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29 de abr. de 2011

Esperar não é saber...



Deflagrada a greve pela Associação Docente da Universidade do Estado da Bahia (ADUNEB) – somando-se às outras quatro estaduais já em greve há cerca de uma semana, reacende-se a discussão acerca do ensino superior público em nosso estado e em nosso país. Qual a importância das universidades para a sociedade? Em que tem elas contribuído ao longo de todos esses anos? E, o principal de tudo, por que greve?

Levando-se em consideração os nossos mais de quinhentos e dez anos de história, universidade é uma coisa recente em nosso país. Sabemos que Dom João, durante sua estada na então colônia, foi bem “bondoso” trazendo para cá uma faculdade. No entanto, apenas muitos anos depois (1915) é que se organizou a primeira universidade na estrutura que conhecemos.

Importante diferenciarmos faculdade de universidade. Podemos dizer, grosso modo, que uma faculdade se ocupa com o ensino em áreas específicas, enquanto a universidade possui um projeto mais amplo, englobando o ensino, a pesquisa e a extensão como elementos indissociáveis, além de manter uma pluralidade de cursos e grupos de estudo e de pesquisa. Neste sentido, poderíamos dizer que se trata de um conjunto de faculdades, e de núcleos de atividades, visando formar não só pelo ensino, mas pela pesquisa e pela extensão.

A importância da universidade para a sociedade pode ser verificada através das demandas sociais que ela busca responder por meio dos três elementos indissociáveis que citei acima. Mantém, em geral, uma intensa produção científica por meio de grupos de pesquisa, projetos de extensão, programas sociais, parcerias com ONGs e movimentos sociais etc. Isto além de formação de profissionais de diversas áreas.

Especificamente no Departamento de Educação Campus X, localizado aqui em Teixeira de Freitas, podemos citar vários exemplos significativos de contribuição da Universidade do Estado da Bahia para a sociedade. Além da formação de diversos educadores, gestores educacionais e pesquisadores – vale citar que, entre os aprovados nos concursos públicos municipais da região, e mesmo no do estado, grande parte é de egressos da UNEB/DEDC X – temos também o funcionamento de vários programas e projetos de extensão, que mantém a universidade em contato com a comunidade. Apenas como exemplos, podemos citar o Alargando o Funil – pré-vestibular popular; o Projeto CEVITI, que atende a pessoas da terceira idade em diversas atividades culturais e artesanais; os projetos de estágio, monografia e pesquisas em parceria com várias organizações da sociedade civil, entre outros tantos.

No contexto atual, porém, especialmente em nosso estado, a universidade passa por diversas crises estruturais. Falta de professores, falta de funcionários, falta de recursos que auxiliem atividades de ensino, pesquisa e extensão e congelamento de salários e benefícios de professores e funcionários. É muito comum ouvir reclamações sobre as universidades estaduais, especialmente a UNEB – multicampi e presente em quase todo o estado – devido a essas demandas. É preciso compreender, neste sentido, que a greve, importante mecanismo de luta, se faz necessária para defender a manutenção da universidade, que corre risco de extinção diante do tratamento dado pelo poder público e pressionar a este para que atenda às demandas exigidas.

O estopim da greve deflagrada no último dia 27 é o decreto 12.583/2011, que estabelece medidas de contenção de gastos que prejudicam não só o funcionamento da universidade como de todo o serviço público. Soma-se a isto todas as demandas já existentes da pauta das associações docentes e discentes.

Se o discurso veiculado nos textos publicitários do governo é de que a Educação é importante, o professor precisa ser valorizado etc. etc. etc. é preciso que haja ações que o obriguem a enxergar que esse discurso bonito precisa também de práticas que o justifiquem. Dessa forma, mesmo que a greve prejudique a linearidade do calendário acadêmico, é preciso entender que a Educação será muito mais prejudicada em sua totalidade se não lutarmos para que seja enxergada pelos olhos das políticas públicas. A luta é por uma Educação (básica e superior) pública, gratuita e de qualidade.

Fernando Lago – Abril de 2011

* Este texto é de total responsabilidade do autor e não representa opinião oficial do movimento de greve.

19 de jun. de 2010

Breves Palavras sobre Saramago















"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer...”




Foi incrivelmente a primeira mensagem que vi na minha caixa de entrada do e-mail, pela manhã. O título era bem claro, o conteúdo mais ainda. Mas era, ainda assim, inacreditável. Morreu como? Como morreu?

José Saramago, único escritor da língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura! Com prêmio ou sem prêmio Saramago era um grande escritor! Um grande lutador! Um grande homem... Entretanto, ninguém merecia aquele prêmio mais que ele. Há alguns dias atrás uma promoção do Digestivo Cultural perguntava quem merecia ganhar o Nobel este ano... Confesso que não achei resposta. Quem seria tão genial quanto Saramago? Quanto o Márquez? Não sei...

Engraçado como quando a gente descobre algo ou alguém e de repente começa a ouvir falar dele(a) em toda a parte. Com Saramago foi assim. Na verdade não foi bem uma descoberta. Já havia muito que tinha notado a sua presença nos meus livros didáticos de literatura, mas fazia que não via. Birrento! Mas depois que comecei a lê-lo no Caderno de Saramago, li O homem duplicado e assisti Ensaio Sobre a Cegueira, passei a achá-lo genial. Daí vi que ele era muito mais que um escritor genial, era um homem genial, um grande crítico da sociedade e um amigo valiosíssimo dos movimentos sociais de luta. Descobri sua participação no livro Terra, de Sebastião Salgado – que traz várias fotos relacionadas à luta pela terra – e vi, espalhados por aí, muitos escritos que demonstram a sua preocupação com a justiça social.

Um grande homem sim senhor! Expressão clichê pra definir pessoas célebres, mas por que diacho tenho eu que fugir de clichês? É o que posso oferecer agora, já que atravessar o oceano e levar-lhe flores seria muito custoso e talvez nem chegasse a tempo... Restam-me os clichês.

Fernando Lago Santos – 18 de Junho de 2010

7 de out. de 2009

A vingança do berimbal

Como meus caros amigos devem ter reparado, não costumo postar aqui coisas que não são de minha autoria. Não é nenhuma birra com ninguém, nem vaidade intelectual de querer mostrar que é um blog independente ou coisa e tal. É só que eu tenho outros espaços para fazer esse tipo de divulgação (e-mail, orkut, netlog e tals). No entanto, resolvi abrir um parêntesis para postar essa poesia que li há algum tempo atrás e relembrei hoje quando ela foi citada na reunião com docentes e discentes da Pedagogia VI na UNEB. Considero muito propícia às últimas discussões, debates e aprendizados que tenho feito.

A vingança do berimbau

(Miguezim de Princesa)

I

Superado pelo tempo,

Ensinando muito mal,

Fabricando mil diplomas

Para entupir hospital,

O doutor da faculdade

Botou, com toda maldade,

A culpa no berimbau.

II

Disse o doutor Natalino

Que o baiano é um mocó,

Sem coragem e inteligência,

Preguiçoso de dar dó,

Só liga pra carnaval

E só toca berimbau

Porque tem uma corda só.

III

O sujeito ignorante

Não conhece o berimbau,

Que atravessou o mundo

Com toda a força ancestral.

Na fronteira da emoção,

Traz da África a percussão

Da diáspora cultural.

IV

Nem Baden Powel resistiu

À percussão milenar,

Uma corda a encantar seis

Na tristeza camará

De Salvador da Bahia.

Quem toca e canta poesia

Na dança sabe lutar.

V

O doutor, se estudou,

Na certa não aprendeu nada:

Diz que o som do Olodum

Não passa de uma zoada

E a cultura baiana

É uma penca de bananas,

Primitiva e atrasada.

VI

Jimmy Cliffi, Michael Jackson,

Paul Simon e o escambau

Se renderam ao Olodum

Com seu toque genial,

Que nasceu no Pelourinho

E hoje abre caminho

No cenário mundial.

VII

O baiano é primitivo?

Veja só o resultado:

Ruy foi o Águia de Haia;

Castro Alves, verso-alado

De poeta condoreiro,

E gente do mundo inteiro

Se curvou a Jorge Amado.

VIII

Bethânea, Caetano e Gil,

Armandinho, Dodô e Osmar,

Gal Costa, Morais Moreira,

Batatinha a encantar

João Gilberto, Bossa Nova

Novos Baianos são prova

Da grandeza do lugar.

IX

Glauber, no Cinema Novo;

Gregório, velha poesia;

Gordurinha, no rojão;

Milton, na Geografia;

Anísio, na Educação;

Dias Gomes, na encenação;

João Ubaldo e Adonias.

X

Menestrel da cantoria

Temos o mestre Elomar,

Xangai, Wilson Aragão,

Bule-Bule a improvisar,

Roberto Mendes viola

A chula – samba de Angola,

Nosso samba de além-mar.

XI

Se eu fosse citar todos

Que merecem citação,

Faria um livro de nomes

Tão grande é a relação.

Desculpe, Afrânio Peixoto,

Esse doutor é um roto

Procurando promoção!

XII

Com vergonha do que fez:

Insultar toda a Nação,

O tal doutor Natalino

Pediu exoneração

E não encontra ninguém,

Nem um nazista do além,

Para tomar a lição.

XIII

O baiano é pirracento,

Mas paga com bem o mal:

Dá uma chance a Natalino

Lá no Mercado Central

De ganhar alguns trocados

Segurando o pau dobrado

Da corda do berimbau..

11 de ago. de 2009

A Arte e a Sétima Arte


A Arte e a Sétima Arte[1]
Fernando Lago Santos[2]
nandescritor@hotmail.com

A arte imita a vida; a vida imita a arte. Essa proposição é há muito repetida para discutir os padrões estéticos relacionados à arte – ou aos diversos tipos (ou diga-se categorias) de arte presentes na nossa vida. O cinema – a sétima das belas artes – é talvez a que mais se aproxima das massas, por ser supostamente de fácil popularização por meio dos modernos veículos de comunicação. Contudo, não é muito raro perder o seu caráter de arte perante os olhos dos que o apreciam.

O estilo cinematográfico mais popular – ou mais vendido – tem sido o estilo à americana. Grandes produções à base de espetaculares logísticas para montagem de cenário, diversificadíssimos figurinos, efeitos sonoros e visuais estonteantes, tudo para proporcionar prazer - ou seja lá o que for – aos olhos de quem se digna a assisti-los.

Difícil entender. Mais complicado ainda explicar. Seria o cinema uma forma de arte? Seria apenas entretenimento? Ou seria ambas as coisas ou até mesmo algo mais, dependendo do enfoque que se dá?

Quando um filme aborda questões sociais, unhas encravadas nos pés da sociedade, é fortemente discutido, apoiado, questionado, defendido, atacado, polemizado. Mas todo o mundo sabe que ele não está ali para entreter. Todos sabem que ele tem algo a dizer. É um texto que precisa ser interpretado. Contudo, estaríamos nós devidamente alfabetizados para fazer uma leitura/interpretação deste tipo de texto?

Da mesma forma com que muita gente se proclama alfabetizada por ter aprendido a decodificar o “bê-á-bá”, a escrever seu nome – ou mesmo a soletrar PARALELEPÍPEDO, ou outras palavras mais complicadas, há aqueles apreciadores de belas artes que apenas aprenderam a decodificar as imagens, as cenas, os quadros, as tomadas, as falas. A alfabetização, a leitura, a interpretação é mais do que a decodificação das letras, palavras ou expressões de um texto; a leitura de um filme é mais do que a decodificação das imagens contidas nele. É a capacidade de interpretá-las de maneira reflexiva ou mesmo questionadora perante os modelos estéticos formais.

Os filmes de curta metragem, por exemplo, são constantemente bombardeados de interpretações e interrogações diversas. É difícil saber o que um diretor quis dizer com aquilo tudo (ou com aquele nada); talvez impossível. Impossível porque talvez o tal diretor não quisesse dizer nada com aquilo. Quis que seus apreciadores dissessem.

Encarar o cinema com obra de arte é algo muito complicado, repito. É preciso, porém, vencer essa concepção fechada sobre o que é arte. Costumamos erroneamente entender arte como sinônimo de clássico. É preciso que nos alfabetizemos e possamos fazer, com olhos críticos, a leitura de diversas obras de arte existentes perante os nossos olhos, e que constantemente se transformam em simples parte do nosso cotidiano, perdendo o seu teor – e sabor – de arte.
Fernando Lago Santos – Agosto de 2009

________________________________________________
[1] Esse texto foi escrito a princípio como requisito avaliativo da disciplina Artes e Educação. Conquanto tenha recebido nota 4,0, por não cumprir os requisitos característicos a um trabalho acadêmico, tomei a ousadia de mantê-lo no seu teor original por compreender que muitas vezes o que não serve à academia pode servir a outras categorias de linguagem. A versão corrigida será entregue ao professor em breve...

[2] Graduando do V semestre do curso de Pedagogia na Universidade do Estado da Bahia – Departamento de Educação Campus X (UNEB/DEDC X)

2 de jul. de 2009

Uma pitada de Saramago

Àqueles que não são leitores de Saramago - como eu até ontem, ponho aqui um trechinho do livro que estou lendo, O Homem Duplicado; até mesmo para entenderes por que falo em romper com antigas convenções estéticas.

"Houve um tempo em que as palavras eram tão poucas que nem sequer as tínhamos para expressar algo tão simples como Esta boca é minha, ou Essa boca é tua, e muito menos para perguntar Por que é que temos as bocas juntas. Às pessoas de agora não lhes passa pela cabeça o trabalho que deram a criar estes vocábulos, em primeiro lugar, e quem sabe se não terá sido, de tudo, o mais difícil, foi preciso perceber que havia necessidade deles, depois houve que chegar a um consenso sobre o significado dos seus efeitos imediatos, e finalmente, tarefa que nunca viria a concluir-se por completo, imaginar as consequências que poderiam advir, a médio e a longo prazo, dos ditos efeitos e dos ditos vocábulos. Comparado com isto, e ao invés do que tão peremptoriamente o senso comum afirmou ontem à noite, a invenção da roda foi um mero bambúrrio, como o viria a ser o descobrimento da lei da gravitação universal só porque uma maçã se lembrou de ir cair em cima da cabeça de Newton. A roda inventou-se e ficou logo ali inventada para todo o sempre, enquanto as palavras, aquelas e todas as mais, essas vieram ao
mundo com um destino nevoento, difuso, o de serem organizações fonéticas e morfológicas de carácter eminentemente provisório, ainda que, graças, porventura, à auréola herdada da sua auroral criação, teimem em querer passar, não tanto por si próprias, mas por aquilo que de modo variável vão significando e representando, por imortais, imorredouras, ou eternas. segundo os gostos do classificador. Esta tendência congénita, a que não saberiam nem poderiam resistir, tomou-se, com o decorrer do tempo, em um gravíssimo e se calhar insolúvel problema de comunicação, quer a colectiva de todos, quer a particular de tu a tu, que foi o de acabarem por confundir-se os alhos e os bugalhos, as tornas e as deixas, usurpando as palavras o lugar daquilo que antes, melhor ou pior, pretendiam expressar, do que resultou, finalmente, bem te conheço ó máscara, esta atroadora algazarra de latas vazias, este cortejo carnavalesco de latões com rótulo mas sem nada dentro, ou apenas, já desvanecendo- se, o cheiro evocativo dos alimentos para o corpo e para o espírito que algum dia contiveram e guardavam."
José Saramago - O Homem Duplicado

20 de jun. de 2009

Simone (A propósito de Filmes)

A propósito de filmes, estive pensando muito sobre isso nos últimos dias; fazendo considerações ponderáveis e ponderações consideráveis acerca da sétima arte, sem dúvida de grande significado sócio-filosófico para o ser humano. Não é nenhuma tese de doutorado. É apenas algumas coisinhas interessantes que estive pensando com relação aos filmes que assisti (e mesmo aos que não assisti).

Diz-se que não se julga o livro pela capa. Filme também é assim. E acrescento que não se julga o filme apenas pelo trailer. O que estou dizendo é que há filmes que conquistam a gente de maneira surpreendente, mesmo sem ter os elementos que a gente gosta de ver em um filme. O padrão industrial hollywoodiano. Vide De repente, Gina.

Os machões antiquados têm uma fala muito engraçada que ilustram isso. “Tem tiro? Não? Então não pode ser bom filme.” A verdade é que já está incrustado na nossa cabeça que um bom filme de ação tem que ter tiroteio, perseguições de carro, explosões, essas coisas. E realmente é muito excitante, mas só isso não é o bastante. Se o cara se fecha no estereótipo ele acaba escolhendo um mau filme sem querer. Tenho dois ou três exemplos desses em minha vida de telespectador.

Certa vez ao entrar na locadora vi que todos os bons filmes de ação estavam já locados, principalmente os lançamentos. Na prateleira havia apenas um, em cuja capa aparecia uma grande explosão de um ônibus numa rua movimentada de Nova York. Nem perdi tempo em ler a sinopse, joguei logo na sexta e loquei o filme. Ao chegar em casa, que decepção! A explosão que aparecia na capa do filme era a única em toda a trama, e acontecia lá no meio do filme, quando já se tinha até esquecido que locou o filme só por causa daquele estouro.

Agora uma coisa bem engraçada é que filme também tem seu tempo. Como assim? Exemplifico. Vocês provavelmente já viram Matrix. Talvez não a trilogia completa, mas pelo menos um deles você já deve ter visto. Este filme dividiu opiniões no cinema e a minha era totalmente negativa. Acontece que eu estava vendo o filme do ponto de vista do entretenimento. Alguns janeiros depois de eu ter assistido ao primeiro filme da trilogia na TV aberta, já ingressado na UNEB, abriu-se uma discussão acerca das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s). Para ilustrar o debate o professor promoveu a exibição de Matrix, o que foi encarado como uma grande besteira. Um filme de ação/ficção científica na Academia! Esse cara tá doido! No entanto esta exibição nos levou a enxergar o filme com outra linguagem, com outro ponto de vista, analisando o discurso dos personagens e a história que o filme apresenta. Achei a história impressionantemente relevante e nela podíamos inclusive identificar os conceitos de Ideologia e Alienação de Marx; com a diferença de que no filme os humanos são alienados de sua vida pelas máquinas – o que não estaria muito longe da nossa realidade, se as nossas máquinas não fossem governadas pelos próprios humanos. Mas aqui temos pano pra manga! Talvez em outra postagem...

Exemplo parecido foi uma vez que eu estava olhando os lançamentos, indeciso, lendo sinopses, observando as imagens, quando o cara da locadora (até hoje só o conheço como o cara da locadora) chegou e indicou-me A Ilha, “O melhor filme de ação do ano”, segundo o atendente, a revista e a capa do DVD. A opinião do cara da locadora, a fala da revista, as explosões na contracapa e a bela loira que protagonizava o filme me convenceram a levá-lo pra minha casa. Não consegui assistir. Vi os pedaços da estória nos momentos em que os outros assistiam e, apesar das explosões, gritarias, etc, não tive a mínima vontade de assisti-lo posteriormente. Ficou por isso mesmo. Alguns anos depois, estando eu sem fazer nada em casa liguei a televisão e que filme passava? A ilha! Estava no início, então resolvi parar pra ver se entendia qual era a daquele galego mais aquela loira. Gostei da história e assisti ao filme até o final.

Por último, gostaria de contar a reflexão que deu origem a toda essa análise amadora e exageradamente longa – eu ultimamente não tenho me controlado na escrita. Há já alguns dias que a fiz, a propósito de uma lembrança que tive.

Há cerca de três anos eu fui a Porto Seguro passar certo feriado prolongado com minha família. Estudava o 3º ano do ensino médio, na época. Como tinha um trabalho pra fazer e entregar vim na frente, chegando aqui mais cedo para dar tempo fazer o bendito trabalho. Ao chegar em casa vi na estante alguns DVDs de filmes e, olhando um por um não achei nenhum que me agradasse. Marquei apenas um mísero DVD pirata, sem capa e sem estampa, com um nome de mulher escrito a Piloto na superfície: SIMONE. Por se tratar do nome de uma mulher, achei que pudesse ser um filme razoavelmente bom. Marquei-o para dar uma olhadela depois.

Alguns dias depois, cumpridos os compromissos escolares, lembrei-me do tal filme e fui ver qual era a da tal Simone. A história parecia-me besta. Um diretor cinematográfico chamado Victor Taransky (Al Pacino) brigava com uma atrizinha exigente e acabava ficando sem possibilidade de realizar seu filme. A primeira parte do filme se limita a contar as mazelas deste diretor, separado de sua ex-mulher, que é ainda por cima uma das diretoras do Studio. Assim, correndo de credores e das dívidas, Vuctor acaba encontrando um expert em informática que lhe fala de certo programa de computador que revolucionaria os filmes da telona. Como o cara parecia um maníaco, Taransky dá pouca atenção pra ele. Aí você pergunta, mas onde entra a tal Simone nessa história? Calma!

Encurtando a estória, o expert acaba morrendo de câncer (justamente provindo de suas “atividades computadóricas”) e manda entregar os HDs com um programa chamado Simulation One a Victor Taransky. Simone (Rachel Roberts) é justamente esse programa. Explico: o projeto era criar uma atriz totalmente virtual, mas com uma eficiência nunca vista. Sem atriz para protagonizar o ser filme, Victor vê em Simone a sua única saída. Usa a atriz virtual como protagonista do seu filme, com certo receio de ser acusado de antiético pelas academias de cinema. Todos os medos do diretor se amenizam ao perceber que a principal preocupação da crítica cinematográfica era saber de onde um diretor tão obscuro teria tirado uma atriz tão boa.

Através de Simone, Victor alcança muito êxito e usa de técnicas de marketing para mantê-la no topo e para que ninguém saiba que ela é irreal. Simone vira uma pop star a nível mundial. Mas todos começam a desconfiar da fidelidade cega que Simone tem para com seu diretor e começam a acusá-lo de mantê-la em cárcere, lavagem cerebral, coisas desse feitio. Com o tempo Taransky passa a odiar Simone, mas não consegue reverter o seu sucesso. Então ele percebe que a única maneira de se livrar daquele fardo era Simone morrer. Anuncia ao mundo a morte de Simone e destrói, através de um vírus, o programa que lhe deu a fama. Junta todos os arquivos em um baú e o joga em alto mar.

Durante o enterro, porém, um policial fã de Simone, abre o caixão desconfiado e percebe que não há corpo. Victor Taransky passa a ser acusado pelo assassinato de Simone e é preso. Revela então a verdade, que Simone era apenas uma ilusão, um programa de computador, mas ninguém acredita, principalmente quando vem a público uma gravação do sistema de segurança do cais que mostra ele carregando um enorme baú. Quem descobre a verdade são sua filha e sua esposa, que conseguem recuperar todos os dados do Simulation One. Simone aparece em cadeia nacional e revela ao público que tudo não passou de uma estratégia de Marketing.
Foi ao lembrar este filme que desenvolvi toda essa reflexão acerca do cinema. Agora penso que é hora de parar... Já escrevi muito! E ler não é tão gostoso quanto assistir.
Fernando Lago - 20 de junho de 2009

1 de jun. de 2009

Seminário de Pedagogia da Terra

Centro de Formação Carlos Marighella

Nesse fim de semana tive oportunidade de vivenciar uma ótima experiência, que com certeza há de contribuir para o meu crescimento crítico e intelectual. Participei na última sexta (29) e sábado (30) do Seminário de Articulação do Módulo VI da Pedagogia da Terra.

O curso de Pedagogia da Terra é uma conquista dos movimentos sociais junto ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e à Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Na Bahia o curso acontece no Centro de Formação Carlos Marighela, que fica no Assentamento 1º de Abril, localizado na estrada de Cumuruxatiba. O curso é de responsabilidade da UNEB – Campus X e visa a formação de educadores e educadoras do campo, conscientes de seu papel social e da luta pela reforma agrária e é especialmente voltado a pessoas ligadas à Terra, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a outros movimentos sociais do campo. Na matriz curricular do curso não falta nada do que há nos outros cursos de Pedagogia da UNEB. A diferença é que o Curso de Pedagogia da Terra é enriquecido com discussões voltadas ao campo e à luta pela reforma agrária, além de terem componentes a mais, necessários à educação do campo, como direito agrário, por exemplo.


Mística

Os discentes vêm de diversos lugares e ficam no assentamento durante cerca de cinqüenta dias, que é o tempo que dura o período das aulas. Estudam durante todo o dia e mantém grupos de estudo durante os horários que não são de aula oficial. Foi uma ótima oportunidade de conversar com pessoas de diferentes lugares da Bahia e de outros estados, como um dos graduandos, que mora na divisa de Goiás.

Formação - Início do dia

Estavam presentes as professoras Cecília Mourão, Prof. Msc. Luzeni Ferraz, Prof. Msc. Jucilene Ferreira e Prof. Drª Nalva Araújo além dos monitores de ensino Fernando Lago (este simplório que relata), monitor de Educação do Campo (Prof. Luzeni) e Taís Nascimento, monitora de Sociologia da Educação (Prof. Nalva). O seminário foi na sexta e no sábado das 8 às 16 horas, encerrando com o filme Histórias de Um Brasil Alfabetizado, que traz diversos depoimentos de educadores(as) e educandos(as) da EJA.

Leitura de uma das Cartas de Ademar Bogo - Com trilha sonora rsrs

Algumas coisas me surpreenderam neste seminário, pois acabei por fazer algumas comparações inevitáveis com a forma como nós, discentes, encaramos os cursos aqui e lá. A primeira delas foi logo ao entrar no Centro de Formação e reparar em um rapaz que cuidava de toda a organização do encontro vendo se isto ou aquilo está bem e, mais tarde, ao iniciar o Seminário, convidando a mesa e mediando o debate entre os alunos e os componentes da mesa. Ora, que de surpreendente há nisso? É que esse rapaz era um dos discentes do curso, ou seja, os próprios estudantes organizam os seus seminários e os horários, cobrando inclusive dos próprios professores. É a tal auto-organização dos alunos, de Pistrak. Outra surpresa foi de, sempre acompanhado das professoras, chegar ao Centro de Formação e já encontrar os alunos na sua grande maioria prontos para iniciar as atividades, sem precisar um professor para chamá-los e exortá-los a iniciar. Além disso, quem regula os horários são os próprios alunos e os cumprem muito bem. Outra surpresa foi ver à noite, após o jantar, muitos alunos reunidos para estudarem juntos, além daqueles que foram procurar os professores para orientações na elaboração da monografia.

Professoras/coordenadoras do Estágio Supervisionado (Cecília, Luzeni, Jucilene e Nalva)

A convivência no assentamento é muito boa e os educandos do curso, bem como os assentados, são pessoas muito legais. A comida também é muito boa, mas isso não vem ao caso (só que acho que se ficasse lá um mês engordaria um bocado rsrsrsrsrs). Foi uma experiência excelente, inclusive para ver de perto a realidade acerca do MST que muitos veículos de comunicação não mostram. A grande maioria só sabe noticiar as “invasões” do movimento (enquanto noticia as “ocupações” dos EUA no Iraque), sem explicar a lógica e a filosofia desse povo que luta não apenas pela posse de um pedaço de terra, mas pela reforma agrária e pelo fim da desigualdade social neste nosso País.

Fernando Lago Santos - Graduando do V semestre do curso de Pedagogia na UNEB - Departamento de Educação Campus X - Teixeira de Freitas - BA


18 de mai. de 2009

A redenção de Saramago

Nunca li sequer um livro de José Saramago. É fato. Sei um bocado de coisa sobre ele. Que é patrício de Cabral, que é prêmio Nobel (“sou prêmio Nobel, e daí!”), que é um grande escritor, que é autor do Memorial do Convento e que não é novidade ver sua cara nos livros de Língua Portuguesa. Mas nunca li nenhum livro de Saramago. E não li por um motivo muito simples e que provavelmente é compartilhado por muitos outros brasileiros de vinte anos de idade: Preguiça.

Não só ela, mas principalmente ela. E isso não é privilégio de Saramago meu caro; não é nem privilégio de escritores portugueses. Aliás, gosto de Saramago; gosto dos portugueses. Mesmo sem conhecer o trabalho do lusitano virei admirador quando assisti uma entrevista dele num telejornal global, na época que eu assistia muito telejornal. A sutileza com que ele respondia às perguntas do repórter me fez achá-lo um homem realmente respeitável. Sem falar que os portugueses têm aquela ótima mania de falar correto, e de usar algumas expressões que, apesar de estarem contidas no vocabulário tupiniquim, você dificilmente vai ver um brasileiro usando. Mas tudo isso são admirações particulares que tenho pela terrinha. Meu senso literário é mais cruel.

Mas quando digo que não é privilégio de literatos portugueses é porque muitos brasileiros deram de cara com a minha preguiça antes de serem lidos. O principal deles foi Jorge Amado. Coitado! Ficava lá, na estante da biblioteca pedindo, implorando pra ser lido e eu dava uma olhada, analisava o volume, às vezes chegava até a ler a orelha, mas não passava disso. Quando lia algum livro de Língua Portuguesa e Literatura do ensino médio lia todos os trechos de obras, menos os de Jorge Amado e menos os de Saramago, lógico. Era uma birra tremenda, não conseguia ler nada do Jorge. Acontecia até de eu começar a ler alguma coisa sem saber de quem era a autoria e, não conseguindo chegar até o final, pensava: “Que texto, meu Deus! Vamos ver de quem é...” Aí quando via o nome de “AMADO, Jorge” no final suspirava: “Só podia ser”.

Quem me redimiu com o escritor ilheense foi uma professora, já no terceiro ano do ensino médio, da maneira mais humana possível: ela me obrigou a ler Gabriela, Cravo e Canela pra fazer um trabalho que valia a nota do último bimestre. Não deu outra, me apaixonei pela obra e, por livre e espontânea vontade, li outros dois livros de Jorge Amado. Ainda tem um bocado que devo ler, mas por enquanto tenho me dedicado muito à academia (sério!) e tenho lido muita literatura internacional. Deixa Amado pra daqui a alguns anos.

Quanto a Saramago, não chegou a ser uma birra irracional. A minha implicância com ele tinha um bom motivo além da preguiça. Acontece que eu sou um jovem antiquado, mais antiquado que Saramago provavelmente. Todos os trechos de livros que tentei ler de Saramago era aquela coisa bagunçada pra olhos literariamente conservadores como os meus. Sem travessão, sem pontuações de emoção, uma coisa quase inaceitável. No entanto, o homem é prêmio Nobel! Logo, eu mesmo considero a minha implicância como fruto de puro preconceito estético.

Mas nesta semana Saramago foi redimido.

Visitando o blog de um antigo professor aqui do campus X, o Prof. Msc. Moisés Augusto, famoso Professor Catatau, encontrei um link para o site da Fundação Saramago, o que me levou, depois de tantas idas e voltas, a visitar o blog O caderno de Saramago, onde encontrei um Saramago diferente do que eu imaginava. Gostei muito dos textos e adicionei o endereço do blog aos meus favoritos. A linguagem do portuga é de primeira e começo a admirá-lo muito mais do que antes. Essa admiração é muito saudável, porque se o admirasse antes seria simplesmente por ele ser prêmio Nobel. Como já sabia da história do prêmio antes e ainda assim mantive a marra, significa que agora o admiro com profunda sinceridade literária.

Quem diria! Depois de tantos anos de livros, um blogue (eles escrevem assim em Portugal) vem me redimir com um grande figurão da Literatura!

Estou me preparando para ler algum livro de Saramago. Obviamente preciso preparar o meu espírito, desfazer-me da minha concepção antiga sobre o que é estético e o que é torto numa produção textual. Só assim poderei ignorar a ausência de travessões, pontos e outras coisas no texto de Saramago, e então poderei dar atenção apenas à sua linguagem. Afinal de contas, pra ser prêmio Nobel de Literatura o cara deve ter de escrever alguma coisa de bom, não é mesmo?

Fernando Lago Santos – 18 de Maio de 2008


25 de nov. de 2008

Resumo do artigo publicado nos anais do II Encontro de Educação, Marxismo e Emancipação Humana - Território de Irecê


Os dilemas da interdisciplinaridade e os desafios do Trabalho Interdisciplinar no Curso de Pedagogia: reflexões iniciais[1].

                                                                                 Fernando Lago Santos[2]

                                                                                                nandescritor@hotmail.com

                                                      RESUMO

O estudo teve como objetivo refletir as práticas interdisciplinares que vêm sendo vivenciadas no Curso de Pedagogia, especialmente nos dois primeiros semestres. Problematiza as contradições da sociedade capitalista e as exigências curriculares demandando práticas interdisciplinares. Questiona até que ponto essas práticas interdisciplinares buscam a superação da fragmentação do conhecimento na sua essência  ou apenas atendem às demandas de formação do trabalhador flexível necessário ao novo modelo de produção capitalista. A teoria do conhecimento norteadora do trabalho foi o materialismo histórico-dialético, adotando como referências teóricas básicas para o estudo da interdisciplinaridade os autores BIANCHETTI; JANTSCH (2003) e BRINHOSA (2003). O estudo foi de cunho teórico- prático, o qual se analisou as práticas vivenciadas iluminados pelos referenciais teóricos acima citados.   Os resultados indicam que as práticas até então vivenciadas se aproximam de uma concepção idealista, visto que, o que se tem na verdade é buscado a solução para a fragmentação do conhecimento por meio da abordagem que não  tem avançado  para  além do conceito como  metodologia, e ainda tem se rendido à salvaguarda nos moldes capitalistas. Desse modo, conclui-se que a interdisciplinaridade numa perspectiva critítico-emancipatória, só é possível pelo materialismo histórico-dialético, pois esta teoria possibilita a necessidade de uma análise interdisciplinar para além dos conteúdos e metodologia escolares, sobretudo, para além  da  organização escolar, ou seja, para  toda  a sociedade.

 

Palavras chave: Interdisciplinaridade, práxis pedagógica, pedagogia, currículo.



[1]Trabalho realizado no componente curricular Trabalho Interdisciplinar do Eixo III sob a orientação da professora Maria Nalva Rodrigues de Araújo.

[2] Graduando do III semestre em  Pedagogia do Departamento de Educação Campus X - DEDC- X    da Universidade do Estado da Bahia-UNEB.

Trecho Inicial do texto 

(Corrigido pela Profª Drª Maria Nalva Rodrigues de Araújo e Profª Msc. Luzeni Carvalho - Uneb - campus X.)

Este trabalho é o resultado dos debates, interrogações, problematizações realizados no componente curricular Trabalho Interdisciplinar do Eixo III do Curso de Pedagogia no Departamento de Educação/Campus X da UNEB, localizado em Teixeira de Freitas. O mesmo teve como objetivo refletir os desafios de um trabalho interdisciplinar no contexto da sociedade capitalista, sociedade essa, de contradições permanentes. 

 A discussão do complexo interdisciplinar é uma constante no âmbito educacional, sobretudo nos cursos de formação para professores. A abordagem da interdisciplinaridade tem sido uma exigência dos cursos acadêmicos, nas escolas de ensino fundamental e médio como uma proposta supostamente redentora para a educação, que se encontra problemática devido à fragmentação dos conteúdos, estes separados em matérias ou disciplinas. Objetiva-se com o presente texto refletir e relacionar as concepções teóricas, a partir de dois artigos concernentes ao tema, com a experiência, por nós vivida através da disciplina Trabalho Interdisciplinar do Eixo I e II (cursadas no primeiro e segundo semestre respectivamente), componente curricular do curso de Pedagogia que busca inter-relacionar os assuntos acadêmicos do semestre em curso entre si.

18 de out. de 2008

Texto Original da Fala da Imprensa

A vida nos palcos é surpreendente. Sabem disso todos os artistas, teatrólogos, cantores e afins. Quando nós (o clube do bolinha da Uneb) mostramos a cara para apresentar aquela sucintíssima (ou lacônica, como diz o companheiiro Pericles) peça sobre a obra de Paulo Freire, tinhamos um pequeno texto em mente, que no entanto, não foi apresentado em seu contexto original devido a alguns fatores imprevistos, mas previsíveis. Tomo a ousadia de publicar aqui, uma vez já apresentada a peça, que integravca a apresentação de um seminário de Didática, esse tal texto, no contexto que o idealizamos.

Fala da Imprensa

(Um defensor das idéias de Freire entra e começa a falar aos circunstantes:

- Companheiros,

Paulo Freire em sua obra vem nos pregar o quão é importante que leiamos o mundo, e que a leitura não é apenas codificação de palavras. A leitura do mundo precede a leitura da palavra!

Ora, meus amigos! A educação é um ato político. Não há educação neutra, como dizem os aloprados que só querem ver os interesses do capital reproduzidos através da escola.  A educação, nos diz Freire, nunca foi nem será neutra. Para os interesses dominantes o neutro é a reprodução dos interesses capitalistas, sem que se permita uma visão da historicidade do real. Isso lá é neutro, meus caros amigos? Esse progressismo às metades da educação formal do capital, exigido de quando em vez pela conjuntura, e que é na verdade uma ressalva apenas ao progresso tecnológico, sempre ressaltando que é importante para economia e coisa e tal... Daí eles dizem que os progressos, a imprensa, a cultura, etc Devem se dar de maneira neutra, quando na verdade estão simplesmente reproduzindo os interesses do capitalismo

Ensinar não é transferir conhecimento; é criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. Não há docência sem discencia, a discência do próprio professor o leva à docência, mas ensinar exige rigoroso metódo, não deixando escapar nenhum detalhe em seus discentes, e deve despertar no educando a curiosidade e capacidade crítica, ensinar exige pesquisa, não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Ensinar exige respeito aos educandos, exige criticidade, deixar de ser ingênuo e passar a ser crítico, mas no sentido de ser curioso, seja em forma de pergunta ou não isto gera o fenômeno da aprendizagem, tudo isto acompanhado da ética e da estética porque ética e beleza andam sempre de mão dadas, ensinar exige dar vida às palavras pelo exemplo, o professor que não consegue traduzir aquilo que diz em exemplos práticos, de nada serve o que ele fala, saber quer dizer segurança no que diz. Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação, exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural, exige consciência de que nunca esta acabado e sim que tudo recomeça, exige o reconhecimento de ser condicionado, exige respeito à autonomia, exige bom senso, exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores, exige entender a realidade e não ficar alheio a ela, exige a convicção de que a mudança é possível, exige segurança, competência profissional e generosidade, exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, exige liberdade e autoridade, exige tomada consciente de decisões, e saber escutar que é muito importante e ser aberto ao diálogo, exige reconhecer que a educação é ideológica, exige querer bem aos educandos, e por fim exige alegria e esperança, nos homens que fazem as leis deste pais e na instituição família que apesar de tudo continua sendo um porto seguro para aqueles que não entendem e não aceitam as violências praticadas por quem tem o poder o conseqüentemente a força.

 SOLDADO 1: Comunista! Como ousas empregar tais falácias aqui?

 FREIREANO: O que ouvistes foi verdade!

 SOLDADO 2: És um arcano! Um esquerdista que não tens o menor senso crítico!

 FREIREANO: Que é senso crítico? Aceitar as ordens do capitalismo? Viver sob os mandos e desmandos do mercado estrangeiro? Educar segundo um preceito consumista de vida? Paulo Freire nos ensina que...

SOLDADO 1: Freire??? Aquilo é um velho arcano e ignorante! Um Esquerdista maquiavélico que usava de terrorismo ideológico para doutrinar pessoas...

 FREIREANO: Mas afinal, um arcano? Ou um terrorista maquiavélico?

 SOLDADO 2: Um arcano maquiavélico e ignorante! Cabem nele todas as descrições. Em nada contribui para a sociedade ocidental.

 FREIREANO: Isso lá é defeito? Contribuir para essa sociedade capitalista ocidental! Acho que não queríamos isso mesmo...

 SOLDADO 1: Não contribuiu em nada para a educação! Nem se quer realizou um trabalho efetivo para nosso país!

 FREIREANO: Claro! Foi exilado e teve de ciscar em outro terreiro! Tornou conhecido o “The Paulo Freire’s Method”... Mas alguém aí já ouviu falar em The Mobral’s Method, ou algo parecido?

 SOLDADOS: Sua ignorância me leva aos nervos! Chega de argumento! Serás exilado, esquerdista ignorante! O esquerdismo só serve pra preencher buraco de quem é vazio de teoria... A educação no Brasil não vai para frente porque todos os professores são esquerdistas! As escolas só estão formando marxistas. E esse ensino de esquerda vai acabar!

 (saem levando o Professor)


11 de out. de 2008

Texto Acadêmico (Pra não acharem que só escrevo abobrinha)

Resumo do Livro “A Educação Para Além do Capital”
Por Fernando Lago Santos[1]

Istvan Mészáros, professor emérito da Universidade de Sussex, traz-nos neste “pequeno grande livro”, como bem o definem alguns críticos, uma importante abordagem sobre a nossa educação atual, que está voltada especificamente para os interesses do capital. Inicia nos apresentando três epígrafes, que enfatizam a importância do aprendizado na vida do indivíduo, além de mostrar que a própria vida é o aprendizado, não apenas a escola. As epígrafes nos dizem também que o aprendizado acontece durante toda a vida e “não pára senão com a morte”. O ensaio é dividido em quatro partes, sendo a primeira uma apresentação sucinta da lógica do capital, por meio de citações a Owen e a Smith, que propunham reformar a educação pela própria educação, o que Mészáros vai chamar de soluções formais. Na segunda parte Mészáros parte da frase de José Martí para explicar a necessidade de soluções para a educação que escapem às formalidades do Capital, como já adiantado na análise das propostas de Owen e Smith. Na terceira parte o autor aborda o caráter multifacetário da educação e a necessidade de se ver a educação para além dos muros da escola. Por fim, na quarta e última parte, ele aponta que as soluções para os problemas da educação devem vir juntamente com a transformação social, que muitas vezes é esquecida pelos profissionais, ao buscarem mudar o mundo por meio da educação.
É preocupação intensa do autor deixar claro que não é possível uma educação diferente sem que haja uma quebra violenta da lógica do capital. A mudança na educação deve vir acompanhada com as mudanças estruturais necessárias no quadro social, pois “a educação e os processos de reprodução mais amplos estão intimamente ligados.” Não é possível, portanto, uma conciliação entre as necessidades reais da sociedade e da educação e os interesses do capital. A lógica do capital é incorrigível e, para haver uma mudança nas estruturas sociais é necessário quebrá-la. Justamente para esclarecer essa idéia é que Mészáros cita as reformas propostas pelo socialista utópico Robert Owen e por Adam Smith que, conquanto tivessem preocupações humanitárias e denunciassem a miséria e a exploração dos pobres pelos ricos, esperavam que a mudança viesse através da razão, do esclarecimento, chegando Owen a dizer que era próximo o dia em que o homem não mais exploraria o homem, pois seria esclarecido e teria a consciência de que isso causa sofrimento à humanidade. Quanto às falas de Smith, elas simplesmente abordam o assunto culpando o próprio trabalhador por sua condição. chegar.pondo uma r juntas, ntarrefa de transformaçancipaç Para Mészáros, no entanto, a mudança não pode vir por um simples esclarecimento. O autor reconhece que as intenções de Owen são nobres, no entanto aponta que são idéias são problemáticas porque têm “que se conformar com os limites debilitantes do capital.” Segundo ele, esse pensador utópico tenta algo impossível: “a reconciliação de uma concepção utópica liberal/reformista com as regras implacáveis da ordem estrutural incorrigível do capital”. A solução para a educação deve ser essencial e fugir à mera formalidade, principal interesse do capital, cuja concepção de educação está pura e unicamente voltada para a manutenção do sistema opressor. De nenhuma outra forma o capitalismo poderia permanecer; a alienação das massas é uma condição para a sua sobrevivência. Acerca disso Mészáros inicia a quarta parte do ensaio dizendo que o motivo pelo qual nosso mundo vive em uma alienação desumanizante é simplesmente pelo fato de o capital não poder sobreviver de outra forma. Daí o fato de o autor dizer que a lógica do capitalismo tem de ser quebrada e não reconciliada. O capitalismo nunca abrirá mão de seu poder e sempre há de aplicar-se na alienação por meio das ideologias, a fim de que a verdade não seja conhecida pelos oprimidos e os opressores continuem a oprimir. O que Mészáros propõe é uma educação que busque mudar não isoladamente a educação ou, melhor dizendo, não particularmente a escola, mas a sociedade em si, já que a educação é a própria vida. Isso só será possível se se romper totalmente com a lógica do capital. Sua proposta de educação, como não poderia deixar de ser, é a educação para a mudança, mudança estrutural da sociedade que deve se dar concomitantemente com a mudança educacional. Assim, conclui o ensaio dizendo que as mudanças da educação jamais acontecerão separadamente das mudanças sociais. A mesma tarefa de educar deve ser a de lutar pela emancipação social, não apenas dos alunos ou da renovação do processo educacional, mas de toda a sociedade. Diz Mészáros que a tarefa educacional e a tarefa de transformação emancipatória devem caminhar juntas, não sobrepondo uma à outra.
Minhas Impressões Acerca do Ensaio
Mészáros, neste trabalho, deixa-nos bem clara sua opinião acerca do sistema educacional vigente em nossa sociedade. Não mede palavras ao abordar o que tantos outros marxistas têm, também, afirmado sobre este assunto: que os nossos métodos educacionais são condicionados por idéias capitalistas. O livro nos leva a uma profunda reflexão sobre o nosso fazer pedagógico – que não é exclusividade do professor do ensino formal, como ele esclarece ao citar Paracelso, que diz que “a aprendizagem é a nossa vida, desde a juventude até à velhice, de fato quase até à morte; ninguém vive durante dez horas sem aprender".
Ora, nós como futuros pedagogos temos que tomar consciência disso. Que somos nós? Meros reprodutores de uma educação maquilada pelas ideologias capitalistas? Bonecos manuseados pela máquina do capital com a pura e única missão de transmitir aos alunos os saberes necessários à inserção no tão falado mercado de trabalho? Ou sujeitos de uma educação emancipatória que visa introduzir os educandos na sociedade com uma mente crítica e não moldada por ideologias capitalistas? O que o autor propõe é que se opere uma mudança nos processos educacionais não apenas visando a escola, mas a sociedade como um todo. O que temos feito é reclamar dos salários, reclamar das más condições, da violência ideológica contra o professor, tarefas típicas de sindicatos. A questão toda não é o reclamar como uma classe isolada, mas deve-se buscar a prática de um protesto voltado à conscientização de toda a sociedade, pois sociedade e educação devem atuar juntas no processo de emancipação humana. É difícil escapar à ideologia que invade a educação em espaços formais e não formais. É preciso, no entanto, que abramos nossos olhos, que ampliemos nossa visão e possamos enxergar com nitidez a educação para além do capital. Apliquemo-nos, portanto, nesta luta diária do professor, que deve ser também em sua essência um pesquisador social.

[1] Graduando do III semestre de Pedagogia na Uneb – Dedc X