3 de jan de 2011

A Revolução dos Coraças (Final)

- Mas como assim não encontraram ninguém?

- Simplesmente não retornaram às suas casas!

- Marechal, o senhor não está cumprindo direito o seu dever. Primeiro permite que um bando de poetas derrube a torre do meu palácio. Agora não consegue prender os responsáveis por essa tal revolução fajuta! Que tipo de militar é o senhor?

- Um militar sensato, majestade – irritou-se – acostumado a seguir ordens de verdadeiros chefes de Estado, e não a ficar cumprindo caprichos infantis! Tudo isso poderia ter sido evitado e vossa majestade sabe disso!

- Traidor insolente! Saia já da minha frente! Está deposto do seu cargo!

- Agradeço, majestade! – disse irônico o marechal e, ainda mais irônico, curvou-se diante do rei e saiu caminhando com passo firme. Ludovico III tinha assinado a sua própria condenação.

**************

A noite era fria. Inverno em Lagolândia. Ludovico estava preocupado, sentado numa das varandas do palácio. Havia já mais de uma semana que seus soldados procuravam os famigerados Coraças e não tinham nem vestígio deles. Onde teriam se metido? Será que foram buscar apoio fora? Seria na Espanha? Seria na Inglaterra, com a rainha que tanto queria sufocar Ludovico com sua sede imperialista? Quem é que sabe? Dava medo.

Estava marcada para o dia seguinte a morte de Açucena. Sem alarde algum. Discreta, como tinha sido sua presença no palácio até então. Clandestina. Não era preciso que ninguém ficasse sabendo. O rei não sabia que métodos usariam. Asfixia, veneno, pistola, paulada... Que se virassem! Era preciso que a moça morresse. Estava feia, decrépita. Não lhe interessava mais. Se a liberasse, segundo Vladimir, seria símbolo de fraqueza. Derrota. Afinal de contas, foi por causa dela que toda aquela revolução tinha começado. Não havia interesse algum em sua vida. Nem o poeta mais a queria. Faz bem. Por mais amor que ele tivesse, era melhor não vê-la naquele estado, era um favor que lhe fazia. Um favor à sociedade. A moça tinha que morrer. Pro diabo com os conflitos internos! Rei não tem direito a isso!

Além do mais, ela carregava um segredo que Ludovico queria esconder de si mesmo: a vergonha de ter tido que estuprá-la. Quanta baixeza! O Rei, rejeitado por uma provinciana! Essa vitória ele não conquistara e nunca conquistaria. Nos delírios febris Açucena ainda chamava por Emanuel Rodrigues, tratando-o por “meu poeta”.

Era tarde da noite. Mas Ludovico III não tinha sono. Vitória veio ver o que ele tinha, mas não obteve resposta. Se antes a comunicação entre rei e rainha – sócios de papel passado – era precária, agora era quase impossível. Vitória, princesa de um outro reino distante.[1] O que tinha de nobre não tinha de bela. Mas era a esposa perfeita para um rei. Quando se trata de famílias reais, perfeição é um negócio relativo.

Ludovico achou melhor acompanhar a esposa aos aposentos. Sabia que não iria dormir, mas ali começava a ficar insuportavelmente frio. Já estavam no corredor quando um cabo, desses que iniciaram agora no serviço militar obrigatório,[2] entrou correndo, esbaforido pelos corredores gritando em baixa voz:[3]

- Majestade, majestade! A menina escapou!

- Mas, como?

- São os Coraças, majestade. Cercaram todo o palácio.

Mal o rapaz terminou de falar um brado coletivo se fez ouvir às portas do palácio e o que se viu foi algo muito feio para ser descrito[4] aqui, embora possamos tentar. Uma multidão de homens armados com armas rústicas derrubando soldados e partindo em direção à casa de sua majestade. À frente, o poeta nandinavenho[5] com o rosto mais feliz do mundo, porque sabia sua noiva segura, longe das garras do rei.

- A gente tem que fugir – disse Vitória – esse povo é capaz de tudo.

Ludovico assentiu com a cabeça e dirigiu-se ao novo Marechal que acabava de entrar no gabinete.

- Quero esse povo todo escorraçado daqui. Se for preciso matar, que mate!

- Majestade, tenho uma coisa desagradável para dizer.

- Mais desagradável que essa baderna aqui?

- O Marechal Teodoro...[6]

- Ele não é mais marechal! Que tem ele aquele traidor? Diga logo, homem!

- O Marechal Teodoro está co-liderando os revoltosos.

- Patife traidor! Não me surpreende. Este eu quero impreterivelmente morto!

- Desculpa, majestade. Isso não será possível.

- Posso saber por que não? – Bradou o jovem monarca.

- O Marechal foi quem me iniciou no exército. É como um padrinho, como um pai pra mim. Não irei atentar contra a vida dele. Me demito também.

- Mas que história é essa? Tenho em minha companhia um exército de frouxos!

- Chame como quiser, majestade! E, se quer um conselho, acho melhor fugir enquanto é tempo.

O Marechal Teodoro, após ser deposto de seu cargo pelo rei, acabou encontrando, por conta própria, o esconderijo dos Coraças. Reconheceu no rosto de cada um que tinham muita coragem. Não eram revolucionários maricas, apesar de civis. Propôs acordo de colaboração e conseguiu convencer boa parte dos revolucionários, embora sempre haja algum que é mais revolucionário que outro.

Com sua experiência de guerra, conseguiu planejar um ataque certeiro ao palácio, libertando a filha das terras de Nandinávia, primeiro objetivo da revolução. Agora, cumprido o anseio do poeta-líder, cabia saber que fariam. Na dúvida, vence a maioria: o rei devia ser deposto imediatamente. À fina força de fuzis.

No meio da balburdia, ninguém achava mais ninguém, mas todo mundo sentiu falta do principal pivô da Revolução dos Coraças. O Poeta da Vila tinha sumido no meio da confusão.

- Acho que ele fez besteira – disse o ex-marechal.

Conhecedor dos esquemas de segurança, Teodoro sabia exatamente por onde o rei fugiria, caso houvesse alguma confusão como essa. Deixara escapar isso em conversa particular com o poeta. Supunha que o poeta estava lá, pronto a vingar sua honra e a de sua poetisa.

Sua suposição estava correta. Postado no corredor de segurança, Emanuel Rodrigues esperou por alguns instantes até ver uma porta se abrindo e dando passagem à família real completa. Deu um salto na frente, espada em punho e desafiou o rei.

- Vocês podem ir. Só há uma pessoa aqui com quem quero acertar as contas.

- Não tenho nada pra acertar com você. – disse o rei – soldados, prendam-no!

Força do hábito. Na ânsia de fugir da fúria popular o rei esquecera de levar com ele um ou dois soldados como escolta. Tinha demitido o marechal, ele aconselharia isso. Raios! O rei não é obrigado a pensar em tudo! Não havia ninguém para socorrê-lo.

 - Acho que vossa majestade terá que vir ela mesmo me prender. – disse o poeta, entregando uma espada em mãos do rei, que sorriu.

- Você nunca ouviu falar das minhas habilidades de espadachim?

- Já ouvi. Mas não confio que um crápula como você seja capaz de aprender alguma coisa!

- É o que vamos ver. Mamãe, Vitória, saiam. Vladimir vai acompanhá-las – piscou o rei, aparentemente querendo mostrar confiança.

Aflitas e relutantes, as duas rainhas saíram, acompanhadas do amigo de maior confiança de sua majestade e de dois outros conselheiros que pouco ou nada serviam a não ser comer as comidas do palácio. Se saísse dessa, Ludovico ia renovar boa parte dos seus conselheiros.

- Pronto? – disse rindo ironicamente – espero que saiba que não está empunhando uma caneta, mas uma espada.

- Os poetas fazem coisas que sua pequena inteligência não é capaz de imaginar.[7]

E começaram a trocar golpes, defendendo-se e atacando-se. Ludovico era mesmo um bom espadachim, na média. O que se dizia dele na corte era um exagero, na verdade. Diziam que ele era excepcional, mas Emanuel via que ele era um espadachim mediano. O poeta também não era tão bom lutador. Arriscou-se. Confiava na força do seu ódio. Mais ainda. Tinha ouvido do Marechal que essa fama de espadachim não procedia tanto assim. Arriscou. Dizem que amar é arriscar.[8]

Num golpe brusco, Emanuel Rodrigues cresceu sobre o rei, derrubou-o e rendeu-o ao canto de uma parede.

- Espadachim, não é?

Incrível. O rei estava derrotado, mas no seu rosto não havia uma ruga de medo. Logo ele, que parecia tão maricas! Coisa estranha. Emanuel não entendia. Mas não era preciso entender. Encontrara naquele quarto uma Açucena decrépita, pálida e inconsciente. O rei tinha de pagar por isso. Era preciso matá-lo, por mais que ele fosse contra esse ato extremo.

Preparou a espada, mas quando ia deferir o golpe sofreu outro, dado à distância. Uma bala de pistola penetrara as suas costas. Depois uma segunda e, por fim, uma terceira. Antes de perder totalmente os sentidos ainda pôde olhar para trás e ver o rosto de Vladimir, o fiel companheiro do rei, com uma pistola na mão.

O Marechal chegou tarde. Rendeu o rei e o seu conselheiro, mas não conseguiu impedir a covardia. O rei estava deposto, mas O Poeta da vila estava morto.

**************

Açucena abriu os olhos e logo reconheceu o lugar em que estava. Sorriu. Se ela estava ali, significava que tudo estava bem.

Sua mãe entrou no quarto para trocar as cortinas e surpreendeu-se quando viu a filha de pé, fitando o horizonte.

- A que horas ele vem me ver, mamãe?

- Não, minha filha, ele não virá.

O choro de Açucena pode ser ouvido do Espaço.

**************

Ludovico, encerrado numa masmorra de sabe-se lá onde – o tinham levado pra lá de olhos vendados, calculava o saldo de toda aquela palhaçada. Perdera o trono, se rebaixou a estuprar uma moça e agora estava preso. Matara um homem. Não era a primeira vez que enfrentava a morte. Mas fora a primeira que esteve tão frente a frente com ela. Como rei e como príncipe, encomendara muitos assassinatos, nem todos passionais, ao contrário do que se deve pensar. Alguns por vingança tola. Mas era a primeira vez que via um homem morrer, frente a frente, numa farsa que ele próprio tramara. Mas não sentia-se mal. Ou ele matava, ou ele morria.

- Senhor Ludovico – disse uma voz feminina, à porta da sela. Era estranho não ser chamado de majestade ou de alteza.

- Vá embora, menina!

- Não antes de você me devolver o que me tirou.

- Não amola, menina! O que eu tirei de você?

A moça abaixou o capuz que cobria a sua cabeça, revelando o belo rosto de Açucena:

- Minha honra!

Do lado de fora da masmorra pôde-se ouvir quatro disparos. Três soldados chegaram rapidamente na carceragem, a tempo de dar o flagrante:

- Em nome da República de Lagolândia a senhora está presa!

Açucena não pôde ouvir sua sentença. Caiu, segundos depois de contemplar o ex-rei jorrando o sangue nobre. Três tiros no peito do monarca. O quarto foi no seu próprio.

Novembro/Dezembro de 2010


[1] E haja reinos distantes para contar esta história! Esse eu nem sei onde era, mas nem preciso.
[2] Que voulez-vous que je fasse, ami? C'est l'histoire!
[3] Grito é grito, mesmo sem som.
[4] Tipo eu, assim.
[5] Nandinavense, nandinavês, nandinavasco, quem é que vai saber?
[6] Teodoro e não Deodoro, favor não confundir.
[7] Será?
[8] À luz de que autores?

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?