26 de mai. de 2011

Pílulas de Farinha




Texto publicado no Jornal Independente

Tenho saudades da época em que citações literárias e divagações poéticas diziam muito sobre uma pessoa. Uma amiga minha de São Paulo, a Flávia Queiroz (@flahqueiroz) costuma ser muito ácida com relação às exaustivas frases citadas em demasia nas redes sociais. Em específico, as de Caio Fernando Abreu e de Clarice Lispector. Flávia diz que se criou um processo de coelhização destes autores: as pessoas usam as suas frases sem conhecer o contexto, como pequenas pílulas de autoajuda.

Confesso que foi através de excetos de alguns textos que conheci muitos autores que hoje admiro. Não os abomino indiscriminadamente, sendo, inclusive, um praticante da arte (arte?) de citar frases de célebres escritores. No entanto, concordo com a Flávia. A repetição exagerada de frases isoladas, mesmo célebres, tende a torná-las tão banais quanto um “eu te amo” de menina lasciva. Perdem o significado e tornam-se realmente pílulas sem efeito, vazias, como aqueles remédios pra emagrecer que fizeram muito sucesso há alguns anos e, de repente, descobriu-se que eram feitos de farinha.

Retomo o que eu disse, agora com mais convicção: Sou um praticante da arte de citar. E vejam que agora digo com certeza: uma arte! Porque citações não se sustentam sozinhas. Precisam ser entendidas a partir de um contexto pessoal. O que me leva a citar isso? A que sensações me rendo ao fazer uso da palavra que uma pessoa escreveu há cinco, dez, quinze, cem anos? Que sensações quero provocar ao divulga-las? E o que eu conheço sobre o autor que a disse, quando a disse e por que a disse?

No âmbito científico as citações são muito importantes para fundamentar o desenvolvimento da teoria a que pretendemos defender. Dificilmente uma banca avaliadora vai aceitar um trabalho que não traga no seu arcabouço alguns outros trabalhos já construídos sobre a temática. A teoria do conhecimento não entende uma construção de saberes que não parta de outros saberes já construídos. É preciso, portanto, organizar, na medida do possível, os conhecimentos já sistematizados num sentido geral sobre a matéria estudada para, a partir deles e da vivência no campo de pesquisa, construa-se novos conhecimentos, que suscitarão novas pesquisas, que suscitarão novos conhecimentos, e assim por diante.

Admitir a genialidade de um escritor através de citações é muito bom e fico feliz quando vejo uma pessoa com uma grande bagagem literária. No entanto, essas citações devem ser feitas com o objetivo de que os outros também conheçam essa genialidade, admitindo-a. E não de maneira a obriga-los a decorar coercitivamente, pela força da repetição, as citações prediletas de determinada pessoa. Poderíamos parafrasear a sabedoria popular dizendo que de frases de efeito os incineradores estão cheios...

Fernando Lago – Maio de 2011 

16 de mai. de 2011

Entre Fernandos






Será pecado mortal
 – favor, chama aqui o padre!
Ler os poemas de Álvaro de Campos
E achar que fui eu que escrevi?

Será blasfêmia artística?
Um disparate rimológico?
Respondam, sacerdotes, gurus, pajés da arte moderna,
Será?

Opino, creio que não
Não há de ser um pecado
Achar que são minhas as letras
Que há pouco dançavam no livro
Sensualizando meus olhos

Não, não há pecado!
E ainda se o houver
Não poderão condenar-me

Não, porque o pecado não é meu
É antes do Álvaro de Campos
Que décadas antes do meu nascimento
Adivinhou-me tão bem

Talvez um outro Fernando
Excelente Pessoa
Em alguma dimensão
Ou em dimensão nenhuma
Esteja rindo da minha cara

De tempos em tempos, diz ele,
Nasce um com essa sina
A sina de ser poeta
A sina de ser Fernando
A sina de ser sozinho
Com os consigos de si.

Talvez, Fernando, talvez...

Talvez seja essa a sina
A sua de ser tantos em uma só Pessoa
A minha de afogar-me em meu próprio Lago

Somos fernandos
A mesma reclusão do mundo
A mesma impessoalidade consigo próprio
De diferente, só o alcoolismo
E a genialidade
Coisas nem sempre  inclusas no pacote de fernandices.


Teixeira de Freitas, Janeiro de 2011 

7 de mai. de 2011

A primeira vez da carioca

Conversa registrada poucos minutos após a primeira vez da Tammy, que por bênção divina escolheu este mísero poeta para ser o primeiro a concretizar tal ato com ela. Só pra vocês morrerem de inveja, essa é a Tammy:



(01:20) Tammy:
Legal
Gostei da experiência
Foi bom minha primeira vez ter sido com você
xD
(01:21) Fernando Lago -:
pra falar a verdade, foi praticamente minha primeira vez também
foi bom pra você?
(01:22) Tammy:
Ah, foi ótimo
E pra você ?
(01:22) Fernando Lago -:
foi totalmente demais!
(01:23) Tammy:
^^
nhaaaa
(01:23) Fernando Lago -:
tava muito baixa?

(01:24) Tammy:
estava alta e penetrante =)
(01:24) Fernando Lago -:
hahahaha
(01:24) Fernando Lago -:
vc está me excitando
(01:24) Tammy:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Morri
(01:25) Fernando Lago -:
essa galega é perigosa até de longe!
(01:26) Tammy:
nhaaaa
(01:26) Tammy:
Mas você estava tímido no início, mas depois pegou firme
se bem que durou pouquinho, né
(01:27) Fernando Lago -:
é... mas eu vou me aperfeiçoando
na próxima a gente demora mais e eu vou conseguir te satisfazer
(01:28) Tammy:
Que bom !!
(01:29) Fernando Lago -:
embora tema que isso seja uma coisa difícil, né
hahaha
(01:30) Tammy:
hauhahahuauha
Ah, nem tantoo



Alguns minutos antes...



(01:05) Tammy:
Amore, vc tem Skype ?
(01:06) Fernando Lago -:
Tenho, quase não entro, mas tenho
(01:06) Tammy:
ebaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
me adc lá
(01:07) Fernando Lago -:
=D
(01:10) Fernando Lago -:
só não posso falar porque o povo tá tudo dormindo
hahaha
(01:10) Tammy:
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Então num tem graça
(01:11) Tammy:
Eu queria ouvir teu sotaque
=D
(01:11) Fernando Lago -:
vou fingir que to atendendo o celular
peraí
(01:11) Tammy:
kkkkkk
Se eu falar, vai atrapalhar ?
(01:11) Fernando Lago -:
não
(01:12) Tammy:
quer qe eu fale oqe?
(01:12) Fernando Lago -:
fala "pasquale"
hahaha
(01:12) Tammy:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
(Ela fala no áudio: "pashcoalee")
(01:12) Fernando Lago -:
que linda!
kkkk

(eu falo alguma coisa com meu sotaque meio-baiano)
(01:16) Tammy:
aaaaaaaaaaaaaaaaaaadorei
(01:17) Fernando Lago -:
que voz lindaaaa
=)
(01:17) Tammy:
a sua é sedutoramente sedutora
adooooooooooro
(01:19) Fernando Lago -:
kkkkkk
(01:19) Fernando Lago -:
então, se um dia eu te encontrar, vou só falar no seu ouvidinho
hahaha (e botar um saco de pão na cabeça)
(01:20) Tammy:
hauhauauhauhuaha
Legal
Gostei da experiência
(01:20) Tammy:
Foi bom minha primeira vez ter sido com você
xD

Viram? Isto foi só a Tammy e eu usando o Skype pela primeira vez!
Ah, essa galega... ♥♥♥


29 de abr. de 2011

Esperar não é saber...



Deflagrada a greve pela Associação Docente da Universidade do Estado da Bahia (ADUNEB) – somando-se às outras quatro estaduais já em greve há cerca de uma semana, reacende-se a discussão acerca do ensino superior público em nosso estado e em nosso país. Qual a importância das universidades para a sociedade? Em que tem elas contribuído ao longo de todos esses anos? E, o principal de tudo, por que greve?

Levando-se em consideração os nossos mais de quinhentos e dez anos de história, universidade é uma coisa recente em nosso país. Sabemos que Dom João, durante sua estada na então colônia, foi bem “bondoso” trazendo para cá uma faculdade. No entanto, apenas muitos anos depois (1915) é que se organizou a primeira universidade na estrutura que conhecemos.

Importante diferenciarmos faculdade de universidade. Podemos dizer, grosso modo, que uma faculdade se ocupa com o ensino em áreas específicas, enquanto a universidade possui um projeto mais amplo, englobando o ensino, a pesquisa e a extensão como elementos indissociáveis, além de manter uma pluralidade de cursos e grupos de estudo e de pesquisa. Neste sentido, poderíamos dizer que se trata de um conjunto de faculdades, e de núcleos de atividades, visando formar não só pelo ensino, mas pela pesquisa e pela extensão.

A importância da universidade para a sociedade pode ser verificada através das demandas sociais que ela busca responder por meio dos três elementos indissociáveis que citei acima. Mantém, em geral, uma intensa produção científica por meio de grupos de pesquisa, projetos de extensão, programas sociais, parcerias com ONGs e movimentos sociais etc. Isto além de formação de profissionais de diversas áreas.

Especificamente no Departamento de Educação Campus X, localizado aqui em Teixeira de Freitas, podemos citar vários exemplos significativos de contribuição da Universidade do Estado da Bahia para a sociedade. Além da formação de diversos educadores, gestores educacionais e pesquisadores – vale citar que, entre os aprovados nos concursos públicos municipais da região, e mesmo no do estado, grande parte é de egressos da UNEB/DEDC X – temos também o funcionamento de vários programas e projetos de extensão, que mantém a universidade em contato com a comunidade. Apenas como exemplos, podemos citar o Alargando o Funil – pré-vestibular popular; o Projeto CEVITI, que atende a pessoas da terceira idade em diversas atividades culturais e artesanais; os projetos de estágio, monografia e pesquisas em parceria com várias organizações da sociedade civil, entre outros tantos.

No contexto atual, porém, especialmente em nosso estado, a universidade passa por diversas crises estruturais. Falta de professores, falta de funcionários, falta de recursos que auxiliem atividades de ensino, pesquisa e extensão e congelamento de salários e benefícios de professores e funcionários. É muito comum ouvir reclamações sobre as universidades estaduais, especialmente a UNEB – multicampi e presente em quase todo o estado – devido a essas demandas. É preciso compreender, neste sentido, que a greve, importante mecanismo de luta, se faz necessária para defender a manutenção da universidade, que corre risco de extinção diante do tratamento dado pelo poder público e pressionar a este para que atenda às demandas exigidas.

O estopim da greve deflagrada no último dia 27 é o decreto 12.583/2011, que estabelece medidas de contenção de gastos que prejudicam não só o funcionamento da universidade como de todo o serviço público. Soma-se a isto todas as demandas já existentes da pauta das associações docentes e discentes.

Se o discurso veiculado nos textos publicitários do governo é de que a Educação é importante, o professor precisa ser valorizado etc. etc. etc. é preciso que haja ações que o obriguem a enxergar que esse discurso bonito precisa também de práticas que o justifiquem. Dessa forma, mesmo que a greve prejudique a linearidade do calendário acadêmico, é preciso entender que a Educação será muito mais prejudicada em sua totalidade se não lutarmos para que seja enxergada pelos olhos das políticas públicas. A luta é por uma Educação (básica e superior) pública, gratuita e de qualidade.

Fernando Lago – Abril de 2011

* Este texto é de total responsabilidade do autor e não representa opinião oficial do movimento de greve.

16 de abr. de 2011

Política Interna


Ele a beijou com ardor e ficou contemplando seu belo rosto, contando suas quase invisíveis sardas e passando-lhe a mão pelo cabelo, num movimento impensado. Após alguns instantes nesse quadro que escapou ao Renascimento, ele lança a pergunta:

- Você teria coragem de namorar comigo?

Ela o olhou por alguns instantes e avançou o rosto ao encontro do dele. Bocas, olhos, nariz. Tudo se encontra, como em uma conferência de afagos dos sentidos. Após o beijo, o rosto dele continua interrogativo.

- Isto foi um sim?

- Não, isto foi um: “por que você acha que eu não teria coragem, seu bobo?”.

- Aaah!

- Aaah...

- Suponho que não tenha esquecido que, publicamente, nos odiamos.

- Sim, somos inimigos políticos...

- ... e que outro dia mesmo nos pegamos em um debate ferrenho no auditório da Universidade.

- Sim – riu a moça – nos pegamos em um debate ferrenho e, por um belo acaso, nos pegamos depois, mas em outras circunstâncias...

Ele também riu, contraditório:

- Estou falando sério, Amanda!

- Ah, Mateus, somos jovens! Podemos nos dar ao luxo de mudar de opinião de um dia pro outro! Eu não mudei de opinião sobre você, literalmente, da noite pro dia?

- Dormimos juntos, Amanda! É totalmente diferente! Agora quem é que vai entender se assim, do nada, de um dia pro outro, você passar pra Esquerda?

- Ou você pra Direita...

- Não, isso não...

- Ué, porque EU é que tenho que mudar de lado? Isso é machismo!

- Não é machismo, é consciência!

- Ah, tá! E eu não tenho consciência, então!

- É sério, amor! Eu não duraria um dia tendo que agüentar aquele bando de burgueses exploradores!

- E você acha que eu aguentaria por mais de um minuto aquela corja de baderneiros e maconhados que você chama de companheiros?

- Você é uma retrógrada!

- E você um arruaceiro!

Ficaram se olhando por um instante. Depois, desculparam-se sem palavras, com um beijo apolítico.

- Tenho uma solução – disse ela após alguns instantes.

- Diz.

- Vamos, nós dois, militar pelo partido de Centro.

Dez minutos depois, ainda não tinham conseguido reter as gargalhadas.

Fernando Lago – Abril de 2011

7 de abr. de 2011

A Revolta

O Leão descansava nos seus aposentos real-florestais quando foi despertado por um insuportável barulho na porta de seu palácio. Saiu para ver o que era e deparou-se com um tumultuado protesto de rãs que bradavam, em coro, vários coaxares de ordem contra o regime.

- Mas que estapafurdiagem é essa? Ninguém mais respeita a ordem nessa mata?

- Isto é um protesto! Estamos reivindicando melhores condições para a população anura do Lago Norte.

- E eu, que tenho a ver com isso? Não sou anfíbio, nem peixe, e nem moro no Lago Norte. Virem-se vocês!

- Pois não é o senhor o rei da floresta?

- Se sou! Eu que mando aqui!

- Pois que trate de cuidar das minorias, antes que entremos com um processo de impeachment contra o senhor!

- Vocês estão sonhando! Nem temos Supremo Tribunal por aqui!

- Pois então faremos uma greve!

- Que façam! – Bradou o Leão em bocejo, mostrando as enormes mandíbulas. – Agora chispem!

Depois de meses de greve, verificando que não surtiu o efeito revolucionário a que pretendiam, as rãs convocaram uma Assembléia Popular com diversos outros animais, angariando o apoio de alguns repteis, das zebras, dos veados e das hienas, que achavam a maior graça naquilo tudo. Ainda assim, o Leão não cedeu.

Não havendo outra saída, o comitê revolucionário convocou nova assembléia, onde foi deliberado que iam ocupar as portas do palácio até o Leão atendê-los. Vendo sua porta apinhada de bichos diversos, o Leão aceitou receber um representante dos grevistas em seu gabinete.

Os grevistas resolveram então contratar a elefanta, exímia negociadora da região. Uma lady, que com certeza teria argumentos superiores para convencer o Leão. A Elefanta (que também era conhecida como elefoa, embora sempre corrigisse, mostrando dicionários e gramáticas clássicas) adentrou a sala do rei, que a recebeu com uma imensa tromba. Não intimidada, foi logo esclarecendo:

- Olha aqui, eu sou uma profissional! É bem melhor o senhor parar pra pensar...

- Que parte da palavra Rei, essa bicharalha[1] não entendeu? EU mando aqui!

- O senhor precisa ser sensato...

- E a senhora precisa de um spa! Por que não dá uma corridinha na mata pra diminuir essa barriga, hein!

- Como é que é?

- Obesidade, dona Elefanta. Isso faz mal à saúde.

A elefanta, irritadíssima, puxou o Leão pela juba, deu-lhe umas patadas no meio das fuças e atirou-o pela janela dizendo:

- O senhor acaba de ser destronado.

MORAL: Nem um estadista tem o direito de chamar uma mulher de gorda.


Março de 2011

[1] O equivalente de “gentalha”, só que para os bichos.