5 de fev. de 2013

Você, tão menina



ADVERTÊNCIA

Há algum tempo atrás eu postei neste mesmo humilde, modesto e lindíssimo blog uma poesia-música que até então estava incompleta. Não muito tempo depois eu consegui terminar a segunda parte, mas não cumpri a promessa de postá-la aqui. Hoje, anos depois, venho agora quitar minha dívida com minha meia dúzia de leitores, que com toda certeza nem lembram mais de mim. 

Você, tão menina


Você
Tão menina
Malina, tanto desafina o meu coração
Beleza felina
Maquina tanta coisa fina pra minha paixão

Tão bem
Quanto voar
É me por à sua frente para te admirar
Teu ar
Me oxigenar
Parar, te ter na mente, comigo levar

Rosto, rastro, pasto exposto
Um trovoar de trovador
Posto, casto, parto, porto
Marina lá, o cais do amor

Você
Tão pequena
Morena, musa mais serena do versificar
Teu riso envenena
Acena e eu faço a minha cena pra te conquistar

Tão bom quanto sonhar
Levar teu rosto à lente desse meu olhar
Sorrir a te mimar
Calar pra ver se sente o que tento falar

Fundo, findo, vindo, afundo
Meus versos são pra te cantar
Mundo lindo, brindo, inundo
Chuva de amor pra te banhar

Rosto casto, vasto encosto
Musa serena do versar
Mundo findo indo a fundo
Na mente, comigo levar...

Fernando Lago – Junho/Julho de 2010
                               

26 de jan. de 2013

O ilustre refém

Imagem: internet



Andava tranquilamente e velozmente por uma avenida quando foi abordado por três sujeitos armados e teve que frear bruscamente para não esmagá-los com as rodas de seu carro. Além de armados, encapuzados, características das quais a única conclusão que ele poderia tirar sem precipitação é que eram bandidos. Ou delinquentes. Ou os dois ao mesmo tempo. Mas não era tudo a mesma coisa?
- Abre a porra da porta!
Entraram no carro com os revólveres apontados para a cabeça do homem, sentando, os três, no banco de trás.
- Toca pra Liberdade!
O cara acelerou sem palavra, virou umas ruas a mando dos bandidos, atravessou uma via movimentada, depois desceu e subiu uma ladeira, fez uma curva brusca numa estrada deserta e acabaram chegando frente a um casebre verde, mal iluminado pela luz do poste. Um dos homens saiu do carro sem deixar de apontar a arma para o motorista, enquanto outro ficava no banco de trás para dar cobertura. Abriu a porta e ordenou:
- Sai!
- É sequestro?
- Cala a boca e sai do carro!
Entraram no casebre, conduzindo a vítima que ia na frente. Eram amadores, Carlos logo percebeu. Na hora da abordagem mesmo, se quisesse, os teria atropelado, pois estavam mal posicionados e ele vinha em alta velocidade, pois era uma via de trânsito rápido. Mesmo enquanto dirigia, pensou em duas ou três reações possíveis, apenas não postas em prática por conta da sua falta de coragem diante de duas armas apontadas para si.
Os homens tiraram os capuzes, o que acompanhava Carlos o jogou contra a parede e o encarou por alguns minutos, como se tentasse lembrar-se de alguma coisa. Carlos demorou alguns instantes para perceber o que era. Mirou profundamente os olhos do seu agressor até finalmente reconhecer a expressão insegura, a mesma de dez ou doze anos antes.
- Elias?
- O quê?
- Elias Capeta?
- Quê que esse doido tá falando? De onde ele te conhece?
- Cala a boca, Cabrito! – disse Elias. E chegando perto de Carlos:
- De que você tá falando? De onde me conhece? Não me diga que é do ramo também!
- Ah, então é você mesmo! O menino mais atentado da escola, segundo as palavras da diretora Doroteia. Sempre quis as coisas da maneira mais fácil e menos lícita, sem se importar muito com os planos!
- Ih, esse cara tá pirado! – riu o outro comparsa.
Elias estava quieto, aparentemente refletindo:
- Mais fácil e menos lícita... então é você? Carlão! Tu então se deu bem, hein, rapá!
- Peraí, Capeta, então tu conhece mesmo esse cara?
- CDFzinho da escola. Estudou comigo no Barbosão.
- Não, pera, Hidelgundes Barbosa? Então o bacanão aí, que anda de carro importado e as porra tudo, estudou no BARBOSÃO!?
- Sim, claro! E tenho muito orgulho disso!
- Puta que pariu! Pensei que todo mundo daquela escola acabava virando bandido!
- Sempre disse isso ao Elias: não precisa estudar em escola rica pra se dar bem na vida. Tem um bocado de gente da nossa turma que se deu bem na vida.
- A Marcinha virou puta – disse Elias
- Nem por isso é desonesta. – retrucou Carlos - Olhe, a Miranda virou médica e o Vicente virou padre.
- Nem por isso são honestos.
- É verdade, a gente tem que julgar pelo...
- blablablabla apaga esse cara, Capeta. Ele te conhece, não rola mais!
- Porra, Cabrito! A gente precisa de um refém pra sair do distrito. A essa hora os homi já tão na nossa cola e devem ter cercado as saídas tudo. Precisamos de um bacana pra garantia.
- Vocês são uns bostas mesmo, viu!
- Qual é, Carlão? Esqueceu quem manda aqui, porra?
- Que que eu posso fazer? Vocês são tapados mesmo.
- Eu avisei, Capeta...
- Agora não, Cabrito.
- Capeta, Cabrito tá certo. A gente pega outro no caminho...
- Cala a boca, Carreto! Já falei que não vou apagar o Carlão. Ele é minha péda. O bonitão aí também não era flor que se cheire não. Conseguiu o gabarito direitinho no exame final pra mim.
Os dois caíram na gargalhada e Elias Capeta completou:
- Considero esse cara pra caralho!
- Ai que lindo! Se forem se pegar agora, usem camisinha.
- Porra, Cabrito, fila da puta! – explodiu Elias - Perdeu a noção do perigo?
- Então você é que é o líder do bando, Elias? – riu Carlos, com as mãos atadas. – Não é de se admirar tantas falhas. Você nunca foi bom em planejar, só em executar.
- Pois é, Carlão! Você que é o bom das ideias! Dá uma ajuda aí, o que a gente pode fazer?
- Me solta primeiro, é a minha condição.
- Você não tá em condições de pedir condição, playboy...
- Cala a boca, Cabrito! Carreto, solta o Carlão.
- Capeta...
- Solta o cara!
Carreto se dirigiu a Carlos e cortou a fita que lhe atava os punhos. Carlos levantou-se do canto em que estava jogado, sacudiu-se, esticou-se, estalou os dedos e disse:
- Porra, Cabrito! Em que você foi se meter?
- Assalto a banco, cara. Um polícia morreu. Por isso os homi tão doido querendo pegar nóis.
- Mas que merda, hein. Virar bandido?
- E o que que eu ia fazer? Trabalhar? Quem é que ia me dar trabalho?
Carlos caiu na gargalhada e ninguém entendeu por que. Poderia ser uma piada particular dos dois ex-colegas de escola, mas Elias não pareceu entender também e continuou olhando o sorridente com cara de “e aí?”.
- Vamos fazer o seguinte. Vocês vão me dar meu carro...
- Nem fu...
- Cabrito!
- Escutem, porra. Vocês vão me dar a chave do meu carro e vão sair do distrito comigo.
- E pra onde vamos?
- Para a capital. Trabalho lá.
- E nós?
- Vocês agora serão homens honestos, pelo menos em tese.
- Como assim, em tese?
- Bom, é que eu sou deputado. Vocês vão trabalhar no meu gabinete e, de vez em quando, farão uns trabalhinhos pra mim... Tudo dentro da legitimidade...
- Porra, não falei, Cabrito? Carlão é responsa!

(Fernando Lago, 2007) 

26 de dez. de 2012

Retribui

Imagem: http://ednene.wordpress.com/2010/02/12/ritmos-do-brasil-o-samba/


Pelas calçadas
e becos e ruas
todas as curvas
teu corpo insinua
tua perna nua
fazendo poesia
e poeira no mundo

Paro um segundo
o momento
o tempo exato
de me apaixonar
de ver-te de verde
chamando pra dança

Meu olhar não cansa
de te contemplar
enquanto balanças
balança o mar e a terra
e aterra meus medos
segredos
sagrados
resisto
insisto
existo
desisto

Atribui
Retribui
Contribui
Distribui
A beleza do seu olhar
Quão voraz 
Quão veraz
A palavra que ouço
que ouso
que uso
para te cantar

Fernando Lago – Novembro de 2012

8 de dez. de 2012

Big Bang

Imagem: internet


Ela tinha um mundo só dela
E eu tinha um mundo só meu
Como duas galáxias no infinito
Que por um movimento rotineiro
(desses que acontecem sempre a cada milhão de anos)
Nossos mundos se chocaram
E explodiram
E desintegraram-se
Todas as distâncias de nós
E agora
As galáxias tornaram-se
um sistema de um planeta só
eu
girando em torno de ti
a minha estrela maior. 

Fernando Lago – Dezembro de 2012

27 de nov. de 2012

De repente

Imagem: Filme Pickpocket (O batedor de Carteiras), Robert Bresson.  

De repente, aquela voz doce cortou o mundo de pensamentos em que eu estava absorto:


- Quem foi que velou?

- Como é que é? – fiz, como se estivesse sendo despertado de um leve cochilo.

- A bezerra – disse ela com um meio sorriso.

- Ah! – fiz entendendo e entrando no espírito da piada – sim, uma fatalidade! Tão jovem...

- O senhor não perde essa mania de ficar pensando na morte da bezerra, hein!

- Perdão?

- Não se lembra de mim, pelo visto.

- Evidentemente...

- Felícia.

- Felícia, Felícia... É um bonito nome, me remete a algumas conhecidas, porém nenhuma com o seu rosto.

- Participei de uma oficina de redação que você deu...

- Ah... Mas a única oficina de redação que dei foi há... é sério?

- Dez anos. Seríssimo. Como pôde se esquecer de mim?

- Estou me perguntando a mesma coisa...

Na verdade, durante os beijos que trocávamos dali a algumas horas, indo em direção ao Motel Califórnia, eu me lembrei perfeitamente de quem ela era. À época, uma ninfetinha assanhada e magra, sem muitos atrativos, semi-adolescente. Dizia-se apaixonada por mim e, certa vez, tive que desviar a mão dela que ia, digamos, em direções não muito confiáveis. Outro dia, ao despedir-se de mim ao fim de uma aula, beijou-me no rosto com tanto fervor que arrancou exclamações da turma. Ela, nas pontas dos pés, quase não me alcançava a face. Agora estava com o dobro do tamanho, sendo que boa parte do seu metro e setenta era de pernas, lindas, naquele vestidinho preto (indefectível).

Sim, eu lembrava dela, mas continuei fingindo que não, até para mim mesmo. Não quis desfazer o encanto de a estar conhecendo de novo.   

Fernando Lago – Novembro de 2012 

14 de nov. de 2012

Conselho

Imagem: Internet 


Parei pra refletir sem ter espelho
Ouvir de mim o meu próprio conselho
Agora vou buscar me redimir
Dos erros que eu nunca cometi

Fui tonto, tanto tempo
Inconsciente
Buscando uma paixão indiferente
Preciso de um gole de aguardente
Pra acordar do sonho de ser eu

É tanta ilusão, tanta cilada
É tanto tudo tão cheio de nada
É tanta vida morta, meu senhor
Coloca mais uma dose, por favor

Eu vou embora para a capital
Eu vou sair do sul, porque tô mal
Acho que, se pensar, aqui já deu
Ou é essa cidade ou sou eu

Domingo próximo ela vai casar
Ouvi dizer que o noivo é de BH
Fiz um negócio mal em Mucuri
Traz a garrafa toda, bota aqui

Não sei a quantas anda meu processo
Não sei qual a estrada pro sucesso
Teixeira tá bonita, tem progresso
Mas tá faltando eu me encaixar

Amigo, traz a conta, já tá tarde
Eu já embebedei só de saudade
Acho que vou pagar só a metade
Pendura o resto em nome da amizade
Depois eu passo aqui pra ver Tereza
Dizem que ela gosta de surpresa
Quem sabe eu me ajeito e me aquieto
E limpa esse balcão, tem muito inseto

Fernando Lago – Novembro de 2012