5 de set. de 2011

τρία



O número 3, segundo tradições milenares, familiares e wikipediais, tem uma grande importância mística, simbolizando união e equilíbrio. Procês terem ideia, o danado do número aparece na Santíssima Trindade, sendo de suma importância pros cristãos, representando o conselho máximo deliberativo das decisões divinas; na política temos os três poderes (jurídico, executivo, legislativo), símbolo da perfeição que é o sistema democrático (haha). Aliás, se não tiver pelo menos três pessoas pra tomar uma decisão, aí fudeu a democracia! Porque vai dar sempre empate. Até numa discussão, se você precisa de uma segunda opinião, precisa também de uma terceira pessoa.

O três também é usado como pedido de socorro. De acordo com os meus conhecimentos (wikipedia.org), para se pedir socorro no deserto ou em alguma outra região, basta fazer três fogueiras, porque três é um código mundial. Enfim, se você tiver num deserto, faça três fogueiras que alguma coisa muito legal vai acontecer.

O três também é conhecido sexualmente na prática de ménage à trois. Mas não tenho certeza se essa informação é pertinente.

Três Mosqueteiros, Três Porquinhos, Três Marias, os três anos de estágio probatório do servidor concursado... Enfim, o três é um must. Pra desbanca-lo mesmo, só o sete. Mas a gente chega lá.

Você deve se estar perguntando por que diabos estou falando com tamanho misticismo sobre esse número primo. É que hoje, 05 de Setembro de 2011, completa-se um ciclo de três anos da existência deste espaço de inconfidências, e achei que seria legal saber um pouco mais sobre a simbologia que carrega este numerozinho.

Mas, por outro lado, quantos números que são trazidos no bojo destes três anos!
Veja bem, são três anos com doze meses cada um, isto é, 36 meses. Isto deve dar uns 1095 dias (calculadora, pra que te quero!), no ar vinte e quatro horas por dia graças à tecnologia dessa coisa de internet que não parece de Deus, estamos acesos há mais ou menos 26.280 horas! O que isso importa? 

Não sei, só deu vontade de dizer.

São três anos, 222 postagens, 10.533 visualizações, 478 comentários publicados, vários xingamentos não publicados, pessoas do mundo todo se encontrado na beira deste lago tão pobre e tão poluído pelas suas próprias águas...

Enfim... Não irei aqui relatar os insucessos que me levaram a criar este espaço. Já fiz isso antes, e já o fiz mais de uma vez. Só vou dizer que estou muito feliz de estar aqui com vocês. Espero que possamos continuar aqui por muitos anos mais, juntos sempre nessa alegria de viver, eu aqui no meu velho e querido banco e vocês aí, porque... Meus advogados me advertiram que não tenho caixa para responder processo por plágios. Enfim!

Pra finalizar, selecionei uns dois ou três pares de frases veiculadas neste blog através dos meus rabiscos inconsequentes, pra posar de pensador e fazer parecer que saiu alguma coisa que preste daqui ao longo destes três anos. Enjoy!

Pois é, você pediu que eu me descrevesse e acho que minhas palavras me denunciam: sou indescritível. (Outubro de 2010)

Nasci bonito, a sociedade é que me corrompeu. (Março de 2011)

É que na verdade gosto de ser inexplicável. Só se é explicado o que está pronto, e eu mudo a cada minuto. (Janeiro de 2010)

...somos jovens! Podemos nos dar ao luxo de mudar de opinião de um dia pro outro! (Abril de 2011)

Já amanhece, eu sei. O mundo acorda, a gente adormece (Maio de 2010)

...roubou o sorriso de uma estrela, assim, como quem rouba goiaba na casa do vizinho...  (Maio de 2011)

Na grande peça da vida, meus papeis são todos curtos. (Março de 2011)

...vejam só que absurdo. Qualquer um hoje em dia pode se tornar adulto! (Novembro de 2010)

Recusei-me a puxar o estrato de todos os meus atos nestas duas décadas de vida. Não seria agradável verificar que estou em déficit comigo mesmo. (Novembro de 2008)

A gente tenta guiar os humanos para o caminho certo, mas alguns não têm jeito mesmo. (Janeiro de 2010)

Que posso eu fazer? Cresci no meio de seres humanos. Deu no que deu: virei um também. (Março de 2011)

O menino cultiva amores. Tem uma criação de afetos em seu quintal. Mas afeto é bicho de asa. Logo cresce, sai voando. (Novembro de 2010)

Enfim, lamento por ter lamentado tanto quando eu podia agir que agora nada me resta a não ser lamentar. (Outubro de 2008)

Setembro de 2011

30 de ago. de 2011

Declaração

Cena do filme Luzes da Cidade (City Lights), de 1931. Chaplin. Gênio.


Olha, menina,
Você é mais linda do que todas aquelas
Que não te superam em beleza física!
Muito mais inteligente do que todas as outras
Que possuem uma menor bagagem cultural.
Seu temperamento é tão dócil
Que você consegue ser mais calma do que todas
As que têm menor auto-controle que você.
E sempre está disposta a fazer o que é preciso,
Exceto quando se indispõe.
Você, meu bem,
É uma menina que sempre está alegre,
Exceto quando a tristeza te domina.

Enfim, posso dizer, sem medo,
Que salvo todas as imperfeições,
Você é uma mulher perfeita.

Agosto de 2011

19 de ago. de 2011

O Maniqueísmo da Consciência



É hora de pegar meu caderninho de clichês. Ano que vem começa a ladainha e eu, moço consciente do meu papel cívico, vou querer acompanhar tudo timtim por timtim, do jeito que manda o roteiro.


Num primeiro estágio, vão começar a surgir sujeitos bem vestidos, de gravata até, oferecendo carona no seu carro popular, ou prestando a sua manifestação quadrienal de afeto e amizade. O cara irá fazer-se conhecido, aparecerá em eventos sociais, apoiará – pelo menos por palavras – toda e qualquer manifestação em favor dos pobres e necessitados. Lembrará que dali a algum tempo o país estará exercendo o pleno direito de escolher os seus líderes e evocará os mártires da História do Brasil para dizer da importância de o povo votar consciente. Por fim, revelará que será candidato, mas não por vontade dele, sim pela necessidade do povo.

De repente, setores ligados intrinsecamente a essa pessoa (por uma dívida de favor, uma submissão patronal ou sangue parental mesmo) passam a chamá-lo, simplesmente, de amigo. Amigo do povo.

Os amigos do povo ocupam a primeira fase quase inteira da campanha eleitoral. Não perdem um debate, um assunto, sempre tem postura para tudo, sempre do lado do povo. Também começam a aparecer os velhos amigos do povo, conhecidos já. Fiéis: de quatro em quatro anos sempre aparecem. Quando não para falarem de si, para promoverem os novos amigos do povo que, por mera coincidência, são aliados ao seu partido (que na maioria das vezes não é o mesmo de há quatro anos atrás).

No segundo estágio, a justiça eleitoral libera a campanha. O amigo do povo vira oficialmente candidato a uma cadeirinha na Câmara ou na Prefeitura, e promete ser amigo do povo de um novo jeito agora: vai lutar por ele “lá em cima”, onde dormem os que mandam. O amigo do povo agora aperta mãos, beija rostos, evocando as lembranças de “sempre estive com vocês”, relembrando toda a sua trajetória e ressaltando: nem era época de eleição! De repente o povo pensa: olha, nem todo político é mal, esse cara é nosso amigo, é gente da gente.

Chega o dia do pleito e é eleito o sujeito (ai, como estou poeta!). E todos se alegram: votaram conscientes! Mas, de repente, sem nenhuma explicação médica, o amigo do povo se esquece de que, um dia, foi o amigo do povo. E passa a ser ora amigo dos financiadores de sua campanha e governa pra eles. É isso, amigos. O problema dos nossos políticos é meramente patológico: amnésia.


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O mais complicado nesse negócio de consciência é que todo mundo que votou, votou consciente, na sua convicção. Mesmo o sujeito que votou no patrão porque esse lhe deu um aumento. Mesmo o rapaz que quer casar e votou em quem lhe deu a festa de graça. Mesmo os chegados que votaram nos chegados de outros chegados só por não ser chegado de mais ninguém. Não votaram dormindo, nem dopados, nem hipnotizados; votaram conscientes, mas na consciência deles.

Aí é que está a questão. Quando me dizem pra votar consciente o que estão chamando de consciência? Há os que pensam que ser consciente é votar pela direita, outros pensam que o melhor mesmo é ir pela esquerda, mas tem um bocado de gente que prefere a saída dos fundos. Por fim, uns tantos desiludidos tem a plena convicção de que a única maneira de votar consciente é não votando em ninguém.

Em estadia na Assembleia Legislativa comentamos com um dos bambambãs de lá a nossa decepção maximizada pelo comportamento dos deputados nas sessões ordinárias do plenário. O sujeito, obviamente, procurou defender os seus: disse que o deputado tem não sei quantas mil coisas a fazer e que nem sempre é possível estar disposto a prestar atenção em toda a sessão. Justo, respondemos, isso explica o estado aéreo em que a maioria deles se encontra no plenário. No entanto, não explica as conversas em voz alta no celular, as leituras de jornal enquanto os colegas estão na tribuna, e, num nível absurdamente maior, o total descaso com o povo que o elegeu. Tentou ainda nos convencer de que a democracia representativa é a melhor forma que o povo tem de participar do poder. Não conseguimos esconder a nossa vergonha de ter como nossa única representação aqueles senhores, os nossos eleitos.

O princípio da nossa maravilhosa democracia representativa é este: por meio do voto elegemos as pessoas que irão defender os nossos direitos na administração dos nossos próprios bens; por meio dos impostos pagamos o seu salário e por meio das leis que eles aprovam recebemos nosso retorno. Ou seja, eles são nossos funcionários. No entanto, definem seus próprios salários, ganham diversos benefícios, não obedecem as nossas ordens e, pior, dificilmente conseguimos demiti-los.

É por isso que tem cada vez mais gente achando corajosamente que o único voto consciente é o que inexiste. Digo corajosamente porque quando declaram isso publicamente são quase espancados pela opinião pública. Plagiando Voltaire, poderia dizer que posso não concordar com um voto absolutamente nulo (embora eu pense que pode ser uma ferramenta interessante, votar nulo por votar nulo não adianta nada), mas defendo até a morte o direito do cara votar como quiser. Se o princípio da palavra “eleição” é escolher o melhor dentre os apresentados, suponho que se não há um melhor, o melhor é escolher nenhum.

E haja Cacarecos!


Julho de 2011. Publicado em duas partes no Jornal Independente.

10 de ago. de 2011

Sabor



Seus olhos me espiam
E expiam
Os meus pecados

Diante de você sou santo
E pecador
E sinto a dor
De um sabor
Que não devia haver na dor

Não entendo essa coisa que trazes contigo,
Impregnada na sua pele
Não entendo e não sei o que seja

Talvez veneno
Talvez qualquer desses sabores exóticos
Porque é visivelmente deliciosa
Essa substância invisível
Que você deixa manchada
Na pele de quem te toca

Vê se te toca
Vê se me toca
E vem morar em minha toca!


Julho de 2011 

20 de jul. de 2011

Labirinto



Quero morar em teus domínios
Não saber como sair
Me perder em teus labirintos
Nem pensar aonde ir

Hoje ando solto
Pelo labirinto da terra
Procurando não sei o que
Numa busca que não se encerra

E tu
Por onde andas
Que não estás do meu lado?
Por que caminhos embelezaste o mundo
Enquanto eu, solitário,
Caminhava, desenfreado

Ah
Que vida insossa
Que lânguida lambida do destino
No amargo ser que eu sou

Oh
Menina moça
Tu sabes que eu não sou menino
Mas rejuvenesço ao teu lado
Renovado por teu amor

Que amor?
Sei não
Seria mera paixão?
Que paixão?
Não sei
A ilusão é minha lei


Belo Horizonte, MG. 17 de Julho de 2011