23 de dez. de 2010

Abre Parêntesis*




23 de Outubro de 2008

12 de Maio de 2009

13 de Dezembro de 2010

__ de ________ de 2011


Ciclo.
Inquebrável?



* Golpe de Estado dos Fantasmas do Lago.

23 de nov. de 2010

Olha lá

Poesia dedicada à inegavelmente linda Taynara Ambrósio. Anjo disfarçado de menina.




Imagem: twitpic da @keuazevedo - http://twitpic.com/39753e



Olha lá!
É isto, olha lá!
Lá mesmo, nesta direção
E na direção contrária
E em todo lugar!

Olha lá
A moça sai à pracinha
Voz e jeito de criança
Cabeça de um grande gênio
Maldade nenhuma no coração
E na mente, tantas idéias!

Olha lá
A rua é bonita
A casa também
Mais ainda ficam
Quando ela passa

Um tanto de luz a acompanha
Um tanto de divagações a quem assiste
Tantos apaixonados a seguem com os olhos...
E ninguém sabe ao certo
Quem mora em seu coração

Olha lá, ela me olhou!
E eu nem sei o que faço!
Só rir... E advertir-lhe que é linda.

Julho de 2010


17 de nov. de 2010

Tête-à-tête

Imagem: Blog Poetizando a minha vida, de Sandra Ribeiro: http://migre.me/2gOOs 



É madrugada
Ela bate à minha porta
Com uma carência exposta
Me dizendo que não me esqueceu

Angustiada
Diz que não pode dormir
E que quer ficar aqui
Sob os ternos carinhos meus

Ligo o k7
Faço um café
E quem no mundo pode entender essa mulher?

No tête-à-tête
Sabe como é...
Acabo, bobo, fazendo tudo o que ela quer

Ela me beija
Diz que sem mim não há vida
E que está arrependida
E que quer comigo fazer paz

Amigo veja
Como ela é esquisita
Mesmo assim é tão bonita
Mesmo assim amo ela demais

Já amanhece
Já estamos conversados
Cochilando lado-a-lado
Prometendo nunca mais brigar

Ao que parece
Nós dois não nos suportamos
Mas também não agüentamos
Quando algum acaso vem nos separar

07 de Junho de 2010

10 de nov. de 2010

No outro canto da cidade

Ilustração: McMillan Digital Art - Fonte: http://blog.estadao.com.br/blog/index.php?blog=1&m=20091016



Oito horas. O sol em Brasília já mostrava havia muito a sua cara e os seus esplêndidos raios já iluminavam os singulares edifícios da capital do Brasil. Mas Mônica não via nada disso. Estava em uma sala fechada, refrigerada por um ar condicionado, tomando um conhaque inglês acompanhada por um amigo de seu pai.

- É um Van Gogh? – Perguntou ele olhando pro quadro na parede atrás da moça. Ela virou-se a admirá-lo pela trocentésima vez.

- Autêntico! Meu pai arrematou numa época de vacas gordas.

Por mais que Pereira tentasse esconder, Mônica percebeu em sua testa uma ruga de estranheza, mas ele parecia não querer falar sobre o caso. Mônica não era curiosa a ponto de amofinar um interlocutor qualquer que fosse.

Também não teve tempo, porque Pereira tratou logo de puxar um assunto novo. Quando não se quer falar sobre alguma coisa o silêncio é um risco, e o melhor remédio é trazer um tema qualquer para evitá-lo.

- Seu pai vai demorar muito?

- Não, creio que não. Daqui a pouco está aí.

- Meu filho gosta muito dele... E da senhora também.

- Senhora? – riu Mônica – Por favor, Pereira, não quero ser chamada assim tão cedo...

- Me desculpa, é força do hábito!

- Pereira! – disse Marcos Rios entrando no espaçoso escritório. Vinha como sempre engravatado, bem penteado, sapatos brilhando, o falar mais galante do Distrito Federal.

- Como vai o nosso ilustre Valdinho no caminho para a câmara? – perguntou sentando-se.

- É mais difícil do que eu esperava. A gente precisa muito de seu apoio.

- Valdinho precisa de garra – corrigiu Mônica – o apoio de papai ele já tem. Modéstia à parte o meu pai pode abrir muitas portas. Marcos Rios já colocou muita gente naquela câmara. Mas se não houver atividade do lado do candidato, de que adianta? Já falei isso um zilhão de vezes pro seu filho. Ele tem que ir ao povo, se mostrar, se apresentar, pro povo conhecer ele antes da corrida começar...

- Você é quem devia ser candidata... – disse Marcos.

- Papai! – atalhou Mônica - Você sabe que só entendo de política como espectadora...
- Seu pai tem razão, Mônica! Valdinho diz a mesma coisa o tempo todo.

- Estão loucos, vocês três! Não estão em seu perfeito juízo. Eu não entendo nada de política!
- Ôh – fizeram os dois senhores com ar de quem não concordava.

- A conversa se envereda a um rumo que não me agrada muito. Se precisarem de mim, estarei na faculdade.

Levantou-se, beijou o pai, cumprimentou o Pereira e saiu.

- Essa menina! – fez Rios com os olhos cheios de orgulho paterno.

- Meu filho é louco por ela.

- Até que não seria má a idéia.

Essa frase fez Pereira sentir um fluído estranho, mas agradável atravessar suas entranhas. Na verdade, a idéia de uma união entre seu filho e a filha de Marcos Rios sempre lhe habitava os sonhos. Ouvir o próprio Marcos Rios dizer que era boa a idéia era como ter de Deus a confirmação do atendimento da prece.

- Que idéia? – fez ele, para ter certeza.

- Pense – falou Marcos entusiasmado – Mônica Rios, Deputada Federal. Não, não, não: Mônica Rios, Presidente da república! A primeira mulher a governar o Brasil!

- Ah, era essa idéia... – disse Pereira com uma contrariedade que Marcos não percebeu. Tamanho era o devaneio paterno.

* * * * * * * * * *

Oito horas da manhã. Mesmo dia, mesmo sol, mesmos raios, mesma cidade. (...) (Et cetera, et cetera)


(Fernando Lago Santos – 2006) 

3 de nov. de 2010

Dois patinhos na lagoa...


Vinte e dois. Dois patinhos na lagoa. Número da legenda que elegeu o Tiririca. Número do tigre, no jogo do bicho. Número de um bocado de coisa que eu não lembro agora, e que também nem importa. O que importa, e veja que coisa terrível, é que é esse o número exato de anos que separam o dia em que vim ao mundo do dia de ontem. É, companheiros, vejam só que absurdo. Qualquer um hoje em dia pode se tornar adulto! Coisa inadmissível! Há já um ano que, oficialmente, não dependo de meus pais se quiser, por exemplo, casar. Na verdade, permitam-me confessar, nunca dependi deles pra isso. Dependo da minha noiva. O caso é que a danada resolveu se esconder muito bem escondida e disse que só aparece quando eu tomar jeito na vida. Fazer o que, né?

Enfim, são vinte e dois anos. Queria fazer um texto legal. Espremi ontem ao máximo. Mas desta laranja lagossantense não saiu palavra alguma. Assim, recorri ao arquivo e encontrei um texto recente que muito tem a ver com a data. Foi postado originalmente no blog Papo de Romeu e Julieta. Segue abaixo, com pequenas modificações que achei necessárias.




Era uma vez um menino



Um dia, me olhei no espelho e percebi que estava vivo. Coisa estranha. Desde esse dia, nunca mais consegui parar de viver... Nunca... nunca mais...
                    (Augusto Boal)

Era uma vez um príncipe encantado. Homem belo, elegante. Abastado. Andava pelas estradas montado em seu cavalo branco. Um belo alazão (seja lá o que for isso, não entendo de cavalos, a não ser de alguns poucos que já convivem comigo), educado, trotava elegantemente, obedecendo a todas as ordens reais de seu dono. Era no ano de 1988. O príncipe, desfilando garbosidade, encontrou uma princesa igualmente garbosa. Moça fina, mas chave de cadeia. Tiveram de viver várias peripécias, até casarem-se e viverem felizes para sempre.

Mas essa não é a nossa história.

Bem longe dali, aquém a toda essa elegância e garbosidade, num quarto de uma pequena casa no povoado de Pindorama, município de Porto Seguro, a senhora Hermenegilda realizava mais um parto de uma de suas netas. Era primeiro de novembro de mil novecentos e oitenta e oito. Dia de todos os santos. Há quem dirá que, naquele dia, dona Hermenegilda trazia ao mundo mais um santo. Há quem dirá o contrário.

Dona Hermenegilda tomou o bisneto choroso nos braços. Mal imaginava ela o quanto aquele choro escandaloso ia-se evoluir ao longo dos anos. Evoluir em sentimento. Em volume, diminuiria muito. Aquele menininho gordo que ali se esgoelava ia aprender a frear as manifestações dos seus sentimentos como ninguém. Dali a poucos anos, o menino seria dengoso, chorão. Usaria descaradamente o marketing infantil do choro. No entanto, passado os anos da infância, o menino choraria sempre em silêncio. Sempre pra dentro. Sempre meramente introspectivo. Já então, o bisneto de dona Hermenegilda não seria tão gordo. Aliás, seria magérrimo.

A velha parteira pôs o menino na cama, ao lado de sua neta, e o gordinho sorriu. Sorriso fácil, podia-se ver. O aconchego da mãe, o olhar carinhoso. Só poderia sorrir... Aprendeu a sorrir cedo. Nunca desaprendeu, apesar de todas as desilusões que o perseguiriam na vida. Ou seria ele próprio o perseguidor de ilusões? Há controversas.

O menino cultiva amores. Tem uma criação de afetos em seu quintal. Mas afeto é bicho de asa. Logo cresce, sai voando. Como é de seu feitio, o menino se irrita. Publica cartas, notas oficiais para a imprensa. Promete a todas as organizações competentes que nunca mais, nunca mais cultivará amores em sua horta ou criará afetos em seu quintal. Mas logo rasga tudo. Basta achar algo que pareça uma semente de amor ou um filhote de afeto que volta às suas atividades de pequeno agricultor.

Naquele momento, nenhuma dessas coisas passava pela cabeça dos familiares do menino. Talvez em tempo nenhum tenha passado. Talvez nem agora passe. O menino cresceu discreto, tímido, e a beleza não era seu forte. Combinação perigosa. Timidez e não-beleza. Mas o menino sobreviveu. Sobreviveu, embora tenha morrido tantas vezes para si mesmo. No entanto, o menino viciou em nascer. Sempre promete parar, mas não há quem lhe consiga tirar desse vício horrendo.

Naquele dia primeiro de novembro, no ano da Carta Magna da nossa Federação, nascia, num povoado pobre e anão, um não menos pobre e não menos pequeno sujeito. Fernando Lago Santos. Foi como deram de lhe chamar. Quem visse ali, aquele menino gordo nos braços da mãe, mal poderia imaginar quem ele seria no futuro. Hoje, exatos vinte e dois anos depois, a incógnita continua.

Quem seria esse sujeito impredicável? Que seria esse ser anti-social totalmente sociável? Inquietante enquete feita constantemente pelas minhas hemácias, meus leucócitos, meus anticorpos e, chefiando a pesquisa, meus neurônios, inquirindo a cada um dos átrios, ventrículos e veias do meu coração. Mas todos eles se abstêm.  


Fernando Lago - Outubro de 2010

28 de out. de 2010

Despertar


Imagem: Blog Lupevision (Luciana Vasconselos) 


Oito horas da manhã. Mesmo dia, mesmo sol, mesmos raios, mesma cidade. No entanto ali, naquele quarto de solteiro, ventilado por um pequeno ventilador, também não se permitia conhecer o lindo dia que estava lá fora a todo vapor. A cortina da janela impedia os finos raios do sol de chegar ao interior do dormitório. Na cama, entre lençóis e travesseiros, remexe-se uma criatura aparentemente humana, que se confunde com os panos.

Eduardo abriu os olhos, bocejou, coçou o saco e olhou pro relógio digital no pulso. Oito horas! Cedo demais para levantar. Nada melhor do que ficar deitado pensando na noite anterior, em que nada acontecera, como em todas as noites da sua medíocre vida.

- Droga de vida! Não acontece nada!

Queria conhecer uma garota. Conhecer só não. Conhecer, conversar, sair, namorar... Qualquer uma que fosse bela e inteligente. Ou apenas bela, desde que não fosse totalmente desmiolada. Mais pra ele mostrar aos outros, pra acompanhá-lo socialmente. Pra verem que ele não era nenhum merdinha, como diziam alguns colegas do Segundo ano da Escola JK.

Maria! Ela se chamaria Maria! Maria do que fosse: do Céu, da Terra, do Ar... Mas Maria. Sempre gostou do nome. Não por uma questão religiosa. Não ia à igreja e nunca foi fã da virtuosíssima virgem. Pouco conhecia sobre ela e seu papel na história da redenção do mundo. Mas gostava do nome.

- Eu te amo, Maria, Maria! – disse beijando o travesseiro, imaginando uma Maria com a cara da atriz principal do filme que vira no sábado passado. Súbito, vindo da cozinha, um grito habitual e insuportável o convida de volta à vida real:

- Dudu! Acorda, meu filho! São mais de oito!

Insuportável, mas mãe é mãe. Com velocidade de tartaruga, Eduardo levantou, fez suas necessidades, tomou café trocou de roupa e saiu de casa às nove e meia para ir ao curso de inglês que seu pai pagava e nem ele sabia pra que.

- Porque você tem que aprender a falar inglês! O inglês é muito necessário nos dias de hoje! – Dizia o velho.

- Por quê?

- É a futura língua universal, meu filho! – Justificava imitando a propaganda da escola que ministrava o curso. E concluía – Você tem que agradecer por isso! Nem todo jovem tem essa oportunidade.

Oportunidade! Era uma das palavras mais usadas pelos seus pais para mandá-lo fazer o que não queria. Por ele, passaria a manhã assistindo Tom e Jerry e às tardes assistindo filme. Mas infelizmente ele tinha a oportunidade de estudar no “instituto educacional que mais cresce em Brasília”, outra expressão copiada do anúncio. Seus pais viviam fazendo isso.

Saiu de casa com sua bicicleta, como sempre. O curso era no centro da cidade e começava às dez horas. E Eduardo tinha a oportunidade de ter uma bicicleta; nada mais que isso. Seu pai usava o carro, um modelo que já quase completava uma década, para se deslocar até o seu trabalho. O camelo era sua única companhia, e ele até gostava.

Um dos seus melhores amigos era o Emílio, garoto muito cabeça. Tinha quinze anos e fazia o curso de inglês junto com Eduardo na Easy Language School (ELS). Conheceram-se ali, havia alguns meses e ficaram logo amigos, porque Emílio era bom em inglês e Eduardo era uma negação. Formaram uma dupla perfeita. Os dois pólos do equilíbrio.

Naquele dia era aniversário do irmão de Emílio, que seria comemorado com um churrasquinho modesto no sítio do avô dele, na estrada para Ceilândia, porém perto. Eduardo pestanejou diante do convite. Não se dava muito em festas.

- Não é nada estapafúrdio, uma coisa familiar – disse Emílio. – Vai ser muito legal, vai ter uma bandinha de amigos nossos tocando lá. Pô, a gente precisa se divertir também, né?

- Então tá, eu vou! – concordou Eduardo finalmente. – Vai ser onde?

- Na casa do meu avô. No sítio Boa Esperança. Passa lá em casa, a gente vai...

- Não, eu sei onde é... Eu mesmo vou.

- Pedalando...

- É bom que exercita – riu. E Emílio não viu saída senão rir também.

(Fernando Lago Santos - 2006)