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24 de jul. de 2013

Sinfônica


De repente começa a tocar uma música que me toca. Conheço as notas, sei o motivo de cada posição na partitura e cada tilintar de instrumento: o menor detalhe que seja, me faz pensar em algo que ainda não sei exatamente definir. Como assim? E essa pergunta sou eu mesmo que me faço a mim. Sei que aquela canção significa alguma coisa, sei que alguma coisa no meu passado teve aquele conjunto de notas organizadas na ordem definida por um compositor e executada por vários músicos como trilha sonora de alguma ocasião da minha vida. Puxo pela memória. Não, não foi nenhuma namorada, porque as tive poucas e nenhuma delas esteve direta ou indiretamente ligada a essa peça musical. E nem poderia, porque a tal peça é um instrumental, contemporâneo, mistura Beethoven e Mozart com batidas de eletrônico. Aliás não tão contemporâneo assim, porque o eletrônico não é o mesmo eletrônico de agora, mas o de uma ou duas décadas atrás, que não tinha tanta tecnologia computadórica e ilumativa como as de hoje. Mas não, não era nenhuma namorada porque nenhuma das poucas que tive curtiria uma canção com este modelo. Não, nenhuma delas, nem meu pai, meu saudoso pai que ainda vive e só é saudoso no sentido de que há tempos não me vê e vive dizendo que tem saudade de mim, no mais, vende saúde, mas só vende no sentido de que ele é farmacêutico, mas anda adoentadinho, o coitado. Não, meu pai, farmacêutico, não apreciaria essa canção, já que prefere um bom sertanejo, mas daqueles sertanejos caipiras, de verdade, não esses sertanejos urbanos de hoje em dia. Não, nem meu pai, nem minha mãe. Porque minha mãe não entendia nada de música e me repreendia se eu ouvia música sem letra, porque para ela uma música só com instrumentos era uma música aleijada. Nem minha mãe, nem meus irmãos, porque eu era filho único.
Mas que raio de música é essa que toca, que me faz refletir coisas fora do comum e de um jeito fora do comum com comparações toscas e explicações demasiadamente prolixas? Sabemos por que estamos falando dela. Ela me lembra de algo. Se eu conheço a música, é claro que conheço. Conheço-a muito bem. Mas não é o fato de conhecê-la. É o que ela traz em suas notas e acordes. E a investigação que se me dá é justamente de buscar o porquê de eu estar com o ouvido colado nessa canção, tentando reviver algo que ela me traz sem eu sequer saber o que seja.
Vejamos, conhecemos a música, vamos escutá-la com calma. Sim, é ela mesmo, lembro-me dela porque tocava na casa do vizinho que era metido a intelectual, embora não entendesse nada de música falava da perfeição que era aquele conjunto contemporâneo e não estava errado em nada, mas isso eu só descobri depois que aprendi música... espera. Então é isso, nessa época eu era criança e não sabia nada de música... sim, a canção do vizinho de outrora é a do vizinho de agora – sim, é um vizinho, jovem, que a ouve neste momento.
É isso o que essa canção traz. Não é uma lembrança, não é a vontade de ver uma pessoa. O sentimento que traz é todo o contexto da época em que a ouvia com frequência, todas as lembranças, todas as pessoas, todas as brincadeiras e o programa de TV que passava na época e a hora de ir pra missa e o galo cantando fora de hora e o cachorro que mijou na porta da rua e o arroz que estava caro e o cheiro de café à tarde e o meu pai que estava cansado e pedia para o vizinho abaixar o volume...

Uma canção pode guardar tanta coisa junta... É o melhor baú que se pode ter.  

Fernando Lago - Julho de 2013

25 de mai. de 2013

Hamartía


Faltando alguns minutos para o exame prático o telefone celular toca o hit do momento, coisa que não surpreende nenhum dos circunstantes, visto que o sujeito tinha mesmo cara de quem gosta de um bom rebolejo.
- Sou eu, pode falar.
- Aqui é o deputado Peixoto, lembra-se de mim?
- Claro, como não lembraria?
- Pois é, gostaria de um favor enorme seu.
- O que estiver ao meu alcance, excelência.
- Não precisa me chamar de excelência, estamos entre amigos. Olha só, hoje tem na sua lista aí um Marivaldo Carneiro...
- Só um minutinho, deputado – disse ele e, sabendo mais ou menos aonde ia aquela conversa, afastou-se dos candidatos que aguardavam o início do exame, isolando-se à sombra de uma árvore que havia no terreiro do Departamento de Trânsito.
- Pode falar agora.
- Muito bem, esse Marivaldo Carneiro é filho de Renaldo Carneiro, que vem a ser dono da Carneiro eventos, que por um feliz acaso patrocinou minha campanha... o senhor está entendendo onde quero chegar?
- Sim, mas devo perguntar uma coisa.
- Que coisa?
- Esse rapaz sabe mesmo dirigir? Porque tem coisa que a gente pode maneirar, pode ser nervosismo tal, geralmente a gente reprova o candidato, mas, quando é conhecido, a gente dá uma aliviada, né... Mas a gente não pode aprovar qualquer um...
- Mas não é qualquer um, o senhor não confia em mim?
- Claro, confio, deputado, só estou falando...
- Tudo bem, o senhor é um profissional. Se ele for realmente ruim, o reprove – o tom do deputado já não era tão cordial – não estou te pedindo para fazer nada além do que o senhor faz para seus conhecidos. E eu sou seu conhecido, não sou?
- Claro que é, deputado. Pode deixar, ajudarei da maneira que puder.
Desligou o telefone e encaminhou-se aos candidatos, que já aguardavam impacientes. Um sujeito magro e miúdo resmungava e o nosso avaliador só pôde ouvir as últimas palavras: “...tudo que é público é essa merda mesmo”.
- Muito bem – disse com a prancheta na mão – vamos iniciar com o senhor... Marivaldo Carneiro. – E disse consigo: “Tomara que não seja tão ruim, o moleque”.
O rapaz devia ter dezoito ou dezenove anos. Cara de arrogante, jeito de moleque inconsequente. “Pela batida da porta do carro se conhece o caráter de um homem”, pensou o avaliador, e não gostara nada, nada do caráter desse Carneiro, que antes mesmo de ele declarar iniciado o exame já dava a partida ao carro e começava a fazer as manobras de garagem. Só essa atitude já lhe cabia a perda de alguns pontos. Depois tocou os cones com a lateral do veículo, mais alguns pontos, aliás, menos alguns pontos. Por fim, e só quando o carro parou que o avaliador pôs reparo, o motorista estava sem o cinto de segurança, o que lhe caberia a reprovação imediata. Felizmente para o avaliador e para o avaliado nenhum dos outros candidatos podiam ver esses detalhes da prova, devido à distância que lhes era imposta entre o local de espera e o local de avaliação. O sujeito saiu do carro com a mesma arrogância, com a mesma cara de bunda, mas com ar de satisfação, como se tivesse feito o melhor estacionamento do mundo, ao passar pelo avaliador perguntou:
- E aí, como fui?
- O resultado é publicado no nosso site em até 48 horas – disse friamente, o rapaz saiu com o ar irritadiço.
Demorou-se dois minutos a decidir em qual quadrinho marcava um xis: se no de aprovado ou no de reprovado. Não tinha muito tempo de ponderar. Aprovou-o. E deu sequência aos exames.
Alguns dias depois o telefone toca, o mesmo número e a mesma voz do dia dos exames: ele sabia quem era.
- Estou muito satisfeito, se precisar de alguma coisa é só me procurar nesse número.
- Muito obrigado, deputado.
Passaram-se dias, meses, semanas. Já estava o episódio esquecido, esfriado, morto e enterrado. Ia o nosso avaliador pela avenida quando vê, com os próprios olhos, um carro de luxo se descontrolar, bater num poste e ainda de quebra atropelar uma senhora não tão senhora de si que no momento atravessava a rua distraída (distraída ela, senhora, não a rua).
Seguindo o instinto humano de ajudar o outro (ou de curiosidade, quem sabe), o nosso avaliador parou o carro e foi primeiro ver a vítima do atropelamento, que expirara no mesmo momento, o que era trágico, mas para o que qualquer ajuda seria vã. Em seguida foi até o carro e qual não foi a sua surpresa em reconhecer o tal Marivaldo Carneiro, coisa que o leitor já deve estar desconfiado que fosse acontecer desde o início do parágrafo anterior.
Carneiro estava consciente, apenas estagnado pelo susto do acidente. Olhava a frente do carro com os olhos vidrados e as mãos trêmulas.
- Você está bem? – perguntou o avaliador – não se machucou?
- A mulher morreu?
- Infelizmente sim.
- Tô fudido, muito fudido.
O avaliador do departamento de trânsito fez três ligações. Uma para a polícia, praxe em caso de acidentes e porque qualquer outro logo o faria, já que como se sabe acidentes juntam populares mais rápido que doce junta formiga. A segunda ligação foi para a emergência, e a terceira foi para o deputado Peixoto, que rapidamente ajeitou a situação e livrou o filho do amigo de um processo criminal coisa que revoltou a família da senhora atropelada e uns tantos quantos na internet, mas graças ao testemunho do nosso avaliador que até agora não teve nome, o processo correu como infração de trânsito, tendo cabido como pena ao nosso jovem lobo em pele de Carneiro apenas uma multa irrisória diante do lucro da empresa de seu pai e a perda da autorização para dirigir, coisa que em um ano ou menos ele pode recuperar, provavelmente com a ajuda de algum avaliador conhecido do conhecido do seu pai.
Mas este não será o nosso avaliador, que agora já não é avaliador, mas diretor do Departamento de Trânsito, cargo que atingiu meritocraticamente, segundo a insuspeita opinião do deputado Peixoto. E para que não termine a história sem que nosso personagem principal tenha um nome, chamá-lo-emos de Diretor Morais.
Morais, digo, Moral: Está cada dia mais difícil conseguir uma catarse nesse país.

Fernando Lago – Maio de 2013

7 de mar. de 2013

Crônicas do futuro: a batalha dos mundos distantes

Imagem: Batalha de Avaí, quadro de Pedro Américo - Museu Nacional de Belas Artes 


Em meados do século XXI Josué Tira-gosto disse que esse negócio de game on-line um dia ainda acaba destruindo o mundo. Josué Tira-gosto disse isso e ninguém o ouviu. E nem poderia ouvir, visto que Josué Tira-gosto era um homem com uma capacidade muito peculiar: podia ficar invisível. Invisível, inaudível, inodoro – isso nem sempre. Bastava Josué Tira-gosto colocar o seu uniforme de gari e ninguém mais o via, a não ser aqueles que lhe acompanhavam na lida, seus iguais, invisíveis, garis.
Passava um conhecido, desviava o olhar. Outro conhecido, o olhar no horizonte. Outro dia foi tirar satisfação com Tonhão Mestre-de-obras e ouviu a esfarrapada desculpa de que o amigo não lhe reconhecera. Mas ora vejam!
Esta, entretanto, não é a história de Josué Tira-gosto, que era assim chamado porque nos fins de semana gastava seu tempo na porta do Bar de Gertrudes Caçarola comendo carne gordurosa e nada higiênica, hábito que o fez ir a óbito muito antes desta historia acontecer deixando-lhe a oportunidade de entrar nela apenas para serem citadas as suas proféticas palavras, quando se referia ao hábito inocente da filha de jogar o “jogo do momento” dos adolescentes da época. 
Vários anos depois, quando Josué Tira-Gosto havia muito já abotoara o paletó de madeira, o jogo se tornou mania internacional, chegando à casa e ao gosto do povo com a força e o prestígio que tinham as telenovelas no final do século XX e início do século XXI. Aos poucos, o jogo on-line Batalha dos Mundos Distantes fora se tornando parte do cotidiano dos jovens, que iam ficando velhos, mas não perdiam a mania de jogá-lo sempre. No fim do século XXI cada pessoa tinha seu próprio aparelho computador no quarto. Além disso, tudo acessava a internet – exceto o automóvel, que depois de alguns acidentes o Departamento de Trânsito determinou que fossem arrancadas todas as antenas dos veículos. Fora isso, tudo. Desde aparelhos telemóveis a brincos. E estes eram os de tecnologia mais avançada: quanto menor o material do produto, mais avançada era a tecnologia empregada no seu funcionamento.
Mas ninguém aqui precisa de uma aula de nanotecnologia hoje. O que quero contar é sobre os rumos que tomou a sociedade depois que o jogo se tornou mania nacional.
Cada pessoa criava o seu perfil e imediatamente começava a jogar. E imediatamente viciava. Era hábito: sempre quando retornavam de suas atividades diárias iam direto para qualquer aparelho que acessava a internet para tentar melhorar um pouco o seu progresso no jogo. Como era on-line, o jogo se atualizava automaticamente quando necessário, de forma que estava sempre mais moderno e mais atraente.
Dentro do jogo as pessoas faziam fortuna de acordo com os feitos no mundo em que estava inserido. Como era uma batalha dos mundos, cada membro da rede escolhia a que mundo queria pertencer e, dentro do jogo, viviam em guerra. Saqueavam quem pertencia a um mundo diferente, faziam negócios, acordos, guerras, tréguas, traições, conspirações... Enfim, era uma maneira de escapar da monotonia dos dias.
Logo surgiram pessoas que detinham mais fortuna que as outras e estas, usando o poder de negociar bens como armas, propriedades, vidas, tudo dentro do jogo, foram se criando como forma de governo de cada mundo. Vendo como uma forma de aumentar o lucro, a empresa que criava o jogo decidiu comercializar valores. Funcionava assim: você pagava um valor x, dinheiro da vida real e recebia um valor y, dentro do jogo. Foi um sucesso. No começo, com 1 dólar você comprava 20 palins, que era a moeda geral do jogo. Chegou uma época que o Palin transformou-se em uma moeda viva e tinha gente vendendo 1 Palin por um dólar. Logo, quem passava por necessidades na vida real, vendia os seus palins no jogo e criou-se um comercio dúbio, complicado e ao mesmo tempo simples.
Logo, quando uma pessoa era rica em Palin significava que ela era rica na vida real também ou, no mínimo, poderia ser, se vendesse os seus palins. Surgiram, então, hackers inescrupulosos que tentavam criar macetes para aumentar as riquezas em palins e assim, conseguintemente, ficarem ricos de verdade. Foi difícil para a empresa conter os ataques ao site. Mais difícil ainda foi conter os ataques à sede física da empresa por pessoas que, do dia para a noite, apareciam com 0,0 palins no jogo.
Então, um belo dia, aparece morto em seu apartamento um sujeito solteirão, nerd, muito inteligente, que tinha um verdadeiro império no jogo e era um dos governantes da Dinastia do Mundo B. A primeira suspeita foi de assalto: os bandidos o teriam rendido e obrigado a passar os palins do jogo para o nome de usuário deles; ele por se negar morreu.
Mas a investigação acabou indo para outro viés. Confessadamente, um usuário disse que matou o nerd porque ele tinha um império muito grande. Para confirmar tudo, no dia seguinte o tal usuário, de quem ainda não se sabia a identidade verdadeira, apareceu com todo o império da vítima assassinada, a empresa que administrava o jogo não sabia explicar o porquê.
Logo muitas mortes semelhantes começaram a acontecer e, por mais que a polícia exigisse quebra de sigilo das contas, as antigas leis de privacidade tinham permitido que muitas pessoas tivessem criado contas com nomes falsos sem fornecer informações verdadeiras.  
Foi aí que o governo proibiu o Batalha dos Mundos Distantes, causando comoção geral na Nação. Temendo que lhes acontecesse o mesmo trágico infortúnio, outros países cuja população também jogava, acataram à ideia decretando a proibição do jogo. Os protestos tomaram um mundo. Queriam tirar a única diversão do povo. Só porque um louco psicopata matou, não significa que era por influência do jogo, ora essa, o assassino já estava nele.  E daí que foram mais de cinco loucos psicopatas!? Dava no mesmo. O jogo era bom, o ser humano é que era ruim.
A coisa foi parar na ONU. Alguns países, como sempre acontece, não viram problema nenhum no jogo. Devia continuar. Em off ficou-se sabendo que eram os países que mais lucravam com o game, econômica e culturalmente. Enquanto o povo jogava, não se lembrava de fiscalizar a administração, de fazer protesto, de reclamar da corrupção etc. Da mesma forma, o jogo fazia rodar a economia consideravelmente, pois o negócio do câmbio da moeda nacional para Palin dava certo lucro ao Estado que fosse esperto de cobrar imposto em cima da operação. Dessa forma, para alguns países, acabar com o jogo e consequentemente com o Palin, seria um desastre econômico e até mesmo político.
Entretanto, os países que queriam o fim do Batalha dos Mundos mantiveram o pé firme e convocaram instituições a unirem-se ao coro. As famílias e amigos dos mortos, movimentos sociais anti-jogos que já existiam em grande número, igrejas que achavam que o jogo era coisa do demônio, movimentos saudosistas anti-tecnologia, todos esses grupos criaram uma grande pressão em cima dos outros países. A única saída foi a ameaça. Se o jogo acabasse mundialmente, haveria sansões, corte de relações e até ataques militares. Os protestos continuaram, a ameaça foi mantida e no dia 21 de Dezembro de 2112 um míssil nuclear explodiu em um país pequeno.
A partir daquele dia, a Batalha dos Mundos distantes tornou-se uma batalha de um mundo só. E perto, muito perto de todo mundo...
Fernando Lago – Fevereiro de 2013

18 de fev. de 2013

Por que não eu?




Ela estava sentada, contemplando os sobrinhos brincarem no parque. Sobrinhos! Quem diria? Filhos da sua irmã, que era dez anos mais nova que ela. Riu com a referência mental à antiga expressão popular: sim, ela era um exemplo vivo de alguém que ficou pra titia.

- Tia, olha o que eu consigo fazer! – um dos meninos estava prestes a saltar de um galho de árvore e ela não teria tempo de chegar até lá. Já estava imaginando o tombo e o choro, quando percebeu que dois braços magros seguraram o menino antes que ele se estatelasse no chão.

- Cara! Que mania que você tem de chegar na hora certa! – disse beijando o amigo no rosto, depois que o sobrinho já estava no chão, brincando novamente.

- Isso é uma reclamação?

- Claro que não. Como vai você, amigo?

- Vou bem... amiga.

Era notável que a palavra saía com mais naturalidade da boca dela do que a dele e qualquer expectador atento que estivesse observando o casal iria perceber que eles tinham tido um passado. Mas, dirá o leitor, Fernando, todo mundo tem passado! Mas, leitor detalhista, não falo simplesmente da passagem do tempo e sim de que o passado que tiveram teve acontecimentos que interferiram na relação e no uso da palavra “amiga”. Mesmo o leitor implicante já deve ter se apercebido dos fatos: o amigo fora, em um passado remoto, apaixonado por aquela mulher que o beijara no rosto e o chamava de amigo com tanta naturalidade. Mas era tudo passado. Outros amores vieram, outras decepções vieram e continuaram amigos.  

Ela olhava pro amigo com uma simpatia fraternal. Não era um rapaz horripilante. Melhorara muito nos últimos anos, mas, mesmo na época em que se declarara pra ela, não era um rapaz de todo feio. Não era também um galã da novela das oito, mas era educado, doce, cavalheiro e sempre sabia o que dizer. Tivera vontade de amá-lo, de todo coração. Se ele gostava tanto dela, merecia ser correspondido, mas ela nunca conseguiu amá-lo senão como um amigo de todas as horas. Estranho isso, não? O tempo passou e ele se tornou um rapaz mais bem apanhado, elegante, continuava educado e doce e ela tinha certeza que seria um ótimo marido, mas não o se arrependia de ter mantido a amizade. Em verdade, a amizade dele era preciosa e ela não queria perder. Era com carinho que escutava todas as suas angústias, sabia de cor todos os amores que ele teve depois dela e acompanhava as desgraças do amigo com verdadeira angústia.

O mesmo não acontecia com ela. Ela não compartilhava quase nada com ele. Só dizia quando iniciava ou terminava um namoro. E raramente demonstrava a sua dor quando acontecia algum rompimento sério. Aliás, poucos dos rompimentos foram sérios. Nunca encontrara nenhum homem que ela pudesse dizer: por este vale a pena sofrer, por este eu vou até o fim do mundo, por este choraria...

Estranho, tinha certeza que choraria pelo amigo, como chorara muitas vezes. Amigo também briga.

- Você continua linda...

- Ah, não começa, cara.

- Não se preocupe, só estou elogiando uma amiga.

- A amiga agradece.

Riram e sentaram-se no banco do parque. Ela deu algumas broncas nos sobrinhos – eram dois, um menino e uma menina, e o menino estava prestes a subir na árvore outra vez – e reiniciaram a conversa.

- Onde está a sua irmã?

- Trabalhando, como sempre. Aquele imprestável do marido dela...

- Tá bom, tá bom. Esquece ele. Sempre que você fala dele só falta ter crises de nervos...

- É... Você sabe que minha irmã é...

- A pessoa que você mais ama nesse mundo, eu sei.

- Pois é... não suporto que a maltratem.

- Sabe quem eu encontrei na rua? – disse, mudando de assunto bruscamente.

- Quem?

- O Zé.

- Que Zé? Tanto Zé que existe!

- O Zé Agnaldo, poxa, o único cara que sabe da minha vida tanto quanto você.

- Ah, o Zé, aquele doido! Não sei como você confiou tanto naquele cara.

- Ainda tem ciúmes dele?

- Que ciúmes, nunca tive ciúmes dele!

- Teve sim...

- Tive nada! Eu só não achava adequado você ficar contando essas coisas pra ele...

- Então... ciúmes!

- Ah, me poupe! Com tanta gente boa por aí, você vai confiar logo naquele doido de pedra!

- Mas eu fiz bem, ele nunca contou nada pra ninguém...

- Se isso é uma insinuação...

- Não é uma insinuação! Para de ser tão autodefensiva!

- Eu não estou sendo autodefensiva, só...

- Está bem, em todo caso, o Zé me fez uma pergunta interessante...

- Que pergunta?

- Se eu estava amando...

- Nossa! Que pergunta interessante. E você respondeu o que?

- Que não, claro!

- Ah bom, pensei que você estava amando e não me tinha contado. Aí sim você ia ver o que é ciúmes.

- Você é uma amiga muito possessiva.

- Eu sei.

- Ele fez mais perguntas.

- Que abusado! Quem ele pensa que é, o Jô Soares?

- Boba!

- O que ele perguntou?

- Por quantas mulheres eu já tinha me apaixonado.

- E você respondeu o que?

- Que não sabia, ora.

- Mas eu sei, foram umas 15.

- “Umas” 15 não é saber.

- É, ninguém sabe, na verdade, porque antes de te conhecer provavelmente você já tinha se apaixonado por 
outras tantas adolescentes.

- É, provavelmente.

- E ele?

- Ele disse que estava perguntando aquilo porque cansou da vida que leva.

- Como assim? Que vida que ele leva?

- De garanhão.

- Arre!

- Ele disse que queria se apaixonar de verdade, que nem eu.

- Que nem você? Pra sofrer que nem você?

- Foi o que eu disse pra ele. Mas ele disse que sofrer de amor é nobre.

- Nobre! Francamente! Ele é pegador, se diverte o tempo todo e preferia sofrer de amor? Que idiotice! Então ele queria um futuro que nem o seu? E ainda por cima sofrendo de amor! Solteiro e solitário...

- Ao que me conste, a senhorita também nunca se casou...

- Mas também nunca sofri de amor.

- Isso é verdade...

Calaram-se, olhando pro nada. Os sobrinhos dela continuavam brincando ao redor. Duas ou três vezes ela deu um olhar mais áspero pro menino, que insistia em tentar subir na árvore sempre que percebia alguma distração da tia.

- Sabe o que ele me perguntou mais? – disse o amigo, depois de alguns instantes.

- E ainda tem mais?

- É, a conversa foi longa.

- E o que ele perguntou mais?

- Ele perguntou, entre todas as mulheres que já amei e não corresponderam, se eu tivesse a chance de escolher qualquer uma delas, qualquer uma, mas só uma, qual delas eu escolheria...

Ele esperou ela perguntar, mas ela apenas se calou, como se suas palavras fossem difíceis de absorver. Ou talvez já soubesse a resposta. Ele, porém, achou que devia falar, mesmo que ela já soubesse.

- Sabe o que eu respondi?

- Que escolheria a mim?

- Você não está se achando demais não? – retrucou ele rindo folgadamente – como pode ter tanta certeza que eu te escolheria?

- Por dois motivos. Primeiro porque eu sou linda, irresistível et Cetera, et Cetera. Segundo... bem, eu te conheço há quanto tempo, cara?

- Sei lá, uns vinte anos... talvez vinte e um.

- Pois é. Eu te conheço muito bem, seu besta! Você não me contaria isso tudo se não tivesse escolhido a mim.

- Por que acha isso?

- Por que te conheço, já disse. Toda vez que você vem com uma dessas é pra falar comigo que... ah, não vale a pena discutir por isso.

- Não vale mesmo. Mas você errou.

- Como é?

- Você errou. Não respondi você.

Ela pareceu meio sem graça, as bochechas ficaram rosadas.

- E... e quem foi que você escolheu?

- Eu disse a ele que não escolheria ninguém. Que preferia conhecer uma pessoa nova.

- Nossa! Uma resposta realmente excelente.

- É, foi isso que eu respondi a ele, mas...

- Mas...?

- Mas quando cheguei em casa e me vi sozinho a pergunta voltou mais séria. E, bom, você tem razão. Eu escolheria você.

- Ah, por favor!

- Não, não se ofenda, eu não estou te cantando de novo não. Acontece que é isso que veio na minha cabeça.

- Você diria isso pra qualquer moça que já amou e que estivesse por perto na hora.

- Não!

- Está bem, vamos encerrar essa discussão! O Zé de perguntou mais alguma coisa?

- Bem... pra falar a verdade, fez uma última perguntinha sim.

- Qual?

- Perguntou de você.

- De mim?

- Sim.

- O que exatamente ele...

- Perguntou se você estava casada.

- Você disse que sim, suponho.

- Por que supôs que sim?

- Por que você é ciumento. E porque é meu amigo, pra me livrar de perturbações, sempre soube que acho esse cara repugnante.

- Errou nas duas. Como você enfatiza sempre, somos só amigos e eu superei meus sentimentos por você...

- É, mas não perde uma oportunidade de me cantar...

- Ora, porque eu sou solteiro e você também e você é linda. Só isso. Mas, como eu ia dizendo, errou nas duas.

- Então você não é meu amigo.

- Isso eu sou, com certeza. Mas não me vejo na obrigação de te livrar de perturbações. Inclusive, dei seu telefone pra ele...

- Você o quê??? Ficou doido? Idiota!

- Calma, calma – disse desviando dos tapas de leve que amiga lhe dava – só estava brincando. Ele já sabia que você esta solteira ele só fez uma pergunta retórica.

- Que pergunta retórica?

- Por que será que ela nunca casou hein?
Ela suspirou fundo:

- Acho que nem eu sei... Tantos caras que já passaram por minha vida. Sempre acabou sem sofrimento, nunca sofri por perder nenhum deles. Acho que nunca os tive, como poderia perdê-los? Também nunca me tiveram... Alguns até valeriam a pena...

- E por que não eu?

- Lá vem você.

- Desculpa. Me escapuliu a frase. É que enquanto você falava eu lembrava da música.

- Acho que sei por que você me escolheria...

- Guarde a resposta só pra você.

- Certo.

- E acho que sei por que você nunca se casou.

- Ah, sabe, por quê?

- Pensei que você fosse me mandar guardar a resposta só pra mim.

- Não, não sou tão tonto quanto você.

- Obrigado pela sinceridade.

- Vamos, responda.

- Ora, você é de longe a mulher mais bonita que eu já conheci. E não adianta protestar, me deixa terminar. Já diversos homens se apaixonaram por você, alguns tiveram o privilégio de te beijar, de passar horas contigo, até de te namorar, mas você sempre, ao cabo de algum período, os dispensava. Normalmente eu diria que você não sabe amar. Mas, bem, o que eu acho é que você tem medo.

- Medo? De quê?

- De me perder.

- Te perder? Não compreendo...

- Você sabe de tudo sobre mim. Independente de qualquer coisa, você é a minha melhor amiga. E sabe que eu provavelmente nunca vou ter um par nesse mundo...

- Não diga isso!

- É a verdade. E sabendo disso, você, talvez, pense que eu vou sofrer demais, vou estar sozinho, não apenas solteiro, sozinho de tudo. E é por isso que você não casa. Porque você me ama. Do seu jeito, mas me ama.

- Você devia ser psicólogo.

Eles riram muito daquilo tudo, uma risada que havia muito tempo não davam. Eram dois amigos, cheios de problemas consigo mesmo e com o mundo, mas riam, riam muito, riram tanto que nem viram quando o sobrinho dela conseguira finalmente quebrar um braço ao despencar da árvore do parque...


Fernando Lago – Fevereiro de 2013
   


26 de jan. de 2013

O ilustre refém

Imagem: internet



Andava tranquilamente e velozmente por uma avenida quando foi abordado por três sujeitos armados e teve que frear bruscamente para não esmagá-los com as rodas de seu carro. Além de armados, encapuzados, características das quais a única conclusão que ele poderia tirar sem precipitação é que eram bandidos. Ou delinquentes. Ou os dois ao mesmo tempo. Mas não era tudo a mesma coisa?
- Abre a porra da porta!
Entraram no carro com os revólveres apontados para a cabeça do homem, sentando, os três, no banco de trás.
- Toca pra Liberdade!
O cara acelerou sem palavra, virou umas ruas a mando dos bandidos, atravessou uma via movimentada, depois desceu e subiu uma ladeira, fez uma curva brusca numa estrada deserta e acabaram chegando frente a um casebre verde, mal iluminado pela luz do poste. Um dos homens saiu do carro sem deixar de apontar a arma para o motorista, enquanto outro ficava no banco de trás para dar cobertura. Abriu a porta e ordenou:
- Sai!
- É sequestro?
- Cala a boca e sai do carro!
Entraram no casebre, conduzindo a vítima que ia na frente. Eram amadores, Carlos logo percebeu. Na hora da abordagem mesmo, se quisesse, os teria atropelado, pois estavam mal posicionados e ele vinha em alta velocidade, pois era uma via de trânsito rápido. Mesmo enquanto dirigia, pensou em duas ou três reações possíveis, apenas não postas em prática por conta da sua falta de coragem diante de duas armas apontadas para si.
Os homens tiraram os capuzes, o que acompanhava Carlos o jogou contra a parede e o encarou por alguns minutos, como se tentasse lembrar-se de alguma coisa. Carlos demorou alguns instantes para perceber o que era. Mirou profundamente os olhos do seu agressor até finalmente reconhecer a expressão insegura, a mesma de dez ou doze anos antes.
- Elias?
- O quê?
- Elias Capeta?
- Quê que esse doido tá falando? De onde ele te conhece?
- Cala a boca, Cabrito! – disse Elias. E chegando perto de Carlos:
- De que você tá falando? De onde me conhece? Não me diga que é do ramo também!
- Ah, então é você mesmo! O menino mais atentado da escola, segundo as palavras da diretora Doroteia. Sempre quis as coisas da maneira mais fácil e menos lícita, sem se importar muito com os planos!
- Ih, esse cara tá pirado! – riu o outro comparsa.
Elias estava quieto, aparentemente refletindo:
- Mais fácil e menos lícita... então é você? Carlão! Tu então se deu bem, hein, rapá!
- Peraí, Capeta, então tu conhece mesmo esse cara?
- CDFzinho da escola. Estudou comigo no Barbosão.
- Não, pera, Hidelgundes Barbosa? Então o bacanão aí, que anda de carro importado e as porra tudo, estudou no BARBOSÃO!?
- Sim, claro! E tenho muito orgulho disso!
- Puta que pariu! Pensei que todo mundo daquela escola acabava virando bandido!
- Sempre disse isso ao Elias: não precisa estudar em escola rica pra se dar bem na vida. Tem um bocado de gente da nossa turma que se deu bem na vida.
- A Marcinha virou puta – disse Elias
- Nem por isso é desonesta. – retrucou Carlos - Olhe, a Miranda virou médica e o Vicente virou padre.
- Nem por isso são honestos.
- É verdade, a gente tem que julgar pelo...
- blablablabla apaga esse cara, Capeta. Ele te conhece, não rola mais!
- Porra, Cabrito! A gente precisa de um refém pra sair do distrito. A essa hora os homi já tão na nossa cola e devem ter cercado as saídas tudo. Precisamos de um bacana pra garantia.
- Vocês são uns bostas mesmo, viu!
- Qual é, Carlão? Esqueceu quem manda aqui, porra?
- Que que eu posso fazer? Vocês são tapados mesmo.
- Eu avisei, Capeta...
- Agora não, Cabrito.
- Capeta, Cabrito tá certo. A gente pega outro no caminho...
- Cala a boca, Carreto! Já falei que não vou apagar o Carlão. Ele é minha péda. O bonitão aí também não era flor que se cheire não. Conseguiu o gabarito direitinho no exame final pra mim.
Os dois caíram na gargalhada e Elias Capeta completou:
- Considero esse cara pra caralho!
- Ai que lindo! Se forem se pegar agora, usem camisinha.
- Porra, Cabrito, fila da puta! – explodiu Elias - Perdeu a noção do perigo?
- Então você é que é o líder do bando, Elias? – riu Carlos, com as mãos atadas. – Não é de se admirar tantas falhas. Você nunca foi bom em planejar, só em executar.
- Pois é, Carlão! Você que é o bom das ideias! Dá uma ajuda aí, o que a gente pode fazer?
- Me solta primeiro, é a minha condição.
- Você não tá em condições de pedir condição, playboy...
- Cala a boca, Cabrito! Carreto, solta o Carlão.
- Capeta...
- Solta o cara!
Carreto se dirigiu a Carlos e cortou a fita que lhe atava os punhos. Carlos levantou-se do canto em que estava jogado, sacudiu-se, esticou-se, estalou os dedos e disse:
- Porra, Cabrito! Em que você foi se meter?
- Assalto a banco, cara. Um polícia morreu. Por isso os homi tão doido querendo pegar nóis.
- Mas que merda, hein. Virar bandido?
- E o que que eu ia fazer? Trabalhar? Quem é que ia me dar trabalho?
Carlos caiu na gargalhada e ninguém entendeu por que. Poderia ser uma piada particular dos dois ex-colegas de escola, mas Elias não pareceu entender também e continuou olhando o sorridente com cara de “e aí?”.
- Vamos fazer o seguinte. Vocês vão me dar meu carro...
- Nem fu...
- Cabrito!
- Escutem, porra. Vocês vão me dar a chave do meu carro e vão sair do distrito comigo.
- E pra onde vamos?
- Para a capital. Trabalho lá.
- E nós?
- Vocês agora serão homens honestos, pelo menos em tese.
- Como assim, em tese?
- Bom, é que eu sou deputado. Vocês vão trabalhar no meu gabinete e, de vez em quando, farão uns trabalhinhos pra mim... Tudo dentro da legitimidade...
- Porra, não falei, Cabrito? Carlão é responsa!

(Fernando Lago, 2007) 

27 de nov. de 2012

De repente

Imagem: Filme Pickpocket (O batedor de Carteiras), Robert Bresson.  

De repente, aquela voz doce cortou o mundo de pensamentos em que eu estava absorto:


- Quem foi que velou?

- Como é que é? – fiz, como se estivesse sendo despertado de um leve cochilo.

- A bezerra – disse ela com um meio sorriso.

- Ah! – fiz entendendo e entrando no espírito da piada – sim, uma fatalidade! Tão jovem...

- O senhor não perde essa mania de ficar pensando na morte da bezerra, hein!

- Perdão?

- Não se lembra de mim, pelo visto.

- Evidentemente...

- Felícia.

- Felícia, Felícia... É um bonito nome, me remete a algumas conhecidas, porém nenhuma com o seu rosto.

- Participei de uma oficina de redação que você deu...

- Ah... Mas a única oficina de redação que dei foi há... é sério?

- Dez anos. Seríssimo. Como pôde se esquecer de mim?

- Estou me perguntando a mesma coisa...

Na verdade, durante os beijos que trocávamos dali a algumas horas, indo em direção ao Motel Califórnia, eu me lembrei perfeitamente de quem ela era. À época, uma ninfetinha assanhada e magra, sem muitos atrativos, semi-adolescente. Dizia-se apaixonada por mim e, certa vez, tive que desviar a mão dela que ia, digamos, em direções não muito confiáveis. Outro dia, ao despedir-se de mim ao fim de uma aula, beijou-me no rosto com tanto fervor que arrancou exclamações da turma. Ela, nas pontas dos pés, quase não me alcançava a face. Agora estava com o dobro do tamanho, sendo que boa parte do seu metro e setenta era de pernas, lindas, naquele vestidinho preto (indefectível).

Sim, eu lembrava dela, mas continuei fingindo que não, até para mim mesmo. Não quis desfazer o encanto de a estar conhecendo de novo.   

Fernando Lago – Novembro de 2012 

25 de ago. de 2012

A formiga e a cigarra, ou vice e versa



Uma cigarra, dessas cantadeiras que chega a doer-nos o ouvido de tanto escutar o seu canto, vivia pela floresta soltando o gogó como se fosse Agnaldo Rayol. Enquanto isso, dona formiga, operária em construção, vivia sempre derramando o suor do seu rosto, se é que formiga tenha suor e rosto, mas, se tiver, o dessa aí está sempre todo suado, certeza.

As duas se encontraram num dia em que a formiga ia carregando uma folha pra logo ali, ó, virando a esquina. A cigarra ia pr’um happy hour em Copacabana e achou interessantíssima essa vida que levava a formiga (duplo sentido). Ressaltou, entretanto:

- Mas eu, queridinha, prefiro mesmo é cantar meus roques. Até admiro, mas esse negócio de trabalhar não é comigo não.

Como vocês já devem estar esperando, veio o inverno – até Copacabana esfriou – e a formiga recolheu-se em seu apê no condomínio Paraíso, enquanto a cigarra, sem nem um miojo pra comer, perambulava pela rua, até que engoliu o orgulho e tocou a companhia da comadre (como vocês sabem, os bichos eram todos compadres e comadres) para pedir arrego.

- Mas moça cigarra! – disse a formiga surpresa – Parece que adivinha! Eu ia mesmo te ligar!  Estamos aqui precisando de um acustic MTV pra nossa festa invernal (muito cuidado ao ler essa palavra).


Enfim, vocês já devem adivinhar o fim dessa história, vocês sabem como são essas coisas. A formiga, depois que a Primavera voltou, virou empresária da Cigarra e nunca mais precisou juntar comida para o inverno. Manda vir tudo pelo delivery.

Moral: conversando a gente se entende.  

Fernando Lago - Agosto de 2012