1 de abr. de 2011

Entrevista com minha vida

Imagem: http://twixar.com/CsB80k1 (Blog Obsolescências)


A vida encontrou-se comigo no fundo de seus olhos
Ficamos lá
Papeando
Contando mentiras e inventando verdades recém desapocrifadas


E você
Como quase sempre, calada
Ouvindo os absurdos que dizíamos de mim
Paciência de Jó!
Sem querer mentir as desmentiras que falávamos
Mas sem revelar toda a verdade que maltrataria
Esse meu ego imundo


Não sei se disfarçava
Não senti nenhuma inundação no canto dos seus olhos
Em que eu e minha vida estávamos sentados
Não senti
Talvez a vida tenha sentido alguma coisa
Mas não me quis dizer
Hoje, quem vai saber?


Importa que a injustiça está desfeita
Percebemos que seus olhos não é sala de reuniões
Nem mesa de bar
Nem qualquer tribunal de mesquinharias para discutirmos sobre mim
Soubemos isso, ao sair dos seus olhos
E olhá-los com verdadeira atenção
Soubemos toda a verdade
E despedimo-nos, contritos
A vida e eu
Num conflito entre nós


Rompi a amizade com minha vida
Há dias que não nos falamos
Mandou-me uma carta desaforada, dizendo que seus olhos era o lugar certo para ela
Egoísta!


Mas sigo a vida, sem a vida
Com você ao meu lado
Vendo os seus olhos de fora
Da maneira que posso vê-los
E te pedindo desculpas
Por não tratá-los devidamente
Como templo de contemplação
Das verdades da Alma


Fernando Lago – Abril de 2011

26 de mar. de 2011

e-book: A Revolução dos Coraças

Myebook - A Revolução dos Coraças - click here to open my ebook

Há alguns meses postei aqui, neste humilde espaço blogolístico, uma série de textos que, interligados entre si, formam o conto (ou novela, ou fábula, ou seja lá o que for) intitulado "A Revolução dos Coraças".

Trata-se de uma espécie de metáfora política, ao mesmo tempo romântica e principalmente satírica (pelo menos foi essa a palavra que usaram), que conta a história de um homem que, pra resgatar a sua amada das mãos de um rei tirano e tarado (busquei outra palavra mais adequada que essa; achei, mas preferi a inadequação mesmo) acaba causando uma grande reviravolta nas relações de poder do reino de Lagolândia. Nome, aliás, que eu particulamente acho adequadíssimo à estória.

Sem mais delongas além das já delongadas, digo-lhes que reuni todas aquelas passagens num só documento e resolvi (epifania!) publicá-las em e-book. Advertindo-se, porém, que o dramalhão não é lá grande coisa, visto que saiu da cabeça deste jovem "meio autista" (à maneira de nossa ministra da Cultura). Caso vocês queiram, ainda assim, verificar com seus próprios olhos, a imagem acima é o caminho que os levará ao reino de Lagolândia e à Vila de Nandinávia. Aconselho levar agasalho e barras de cereais. 

Comentários críticos e críticas comentadas serão bem vindos. Ameaças e xingamentos, procurem o SAC da Fernando Lago Corporation.

Abraços
Boa leitura.

Fernando Lago

24 de mar. de 2011

Raposo e a uva



Um rapagão, daqueles quase grisalhos – aparentemente cheios de vida e de algum dinheiro que ninguém se importa de onde vem, desde que seja usado a seu favor – numa bela noite enluarada, quando caminhava nas ruas semi-pavimentadas para respirar o ar semi-puro da cidadezinha semi-industrializada, esbarrou-se com a criatura mais bela que já vira em toda a sua vida. Criatura esta provavelmente ainda não catalogada no livrão de biologia da biblioteca da universidade em que trabalhava como professor.

- Uma uva, Amadeu! Uma uva! - Dizia empolgado a um amigo – novinha! Uma jóia rara, Amadeu!

- Novinha, é? Ô, Raposo, você acha que ela vai te dar bola?  

- Claro, como não? Elas adoram um coroa!

Não perdeu tempo o matreiro Raposo. Rapidamente conseguiu, por misteriosas fontes, o endereço de mensagens instantâneas, e-mail e todas as redes sociais em que a garota estava cadastrada e fez contato, usando todo o seu charme de conquistador, que mulher nenhuma jamais resistira. Como era de se esperar, rapidamente foi ganhando terreno, despertando, inclusive, razoável admiração na menina.

- A uvinha ta na minha, Amadeu! Ela ta na minha!

Um belo dia, quando tomava com ela um suco no quiosque do calçadão da praia, resolveu falar, sem dar margem a exacerbações sentimentais, de sua atração, que foi recebida pela moça com aparente surpresa. Surpresa esta que em muito surpreendeu o nosso insurpreendível Raposo. Mas como assim ela não sabia?

Ela explicou. Tinha por ele uma grande admiração e uma amizade valiosíssima. Mas não passava disso. Aliás, se quer saber, já tinha até namorado. Morava na Barra. E era um rapaz muito bonito e, enfim, da idade dela. Leva a mal não...

- Deixa pra lá! – Disse Raposo consigo, indiferente – Ela é criança demais! E eu gosto de mulheres maduras.

Alguns meses depois, Raposo estava lendo seus e-mails quando recebeu um alerta na rede social avisando que a sua uvinha tinha mudado o status para solteiro. Sem pensar no que fazia, meteu-se no seu carro e correu para o quiosque da barra, onde a moça costumava ficar àquela hora. Não a encontrou, porém. Ela tinha se mudado pros Estados Unidos da América.

MORAL: Quem desdenha quer comprar, mas tem que saber pechinchar.


Março de 2011

16 de mar. de 2011

Reticências



Ante o cruzeiro do sul
O homem parou e disse
Que bons seriam nossos dias
Se fossem deveras nossos!
E assentiram, com as cabeças, todas as estrelas moças.

Fernando Lago - Março de 2011

5 de mar. de 2011

Eu diminuto



Eu me chamo Fernando Lago Santos, e não sou só eu que me chamo assim. Os mais sensatos aprendem rapidamente a encurtar, cortando o sobrenome e as partes dispensáveis do primeiro nome. Outros tantos, porém, insistem em dar relevo a essa minha nominação aquática e estática: água parada, quase inofensiva, embora a maior ofensa contra a minha vida tenha partido – pasmem – de um monte de água parada, empoçada numa piscina. Sempre quis ser um desses sujeitos expert em usar a ironia, mas em matéria de ironia eu nunca ganharei do destino e os enredos que ele me arruma. Na grande peça da vida, meus papeis são todos curtos.

Nasci numa cidade pequena, num povoado pequeno, numa casa provavelmente pequena. A parteira era minha bisavó e, pelo que me lembro dela da minha infância, era uma senhora pequena também. Mas não sei muito bem, há gente que defende teorias de que as pessoas mais velhas diminuem consideravelmente o seu tamanho com o passar dos anos... Quem é que vai saber? Apenas sei de uma coisa. Eu é que não me rendo a esse ultraje! Já sou tão diminuto!

O povoado que nasci continua pequeno. Eu, por minha vez, cresci um bocadinho em corpo, um nadinha em pensamento. Mas como sou um sujeito de imaginação forte, fecho os olhos e imagino que sou grande e, num piscar de olhos (fechados!) começo a ver as pessoas como se fossem formiguinhas. Lá de cima (cá) posso ver tudo, mas não enxergo muito bem. Assusto-me com tanta altura e desisto de ser grande. Abro os olhos e vejo que estou de volta, com meu metro e meio de ego e um pouquinho mais de corpo.

Não sou um sujeito intragável. Algumas pessoas que já experimentaram acham que tenho gosto de charuto cubano. Outras afirmam veementemente que tenho gosto de espumante francês. Mas há quem afirme que estou mais para uma cochinha com refrigerante de uva na lanchonete da esquina. Eu, porém, que também já me experimentei, acredito que tenho o maravilhoso e inconfundível gosto de nada. Acredito e afirmaria sob juramento! Já experimentei o nada e quem o experimentou nunca esquece o seu gosto insosso. Na hora certa, o nada pode salvar uma vida. E como é saboroso!

Às vezes me comporto como um menino chato, nerd e cheio de limitações impostas pelos pais. Às vezes me comporto como um velho brincalhão, bonachão e aproveitador da vida. Em suma, alterno entre o papel de menino ultrapassado e o de velho descolado que pensa que ainda é menino. Sinceramente, há terceiros e quartos papéis os quais não busco entender sem o suporte teórico de psicanalistas. Nunca li Freud. Tenho mais o que fazer do que ficar tentando entender a alma humana!

Toco violão sem nunca ter feito curso, sou autodidata. Toco baixo, mas a isso autodidataram-me à força. Atitude injusta e antidemocrática que eu agradeço todos os dias, porque tem me trazido muitas alegrias.

Minhas convicções políticas, religiosas e artísticas não são questionáveis (a mim), porque se fossem questionáveis não seriam convicções. Mas em geral são debatíveis, discordáveis e, dependendo do valor que me oferecerem de propina, modificáveis.

Faço várias piadas por dia. Da maioria eu rio sozinho. Tenho os lábios frouxos e a cara arlequinal. Quando estou de mau humor sorrio assim mesmo. Não por um capricho forçado de livro de auto-ajuda, mas por uma patologia rara que me impede de fazer cara feia por qualquer besteira. Aliás, cara feia não combina comigo. Nasci bonito, a sociedade é que me corrompeu.

No mais sou um sujeito de paz. Consigo facilmente evitar o primeiro gole, bebendo sempre de trás pra frente. Começo pelo último e para chegar ao primeiro vou trafegando por um percurso extremamente longo. Minto, sou abstêmio. Um dos fatos mais vergonhosos de minha vida é não poder usar a embriaguez como desculpa para as minhas desrazões. Não havendo justificativa outra, saio por aí dizendo que sou louco. Em geral as pessoas acreditam sem necessidade de apresentação de laudo médico.

Sigo a vida consciente de minhas limitações físicas, psíquicas e monetárias. As últimas, porém, são o que mais me impede de alçar vôos mais altos ou mergulhar em águas mais profundas. Posso dizer, em parte, que sou um homem realizado. Sonhava em ser conhecido e meus visinhos e colegas da faculdade sempre que me vêem passar apontam dizendo “lá vai Fernando Lago”. Sonhava em ter uma poupança e lá está ela na Caixa Econômica Federal. Vazia, é verdade, mas existente. Sonhava em ter profissão e, nos próximos meses devo defender monografia e conquistar um diploma que obrigará a todo mundo me chamar de profissional, conquanto isso não me dê garantia de sucesso na vida.

Meu maior sonho é viajar por este mundo chamado Brasil. Conhecer todos os lugares bonitos que há em nossa terra, mesmo que já não sejam tão nossos. Enquanto não o posso realizar, faço isso virtualmente. As Tecnologias da Informação empreguiçam-me, mas estimulam a imaginação já tão perigosa.

Enfim, sou isso. Um sujeito dócil quando está calmo, impetuoso quando não se aplaca. Só tenho raiva quando me zango e raramente choro se não lacrimejo. Tenho fome, sono, sede e gazes. A maioria das doenças de que padeço tem cura, exceto as incuráveis. Demorei muitos anos pra descobrir que não sou imortal. Agora que o sei, vivo com medo. Que posso eu fazer? Cresci no meio de seres humanos. Deu no que deu: virei um também.

Março de 2011

24 de fev. de 2011

A honra do alfaiate




Diz que foi no reinado de Dom Augusto, nos idos de algum século destes que já se foram,[1] em algum destes reinos semi-medievais que um dia na história acabariam caindo na terrível e inevitável fossa da democracia representativa. Mas foi muito antes de isso acontecer.

Sem quaisquer delongas e na mais paulificante cara de pau, o príncipe Berlusquino, herdeiro do trono, visitava sem pudor a esposa de um jovem alfaiate que confeccionava as roupas de todos os corpos da nobreza.[2]

No princípio, a fidedigna senhora, de coração puro que nem cachaça da roça, acreditou piamente, e sem dar nem um piu, que era verdadeira a dita necessidade do príncipe de amigos, e que era coincidência o fato de só tentar sanar essa carência em momentos que o seu esposo estava alfaiateando lá no Palácio da Planície, onde moravam o rei e seus reizinhos. 

Daí que toda a inocência da senhora do alfaiate foi-se pelo ralo – embora os ralos e os banheiros provavelmente não tivessem sido sistematizados pelos especialistas em banheirologia – quando sentiu pela primeira vez a mão esquerda[3] do príncipe tocar-lhe o colo, no sem querer mais intencional que já se viu na mão esquerda de um membro da família real.

No entanto, para evitar corte de relações profissionais entre a nobreza e o marido, a bela mulher não denunciou o fato ao dedicado alfaiate, que continuava alfaiateando as roupas do rei e dos nobres mais nobres do império. Mas passou a policiar rigidamente os movimentos do “amigo” príncipe e a responder friamente às suas perguntas. Decerto contava que a frieza expulsasse de maneira mais humana o desumano príncipe da sua modesta casa.

Um belo dia, no entanto,[4] o príncipe Berlusquino embarafustou-se pela casa adentro, convidando ardentemente a casta senhora ao prazer de ser concubina de um príncipe tão belo e tão viril e tão rico e tão poderoso quanto ele. De início ela não pode negar, porque os beijos nada românticos do príncipe a sufocavam e emudeciam, e isso não é figura de linguagem! Nada, porém, que um daqueles clássicos chutes entre as pernas não resolvesse, mecanismo que não fora inventado naquele momento, mas que, como ninguém nunca patenteara, podia ser usado livremente, como ainda o é, até os nossos dias.   

Diante deste ato brutal, nada restou à bela senhora senão expulsar de sua casa o príncipe, a bassouradas; e comunicar ao marido a porcariada em que estava metido. E inclusive, sugeriu que os primos abandonassem o time de penabola, um esporte muito praticado no reino, que era financiado diretamente pelo príncipe.

Mas isso, porém, não bastou ao jovem e indignado alfaiate.

“Fosse no século XXI, meu amor, eu até deixava passar. A gente entrava com uma ação na justiça, danos morais, essas coisas e tudo o mais. Mas aqui, em terras de reino e em tempos semi-medievais, o negócio tem que ser resolvido é na espada."

E lá se foi às portas do palácio, desafiar o príncipe para um duelo. Este, que não podia aparecer como um impiedoso destruidor de lares na mídia[5] disse ao “amigo alfaiate que tanto já me vestiu” que não queria ferí-lo e, portanto, achava mais prudente não descer para brigar até a morte com ele no jardim, ao portão do palácio. Além disso, andava muito ocupado. A vida de um futuro rei é muito agitada, não tinha tempo para ficar duelando por aí.

Mas honra não se compra em quitanda. Depois de ruminar consigo mesmo por horas, na porta do palácio, andando pra cá e pra lá, o alfaiate não se conteve e pulou o muro da propriedade, marchando em direção à varanda, onde, tranquilamente, o velho rei Augusto e o jovem príncipe Berlusquino tomavam o chá das cinco da tarde.[6] Ao ver o jovem costureiro com uma agulha mil vezes maior que a habitual na mão, o rei e o príncipe gritaram, em uníssono[7] brado: guaaaaaaaaaaardas!

Imediatamente uns dez guardas foram de encontro ao corpo raquítico do alfaiate e o mataram, sem se lembrar que o uniforme que vestiam fora idealizado por ele.

MORAL: Quando um não quer, realmente dois não brigam.


Fernando Lago Santos – 23 de Fevereiro de 2011


[1] Séculos idos, portanto.
[2] Um dia ele inventou uma roupa invisível, mas foi em outro reino e em outra história totalmente distinta.
[3] Ou teria sido a direita? Mas nessas horas ninguém repara bem nisso.
[4] Todos os dias em histórias de reinos são belos.
[5] Na época, um jornaleco de quatro ou cinco páginas.
[6] Embora o alfaiate, detalhista, tivesse conferido no relógio que ainda faltava uns quinze minutos para as cinco, mas isso é detalhe dispensável.
[7] Fruto de ardorosos ensaios vocais.