. Tentou aconselhá-lo, investida de sua autoridade de mãe. Mas Ludovico III insistiu na tese de que era uma criada negando tudo o mais que se dizia sob suspeita na corte. A rainha fez cara de desgosto e advertiu:

- Um dia você vai se arrepender da maneira com que trata as mulheres.[7] Tome cuidado. As coisas ruins um dia podem se voltar contra a gente...

Dizem que palavra de mãe é sempre profética. Ludovico III, porém, não era dado a religiosidades, salvo quando era obrigado pelos conselheiros, em nome das relações institucionais entre Estado e Igreja. Conformidades cabidas a um rei.

**************

Decrépito. O poeta da vila já não aguentava escrever. Algum soldado piedoso deixou tinteiro, pena e papel na alcova. Piedoso? Nem tanto. Fora o próprio major Flores que deixara o material ali. Contava que o poeta escrevesse seu próprio epitáfio, ou uma carta de despedida que fosse, como é próprio de poetas. A intenção era fazer dele um herói de guerra, produzido. Sádicos, sabiam que o frágil rapaz da vila não iria resistir muito. Era possível forjar um ato heróico qualquer, para manter a pose do Exercito. O poeta/ jornalista que morreu triste, servindo o seu reino. Um herói produzido pelos seus próprios assassinos.

Emanuel Rodrigues não resistiu. Pegou da pena e começou a rabiscar... mas não conseguiu escrever. Como iria escrever? Não dava para escrever sem Açucena... Começou a rasgar todos os papéis com fúria jamais vista em um poeta[8] proferindo palavrões impublicáveis, alguns inexistentes.

- Onde está a placidez do Poeta da Vila? – Uma voz rouca entrou pelo minúsculo buraco da sela. Emanuel voltou-se.

- Vá embora! Deixe-me morrer em paz, ao menos!

- Está tão louco que não me reconhece mais?

Emanuel levantou num ímpeto. Olhou por entre as barras de ferro e reconheceu o rosto de Pedro, o amigo da Gazeta.

- Mas como conseguiu entrar aqui?

- O Exército de sua Majestade não é páreo para o poder investigativo de um jornalista.

Foi em que se aplicou o jornalista durante as duas semanas que correram entre a prisão do casal poeta e aquele dia. Pedro localizou todas as famílias destruídas pelo príncipe. Todos os noivos desamparados, todas as filhas “roubadas” ainda na adolescência, todos os pais marcados pela honrosa desonra de ter sua filha feita concubina do príncipe. Ao ver que, mesmo juntando toda essa gente – e era muita – não daria um movimento maciço contra o Exército Real, usou do dom da palavra herdado de seu pai, seu avô, e seu bisavô[9] para convencer as pessoas a se juntarem num movimento de massa como nunca se tinha visto em Lagolândia.

Por alguns dias a multidão marchou silenciosa em direção à Terra de Sapucaia. A primeira tarefa era tirar o poeta da prisão. Um colunista de oposição deu logo o apelido para os que seguiam o jornalista da Gazeta: os Coraças. Era a revolução dos que acreditavam no amor, no poder do coração.[10]

Tomaram o quartel da Terra de Sapucaia facilmente. Ninguém dava nada por um poetinha qualquer, provinciano e sob devastador efeito da inanição. O quartel estava mal vigiado. Foi fácil para os amorosamente enraivados militantes. Primeiro triunfo da Revolução dos Coraças.

**************



[1] Sempre franceses!
[2] As coisas andavam rápidas e nem estavam de barriga!
[3] Uns oito ou dez milicos.
[4] Cerimônia não é bem o forte dos poetas, dizem.
[5] Flores e não Fleury, favor não confundir.
[6] Mau uso do dinheiro público. Pagando soldados para tal fim! Lagolândia não era perfeita como o Brasil é.
[7] Dizem que era meio feminista, não se sabe.
[8] Nem nos byronianos.
[9] Frutos do caloroso clima de Nandinávia.
[10] Apesar de tudo, ainda existe gente assim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?