30 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte VI)

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A coragem e o apoio dos amigos encorajaram também o poeta, que moralmente restabelecido comeu. Não há maior símbolo de restabelecimento da honra e da coragem do que voltar a comer após dias de jejum. Emanuel Rodrigues comeu, e muito bem, naquele dia.[1] Como quem comesse sua última refeição.

A marcha dos Coraças continuou, agora sob liderança direta do Poeta da Vila. Logo chegou aos jornais oposicionistas, saudada como uma Revolução tardia, mas necessária ao reino de Lagolândia. Sim, era preciso mudar. Só discordavam quanto ao caráter da mudança. Mudar para onde? Para quê? Uns queriam a república, outros a proclamação de Emanuel Rodrigues como novo rei. Outros, mais espertos, queriam a sua própria proclamação.

- Não há outro! Eu é quem devo ser rei!

- Como não? Cá estou eu, de sangue muito mais nobre, embora não reconhecido!

E assim se gastava o tempo nas marchas pelas estradas empoeiradas de Lagolândia. Não sabiam em que ia resultar essa tal revolução, mas estavam ali. Porque o primeiro ponto de pauta era derrubar o rei Ludovico III, um desastre político que nunca deveria ter subido ao trono. Depois decidia-se o resto.

Emanuel Rodrigues, apesar dos tímidos ideais republicanos que cultivava, não tinha tempo para pensar em política. Desde que tirasse Açucena das mãos do rei, tudo estaria bem. Era o que queria fazer. Queria ter sua noiva de volta. Se fosse necessário proclamar a república para isso, assim seria! Faria tudo!

Os jornais conservadores tentaram abafar a questão por algum tempo.[2] No entanto, logo tiveram que se render à popularidade da Revolução. Noticiaram a marcha dos Coraças, usando o apelido dos opositores, tendo, porém, o cuidado de deixar claro que eram um bando de baderneiros amaluquecidos por questões passionais, totalmente fora de si. Era, segundo um colunista da Folha Mercantil, “uma revolução fajuta e piegas. Seus líderes são imbecis e os seguidores, em grande parte, idiotas influenciados por uns pulhas de maior ordem, que agem por baixo dos panos no intuito de derrubar o nosso amado e divinamente escolhido[3] rei.”

Levavam sempre ambos os jornais para Ludovico III. O oposicionista e o conservador. Um desclassificava, outro dava notícias da grandeza da revolução. Ambos não estavam totalmente errados na estratégia. Os fazendeiros, políticos e comerciantes ligados ao partido conservador enraiveciam-se a cada dia mais contra aquele ato insano dos populares, com o apoio de alguns nobres. Por outro lado, os progressistas, a cada dia que passava, acreditavam que poderiam usar daquele movimento impensado para pensar uma revolução sócio-política no reino de Lagolândia. A cada cidade em que os Coraças passavam mais gente se unia à já multidão que os seguia. Já tinham um aparato revolucionário de guerrilha. Algumas armas, paus e pedras. E o ódio amoroso dos corações destruídos pela família real Lagolandesa.

Apesar da repercussão do caso, o general encarregado de dar cabo da tal Revolução dos Coraças, tão falada nos jornalecos republicanos, fez pouco caso do caso e mandou, no ocaso, assim, por acaso, pouquíssimos representantes do seu Exército para combater os senhores romanescos. Tiveram uma amarga e humilhante derrota. Todos os homens foram presos num calabouço improvisado num celeiro que encontraram na estrada – pobreza da revolução: não tinham nem onde guardar os seus prisioneiros de guerra.


A marcha da revolução impensada ia avançando. Espontânea. Quase pacífica, devido à negligência do Exército na pessoa do Marechal, que achava ridículo combater com todos os homens uma revolução de maricas.

Vergonha total quando a revolução de maricas bateu às portas da capital do reino, com cantos românticos e palavras de ordem versificadas – revolução liderada por poeta, coisa difícil de se ver. Já então tinha adquirido uma força tremenda, tendo, inclusive, um importante corpo organizativo encabeçado por alguns jornalistas politizados que viam na revolta uma possibilidade de implantar uma república socialista por meio da ditadura do proletariado, ou algo desse tipo.[4] O fato é que os revoltosos, organizados, tomaram facilmente um dos quartéis da corte, onde assassinaram – efeitos da guerra – o mais alto coronel, assumindo o controle do quartel e apontando as armas ameaçadoras para o palácio.

Ludovico III quase teve um infarto[5] quando viu a primeira torre do seu palácio ser alvejada por um tiro. Não chegou a cair, mas assustou um bocado.

Um mensageiro foi mandado ao palácio para comunicar ao rei o que se queria. A redação desta exigência foi a coisa mais demorada que se viu em matéria de revoluções, desde a época de Spartacus. Foi um dia quase inteiro discutindo o conteúdo da mensagem. Uns queriam exigir, de imediato, sanções em nome das vilas pequenas, liberação de presos políticos, essas coisas de revolução. Emanuel Rodrigues, pacato, queria apenas que fosse liberta a sua noiva. Pro inferno toda essa baboseira política. Mas não podia dizer isso. Reuniu-se com a recém formada cúpula do movimento e decidiu que iriam exigir a liberação da moça e a retirada pacífica da família real do palácio. Assim se fez.

O rei, no entanto, não se dobrou. Receberam a mensagem das mãos de um coraça jovem, parrudo e belo e devolveram um mulambo desfalecido e cheio de hematomas, trazendo um papel com a mensagem de resposta: “Não cederei!”

A resposta do movimento revolucionário foi mandar dois balaços de canhão na torre mais alta do palácio. A tréplica do rei foi três balaços no quartel, que resultou em cinco baixas para a revolução. Entre os mortos, Pedro, o jornalista amigo do Poeta da Vila. Não havia tempo para chorar. Era preciso repensar o método.

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Era o terceiro dia de quietude no reino. Depois de troca de exigências, ameaças de morte à agora intitulada refém Açucena, depois de balaços de canhão e mensageiros espancados de ambos os lados, tudo estava se acalmando e o clima de guerra parecia estar indo embora. Será que os tais Coraças fraquejaram?

Um agrupamento com os melhores homens do Marechal[6] foi destacado para averiguar com cuidado o silêncio dos Coraças. Bateram, sob liderança do próprio Marechal, em direção ao quartel em que se refugiavam os revoltosos. Tamanha a perplexidade ao perceberem que o quartel estava vazio. Vitória de Ludovico III. Os Coraças haviam se retirado!

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Era o dia do baile marcado pela família real, em comemoração à vitória do Reino de Lagolândia sobre os revoltosos covardes que bateram em retirada diante da superioridade do Exército de Sua Majestade.

Ludovico III não estava com cara de comemoração. Mal humorado, triste, andava a todo canto com cara de quem comeu e não gostou.[7] Dom Vladmir, conselheiro e amigo pessoal, chamou-o a um canto, estranhando o seu humor diante de uma vitória tão clara, a primeira do seu reino! Como poderia estar com aquela cara?

- Vladmir, você me conhece. É meu amigo de infância. O que te vou contar não deve ser revelado nem sob tortura.

- Claro, você tem minha palavra.

No dia anterior, confirmada a retirada do grupo revoltoso, Ludovico fora ao quarto de Açucena para ver se ela, enfim, cedia. Inventou algumas histórias para aumentar a tristeza e decepção da moça. Talvez assim ela concedesse com mais facilidade o que Ludovico tanto desejara nos últimos meses. Disse que os Coraças acovardaram-se. Que o noivo dela, como guerrilheiro, era um ótimo poeta. Que fugira ao ver o rosto de Ludovico, sozinho, indo a peito aberto ao encontro do líder da revolução passional. Estava disposto a negociar sua libertação. Se não o fizera foi por culpa do próprio poeta, que tremeu nas bases e fugiu de medo ao ver o opositor.

- Eu não acredito nisso! – disse ela, com a última força que lhe restava. E chorando, adquirindo força não se sabe de onde, agarrou o pescoço do rei e gritou num desespero profundo:

- O que você fez com ele, maldito?

Por uns instantes o rei apiedou-se. Mas foram instantes curtíssimos. Logo revoltou-se ao perceber quão grande era o amor de Açucena pelo seu noivo. Que diabo de amor era esse que não acabava mais?

- Já chega! – disse jogando a moça pro lado, na cama e se postando sobre o corpo dela – chega dessa palhaçada! A essa hora o seu poeta deve estar morto! Morto, entendeu? – E começou a despi-la bruscamente. Foi assim que aconteceu, à força. Injusto. Se Açucena tivesse alimentada e em disposição não permitiria que isso acontecesse.

Quando o rei amarrava o cordão das calças ela o fitou como nunca fitara ninguém antes. Com uma seriedade tremenda, disse:

- Eu tenho muito nojo de você!

Ludovico saiu, o semblante triste. Nunca se rebaixara a tal nível. Nunca precisara violar mulher alguma. Estava envergonhado.

Ficou vários minutos olhando seu rosto no espelho. Nojo? Então Açucena tinha nojo dele? Como é que alguém poderia ter nojo do rei? Isso podia? Não podia!

- Agora não te resta outra alternativa – disse o Dom.

- O que está dizendo?

- Você deve matá-la.

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[1] Mas atenção, excesso de honra e coragem pode causar obesidade.
[2] Ossos do ofício.
[3] Dedo de Deus, é o que diziam.
[4] Andaram lendo Marx, um alemão que escrevia umas coisas malucas por aquela época.
[5] Ou um infarte, que seja.
[6] Evitai trocadilhos.
[7] Metaforicamente, era bem isso.

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