21 de dez. de 2009

Cansei da beleza

Como não tenho tido nada pra postar ultimamente, segue aí uma poesia mesmo...

_______________________________________________________

Cansei da beleza

Imposta pela sociedade

Já cansei destes prédios

Desta cidade

Vou para o campo

Vou para a mata

(Beleza de verdade)


Seguro a mão de minha amada

Amor, amizade

Seguro a cintura de minha amada

Isenta de vaidades

Fúteis (brinquedos)

Da leviandade


Na simplicidade amamo-nos

E no nosso amor há espaço para pouco

(Um milhão de coisas, apenas)

Mas seguimos, braços dados

Cabelos esvoaçados

Garganta inflamada pelo vento frio

E rio

Porque a risada dela, mesmo rouca, me faz sorrir


Cambaleando nas ruas

Rindo à toa

Bêbados de amor

Flagrante união

Lá vamos nós dois

(Quase um só)

Espantar os abutres

Da nossa plantação


Fernando Lago – 20 de Dezembro de 2009

4 de dez. de 2009

Se beber, não dirija! Vá de ATT!


"Homenagem" à empresa que nos levou de Teixeira de Freitas a Irecê

Pois é...

como muitos dos meus amigos sabem, viajei semana passada, juntamente com um grande grupo de universitários, para Irecê - BA, a fim de apresetar artigo no III Encontro de Marxismo, Educação e Emancipação Humana, na UNEB/ Campus XVI. Tivemos alguns 'pouquíssimos' incômodos no percurso viajado que irei relatar com mais detalhes uma outra hora. Por enquanto, fiquem com um cordel produzido a seis mãos durante a viagem de volta... Tentem imaginá-lo à melodia de "Pra não dizer que não falei das flores"


ATT: AMPLATUR, TRANSPORTES E TURISMO

ou

ATT: Atrasos, Transtornos e Turbulências

Fernando Lago

Jaqueline Mota

Tainara Castro


Caminhando e cantando

E cortando o “estradão”

De Teixeira a Irecê

Foi só pura emoção.

Caminhando e cantando

E cortando o “estradão”

Um motorista barbeiro

Bem na direção.


Vem vamos embora

No “busão” da ATT

Foi mais de 30 horas,

Pra chegar a Irecê.

Vem vamos embora

Nossa vida resolver

Jamais vamos pegar

Outro “busão” da ATT.


Ao sair da UNEB

Foi só diversão.

O povo todo cantando

E rindo de montão.

Na primeira parada

A fazer um “rangão”

O motorista barbeiro

Bateu o “busão”.


A batida nos fez,

A viagem atrasar.

Quatro horas então,

Tivemos que esperar.

Homem que “Arriba Saia”,

Veio declarar:

“Precisando de ajuda,

É só me ligar”.


Na estrada de novo,

Cortando o “estradão”

A euforia de volta,

De volta a emoção.

Uma nova parada,

Mais preocupação:

Saciar um carburador

Tão beberrão.


A parada no posto

Era pra abastecer,

É muita gasolina:

Teixeira X Irecê.

Vem um diagnóstico

De embranquecer:

“Esse carro já era,

Não vai se mover”.


A única solução

Que a gente encontrou:

Foi o “Arriba Saia’

Que nos ajudou.

E adentramos o ônibus

Do “forrozão”.

“Mas só vou até Feira,

Pra mais não vou não”.


Lá em Feira outro bus

Veio nos atender,

Da mesma empresa,

A dita ATT.

E este já não era

Como o anterior.

O “ar” tava quebrado,

E apertou o calor.


Sem água no “busu”

Nós faltamos morrer.

Parecia que nunca,

Chegava Irecê.

De 15’horas a viagem,

Pra 30 dobrou,

Irecê para nós,

Um mito se tornou.


Cada canto e chegada

Era pura emoção.

Logo se transformava

Em desilusão.

Quando no horizonte

Apontou Irecê,

A alegria do povo

Voltou a nascer.


Logo a decepção

Tornou a aparecer,

Quando vimos que escola

Ia nos receber.

Não era pouca a gente,

Gente de montão

Um banheiro pra todos,

Mas que confusão!


No encontro os trabalhos,

A gente apresentou,

E na volta pra casa,

ATT nos levou.

Atrasos, Transtornos,

Turbulências, assim,

Foi o que ATT

Significou no fim.


Agradecendo sempre: Jaque Mota, Tainara Castro e toda a galera da bagunça do busão (Estudantes de História, Biologia, Letras e Pedagogia), que apesar de todos os Transtornos e Turbulências, sempre tinham piadas e risadas na ponta da lingua pra espantar o stress!

(Novembro/Dezembro de 2009)

1 de dez. de 2009

Dir-se-á

In Memoriam A Ricardo Lago dos Santos


Dir-se-á por aí e por cá

Que mais um vagabundo se foi

Encerrou sua lida sofrida na terra

Recebeu da mão dos homens da lei

O que de fato mereceu


Dir-se-á por aí e por cá

Que a braveza e a ‘breveza’ da vida é atroz

Que os homens só cumprem aquilo que ela manda

E que na verdade

Eram maus

E mereciam castigo e paulada


Quem mandou?

Mexeram com quem e com que não deviam

A maldita!

Objeto de ódio e tesão

Tesão simbólico

Uma loucura mórbida e desesperada

Prazerosamente imbecil


E eu

Simples passante na vida

Vi o menino que corria comigo pela Rua da Bica

Que sabia, muito mais que eu, como subir num galho de árvore

Que tinha força e boa vontade divinas

Que muito mais que eu se dispunha ao trabalho pesado

Que tinha uma esperteza que superava todas as minhas qualidades


Que mentia, sonhando serem as coisas melhores que eram

Que brigava comigo, que fazia as pazes

Que encarava com irreverência as ordens postas do colégio

Que jogava bola tão ruim quanto eu

Que dormia e acordava cedo tradicionalmente


Eu, meus amigos

Vi esse menino ser seduzido pelas promessas falsas

Pelos falsos sonhos e se debandar pelo mundo de lá

Sem conhecer o mundo de cá


Dir-se-á por aí e por cá

Que ele tinha de ir

Que outros mais têm de ir

Que se deve dedetizar a terra

Limpá-la de raças inferiores


Dir-se-á que esses meninos

Tirados do seio de suas famílias

São culpados por todos os males da humanidade

A pobreza, a fome, é tudo coisa deles...

Mas eles não são causa, meus caros

Eles são conseqüência


Sim

Por que não hei de confessar?

Chorei por ele e choro.

Hão de me achar ridículo

Dirão por aí que chorei por um condenado

Mas nesse mundo nosso

Quem não é condenado?


E o meu choro hoje

Não é isoladamente por um número-primo

O ser humano por trás dos números estatísticos

Choro hoje porque as condições criadas estão estabelecidas

E não mudará com a morte do meu companheiro de aventuras infantis

Choro porque apesar do que dirão todos os noticiários policiais, ele não foi mais um corpo encontrado estendido no chão

Choro porque apesar do que dirão todos os comentários críticos

Ele e seu companheiro não são a causa de sua própria morte


Choro porque ele,

Meu companheiro de passeios de bicicleta

Faleceu em vão

Encarado pela sociedade como mais um

Vítima da desatenção

Do desprezo

Da marginalização.


E choro principalmente

Porque enquanto os nossos jovens morrem

Numa sociedade cada vez mais mantenedora do tráfico como meio de vida

(que na verdade é um meio de morte)

O dinheiro público e outros tantos dinheiros

Rolam e desenrolam nos bolsos e nas meias dos verdadeiros vagabundos desse país


Fernando Lago Santos – 30 de Novembro de 2009


13 de nov. de 2009

Ordem e Progresso

Não subverta

A ordem do planeta

Deixa tudo como está

Ta tudo bom

Tudo legal

Não existe o mal


Toda a pobreza

Servida nesta mesa

O destino te preparou

Não se preocupe

Tudo está certo

Pra quem é esperto


Nada de greve

A vida é tão breve

Não adianta reclamar

Quem não se atreve

Sabe que deve

Obediência a quem mandar


Vê se te liga

Não me persiga

Porque eu tenho mais poder

Quem me defende

Sabe e entende

O que sou capaz de fazer


Estou cansado

Do proletariado

Que pensa que pode lutar

Vê se te aquieta

Vê se te emenda

E não sai da tenda


Mas que atitude

De quem se desilude

Pensando que pode mudar

Se outros escutam

Esse safado

Estamos ferrados


Estamos ferrados

Estamos ferrados

Nós ‘tamo’ acabado!


Fernando Lago – 25 de Outubro de 2009


9 de nov. de 2009

Terra das Palmeiras (2005)

(A história da vila onde nasci)

O mar estava calmo... Poderia estar bravio também, mas eu achei melhor que ele estivesse calmo e, portanto, digo que estava calmo, ora bolas![1] Uma esquadra de quatro, ou cinco, ou seis caravelas – eu não sei bem ao certo, porque não sou muito bom das aritméticas – mas certo é que vinha a tal esquadra.

Foi lá pelo dia 22 de Abril que Cabral e sua tripulação desembarcaram no nosso litoral para, enfim descobrir o Brasil,[2] que na época ainda não era Brasil.

Cabral e Caminha quiseram logo fazer as médias com o nosso pessoal:

- E aí, nativos – disse Cabral[3] - Como vivem a cá nesta ilhota?

- Vive muito bain – disse Caminha – mar, sol, índias peladas...

- É maravilha eshta ilha!

- E cês tão achano qui ta in ilha, é?[4]

- E não? Pois pois, estamos onde, ó pá?

- Pindorama, oxente!

- PINDORAMA??? – Perguntaram os lusitanos em coro[5]

- É!

- E, nativo, que quer dizer tal palavra cá em minha língua?

- Lá ele! Eu sei lá de língua de homi! Inda mais barbado assim!

- Quis dizeire: que significa, ó raios!?

- Oxe, portuga! É Terra das Palmeiras!

Fernando Lago Santos. Da série: Estórias que não estão na História. 2005


[1] Percebe-se que o compromisso com a verdade não era muito a minha praia quando comecei a escrever (e agora?)

[2] Dizem as más línguas que na verdade ele queria descobrir as Índias – e vê-las peladas...

[3] Você imagina o Cabral falando “E aí”? Eu imaginei...

[4] Sempre achei o baianês (o puro) intrigante...

[5] Como se fossem personagens de sitcom

2 de nov. de 2009

O pseudônimo

O pseudônimo

(Fernando Lago)

O assessor do deputado *** veio até mim em alvoroço com um papel impresso na mão. Era o último texto da minha coluna publicada no Jornal Virtual da região, em que eu, com outro nome pseudonimato, criticava certa atitude do seu chefe diante da reunião do plenário.

- Fernando, disse ele calmamente, quase suando, como quem não sabe como falar uma coisas que não quer falar – o deputado ficou meio chateado com seu último texto na internet...

- Com que?

- Porque você criticou ele, disse que ele era “um sujeito meio abilolado”.

Superestimando o humor do empregado da câmara, gracejei:

- Mas não fui eu, foi o meu pseudônimo!

- Ah, fez ele conformadamente.

Neste instante o deputado apareceu. Cumprimentou-me e, num riso bonachão, disse:

- Meu caro, Fernando. O senhor anda se portanto um tantinho mal, como colunista. Aquele texto que o senhor escreveu outro dia estava um tantinho assim ofensivo.

Imediatamente o assessor inteveio:

- Não foi ele, deputado, foi o empregado dele!