10 de nov. de 2012

Leve Ana

Para Ana Luiza Benjamim 


Imagem: http://fama.zupi.com.br/juvioleta


Ana
Teu corpo encana
O fluido que te faz insana
Tua alma é leve, Ana
E leviana é a desquerência
Dos que não te amam

Leve, Ana
Para longe de ti
Todo o mal que ecoa

Ana, à toa
Fazes-me rir
E no devir
Pensar num mundo que vai surgir
Do seu sorriso-luz

Ana Luiza
Tu exorcizas
Todos os males
da sobriedade
Na sua busca
Pela verdade
Já não vem tarde
O seu sorriso
Sem juízo, Ana

Ana
Muda, Ana
A paisagem mundana
Com seu olhar
De limpidez  
Pois sua loucura
É cura
Para a doença
Incurável
Da lucidez

Fernando Lago - Novembro de 2012 

16 de out. de 2012

Ave mar ia*



Andava Maria
Ao mar ia
E eu a seguia
Com os olhos, atento
Maria, ao vento
Do início do dia
Me amaria
A Maria?
Quem diria?
Nem penso, nem tento.

Mar vinha, mar ia
O mar e Maria
Ave Maria!
Pairava no ar
Com o seu perfume
Seu doce sorriso
A me encantar

Que asas que faz
Maria voar
Sobre as ondas
Do meu pensamento?

E o barquinho da minha poesia
A mar ia
E eu amaria
A Maria...

Fernando Lago – 2012


*Dedicada a Maria Rocha 
*Título inspirado em poesia de Kha Tembe


12 de out. de 2012

Filó


Foi tão séria a brincadeira que me fiz
Que eu cri que acreditava na descrença
Que a ciência que eu tinha no meu corpo
Na realidade impura de minha vida
Me fazia mais eu mesmo sem me ser

Não compreendo o que eu digo em sobriedade
O delírio do etílico não me domina
A loucura de minha mente não é química
E a sua natureza é desconhecida

Venha, Filó
Venha tomar comigo gotas de chuva ácida
Venha fazer de mim um homem sem medo de si
Venha me purificar da antagonice de ser eu
Não sendo nada, nem ninguém

Eu olho os olhos de Filó e me vejo neles
Eu que achava os olhos de Filó tão bonitos...

Fernando Lago – agosto de 2012  

24 de set. de 2012

Percebi que era ela quando ela sorriu

Andava junto de mim
Dizia fofocas dos outros
Fazia gestos elegantes
Cantava MPB
Dizia que o céu está lindo
Se protegia do sol
Topava com amigos e amigas
Dizia quem eram, quem sou
Pegava na mão do prefeito
Chorava ao som de Chopin
Comprava sapato no shopping
E pechinchava o valor
Atravessava na faixa
Parava na Banca Brasil
Lia somente as manchetes
Do diário regional
Parava à beira do parque
Pra ver criança brincar  
Sorria de encanto e de graça
E me fazia corar
O mundo girava mais lento
Pro tempo nunca passar

Fernando Lago – 24 de Setembro de 2012 

25 de ago. de 2012

A formiga e a cigarra, ou vice e versa



Uma cigarra, dessas cantadeiras que chega a doer-nos o ouvido de tanto escutar o seu canto, vivia pela floresta soltando o gogó como se fosse Agnaldo Rayol. Enquanto isso, dona formiga, operária em construção, vivia sempre derramando o suor do seu rosto, se é que formiga tenha suor e rosto, mas, se tiver, o dessa aí está sempre todo suado, certeza.

As duas se encontraram num dia em que a formiga ia carregando uma folha pra logo ali, ó, virando a esquina. A cigarra ia pr’um happy hour em Copacabana e achou interessantíssima essa vida que levava a formiga (duplo sentido). Ressaltou, entretanto:

- Mas eu, queridinha, prefiro mesmo é cantar meus roques. Até admiro, mas esse negócio de trabalhar não é comigo não.

Como vocês já devem estar esperando, veio o inverno – até Copacabana esfriou – e a formiga recolheu-se em seu apê no condomínio Paraíso, enquanto a cigarra, sem nem um miojo pra comer, perambulava pela rua, até que engoliu o orgulho e tocou a companhia da comadre (como vocês sabem, os bichos eram todos compadres e comadres) para pedir arrego.

- Mas moça cigarra! – disse a formiga surpresa – Parece que adivinha! Eu ia mesmo te ligar!  Estamos aqui precisando de um acustic MTV pra nossa festa invernal (muito cuidado ao ler essa palavra).


Enfim, vocês já devem adivinhar o fim dessa história, vocês sabem como são essas coisas. A formiga, depois que a Primavera voltou, virou empresária da Cigarra e nunca mais precisou juntar comida para o inverno. Manda vir tudo pelo delivery.

Moral: conversando a gente se entende.  

Fernando Lago - Agosto de 2012 

4 de ago. de 2012

A visita



O grande sábio Sheng Ren Hu mandou que avisassem a um de seus discípulos na aldeia de Ba Xii que iria comparecer à sua humilde e pobre casa para honrá-lo com a sua visita e, decerto, para partilhar de um jantar com a família dele, discípulo – válido explicar para que todos lembrem que sábios da estatura de Sheng Ren Hu não se casavam, ou porque não lhes queriam as mulheres ou porque eles próprios assim preferiam, vá lá compreender.

Mas, como íamos dizendo, foi através de um bilhete escrito em símbolos do alfabeto chinês que o grande e considerado sábio disse a seu menos incauto discípulo de Ba Xii: prepara-te, pois esta noite cearei contigo.

Ora, sendo o grande sábio uma pessoa de tamanha importância religiosa para o povo daquela aldeia, tendo status de santo ou de autoridade sobre os elementos naturais e sobrenaturais, preparou-se logo o nosso aldeão para receber da melhor forma possível o seu cultuado mestre. De modo que, juntando todas as suas economias, tomou pelo braço a sua mulher – que não era tão apegada assim às sabedorias de Sheng Ren, mas que respeitava as maluquices do marido – e lá foram os dois para o mercado de alimentos, preparar uma bela de uma ceia para o sábio sabido.

Lá pelas tantas, quando o discípulo e sua esposa já tinham terminado o preparo da ceia, que há de se admitir ficou uma coisa realmente digna de um sábio, apareceu um caminheiro à porta que disse:

- Meus senhores, percebam por minhas roupas que sou viajante e há muito que não como. Eu cá por minha vez percebo que os senhores são um casal de bom coração e não hão de me negar ajuda.

- Estás sem sorte, caminheiro – retrucou o discípulo do sábio – se fosse qualquer outro dia nós o ajudaríamos, mas hoje estamos esperando a visita de Sheng Ren Hu.

- Sheng Ren Hu?

- Sim!

- Que honra!

E lá se foi o caminheiro, que até que não era um sujeito ruim das vistas, porque realmente aquele casal tinha cara de quem gostava de ajudar as pessoas mais necessitadas, e efetivamente o eram. E talvez a notícia desta boa vontade toda tenha se espalhado por aí, porque dali a algumas horas um mendigo bateu palmas diante da porta do casal para pedir um prato que fosse de farinha com carne seca (e olha que essa história nem se passa no sertão nordestino!). Mas, como da outra vez, retrucou o discípulo que estava esperando o sábio já conhecido de todos.

Quando chegou um terceiro mendigo que, da mesma forma, fora dispensado pelo discípulo de Sheng Ren Hu, a mulher ficou inquieta.

- Olha, meu benzinho (ela não disse benzinho, mas estou apenas modernizando a história) esse seu sábio está demorando demais. A gente podia ajudar algum desses pobres desgraçados.

- Cala-te, mulher! – retrucou o discípulo que, como já percebemos, era muito chegado numa retrucada – ele disse que vem, então ele vem. E a gente vai esperar. Nem que todos os famintos da cidade ou da província venham bater na minha porta! O sábio é mais importante que todos!

A mulher ainda obtemperaria que poderia ser um teste do sábio para saber a humildade dos seus – os sábios tem essa mania. Mas não quis mais perder saliva com um marido tão cabeça dura.

Passaram as horas e o sábio não veio. Chegou a noite e o sábio não veio. Amanheceu o dia e o sábio não veio. E a mulher resolveu apresentar ao marido a sua versão de ter sido isso tudo um teste feito pelo sábio. O discípulo achou bem convincente a história da mulher e começou a se martirizar pelo egoísmo e desapego com os mais necessitados. Já estava quase se carpindo quando apareceu à sua porta os discípulos mais chegados do sábio, abrindo caminho para o próprio, que vinha com um pedido de desculpas pela falha no dia anterior, e um apetite de leão.

Enquanto servia a mesa, o discípulo contava com bom humor o ocorrido com os mendigos à sua porta, para mostrar ao sábio quanta honra ele tinha por recebê-lo. Enquanto mastigava filosoficamente a sua comida, o sábio dizia com tom de aplauso:

- Muito bem, muito bem!

E no frio da rua, os três mendigos chegavam à conclusão de que não entendiam nada da filosofia dos sábios.

Moral: ninguém é sábio de barriga vazia.

Fernando Lago – Agosto de 2012