30 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte VI)

Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V




A coragem e o apoio dos amigos encorajaram também o poeta, que moralmente restabelecido comeu. Não há maior símbolo de restabelecimento da honra e da coragem do que voltar a comer após dias de jejum. Emanuel Rodrigues comeu, e muito bem, naquele dia.[1] Como quem comesse sua última refeição.

A marcha dos Coraças continuou, agora sob liderança direta do Poeta da Vila. Logo chegou aos jornais oposicionistas, saudada como uma Revolução tardia, mas necessária ao reino de Lagolândia. Sim, era preciso mudar. Só discordavam quanto ao caráter da mudança. Mudar para onde? Para quê? Uns queriam a república, outros a proclamação de Emanuel Rodrigues como novo rei. Outros, mais espertos, queriam a sua própria proclamação.

- Não há outro! Eu é quem devo ser rei!

- Como não? Cá estou eu, de sangue muito mais nobre, embora não reconhecido!

E assim se gastava o tempo nas marchas pelas estradas empoeiradas de Lagolândia. Não sabiam em que ia resultar essa tal revolução, mas estavam ali. Porque o primeiro ponto de pauta era derrubar o rei Ludovico III, um desastre político que nunca deveria ter subido ao trono. Depois decidia-se o resto.

Emanuel Rodrigues, apesar dos tímidos ideais republicanos que cultivava, não tinha tempo para pensar em política. Desde que tirasse Açucena das mãos do rei, tudo estaria bem. Era o que queria fazer. Queria ter sua noiva de volta. Se fosse necessário proclamar a república para isso, assim seria! Faria tudo!

Os jornais conservadores tentaram abafar a questão por algum tempo.[2] No entanto, logo tiveram que se render à popularidade da Revolução. Noticiaram a marcha dos Coraças, usando o apelido dos opositores, tendo, porém, o cuidado de deixar claro que eram um bando de baderneiros amaluquecidos por questões passionais, totalmente fora de si. Era, segundo um colunista da Folha Mercantil, “uma revolução fajuta e piegas. Seus líderes são imbecis e os seguidores, em grande parte, idiotas influenciados por uns pulhas de maior ordem, que agem por baixo dos panos no intuito de derrubar o nosso amado e divinamente escolhido[3] rei.”

Levavam sempre ambos os jornais para Ludovico III. O oposicionista e o conservador. Um desclassificava, outro dava notícias da grandeza da revolução. Ambos não estavam totalmente errados na estratégia. Os fazendeiros, políticos e comerciantes ligados ao partido conservador enraiveciam-se a cada dia mais contra aquele ato insano dos populares, com o apoio de alguns nobres. Por outro lado, os progressistas, a cada dia que passava, acreditavam que poderiam usar daquele movimento impensado para pensar uma revolução sócio-política no reino de Lagolândia. A cada cidade em que os Coraças passavam mais gente se unia à já multidão que os seguia. Já tinham um aparato revolucionário de guerrilha. Algumas armas, paus e pedras. E o ódio amoroso dos corações destruídos pela família real Lagolandesa.

Apesar da repercussão do caso, o general encarregado de dar cabo da tal Revolução dos Coraças, tão falada nos jornalecos republicanos, fez pouco caso do caso e mandou, no ocaso, assim, por acaso, pouquíssimos representantes do seu Exército para combater os senhores romanescos. Tiveram uma amarga e humilhante derrota. Todos os homens foram presos num calabouço improvisado num celeiro que encontraram na estrada – pobreza da revolução: não tinham nem onde guardar os seus prisioneiros de guerra.


A marcha da revolução impensada ia avançando. Espontânea. Quase pacífica, devido à negligência do Exército na pessoa do Marechal, que achava ridículo combater com todos os homens uma revolução de maricas.

Vergonha total quando a revolução de maricas bateu às portas da capital do reino, com cantos românticos e palavras de ordem versificadas – revolução liderada por poeta, coisa difícil de se ver. Já então tinha adquirido uma força tremenda, tendo, inclusive, um importante corpo organizativo encabeçado por alguns jornalistas politizados que viam na revolta uma possibilidade de implantar uma república socialista por meio da ditadura do proletariado, ou algo desse tipo.[4] O fato é que os revoltosos, organizados, tomaram facilmente um dos quartéis da corte, onde assassinaram – efeitos da guerra – o mais alto coronel, assumindo o controle do quartel e apontando as armas ameaçadoras para o palácio.

Ludovico III quase teve um infarto[5] quando viu a primeira torre do seu palácio ser alvejada por um tiro. Não chegou a cair, mas assustou um bocado.

Um mensageiro foi mandado ao palácio para comunicar ao rei o que se queria. A redação desta exigência foi a coisa mais demorada que se viu em matéria de revoluções, desde a época de Spartacus. Foi um dia quase inteiro discutindo o conteúdo da mensagem. Uns queriam exigir, de imediato, sanções em nome das vilas pequenas, liberação de presos políticos, essas coisas de revolução. Emanuel Rodrigues, pacato, queria apenas que fosse liberta a sua noiva. Pro inferno toda essa baboseira política. Mas não podia dizer isso. Reuniu-se com a recém formada cúpula do movimento e decidiu que iriam exigir a liberação da moça e a retirada pacífica da família real do palácio. Assim se fez.

O rei, no entanto, não se dobrou. Receberam a mensagem das mãos de um coraça jovem, parrudo e belo e devolveram um mulambo desfalecido e cheio de hematomas, trazendo um papel com a mensagem de resposta: “Não cederei!”

A resposta do movimento revolucionário foi mandar dois balaços de canhão na torre mais alta do palácio. A tréplica do rei foi três balaços no quartel, que resultou em cinco baixas para a revolução. Entre os mortos, Pedro, o jornalista amigo do Poeta da Vila. Não havia tempo para chorar. Era preciso repensar o método.

**************

Era o terceiro dia de quietude no reino. Depois de troca de exigências, ameaças de morte à agora intitulada refém Açucena, depois de balaços de canhão e mensageiros espancados de ambos os lados, tudo estava se acalmando e o clima de guerra parecia estar indo embora. Será que os tais Coraças fraquejaram?

Um agrupamento com os melhores homens do Marechal[6] foi destacado para averiguar com cuidado o silêncio dos Coraças. Bateram, sob liderança do próprio Marechal, em direção ao quartel em que se refugiavam os revoltosos. Tamanha a perplexidade ao perceberem que o quartel estava vazio. Vitória de Ludovico III. Os Coraças haviam se retirado!

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Era o dia do baile marcado pela família real, em comemoração à vitória do Reino de Lagolândia sobre os revoltosos covardes que bateram em retirada diante da superioridade do Exército de Sua Majestade.

Ludovico III não estava com cara de comemoração. Mal humorado, triste, andava a todo canto com cara de quem comeu e não gostou.[7] Dom Vladmir, conselheiro e amigo pessoal, chamou-o a um canto, estranhando o seu humor diante de uma vitória tão clara, a primeira do seu reino! Como poderia estar com aquela cara?

- Vladmir, você me conhece. É meu amigo de infância. O que te vou contar não deve ser revelado nem sob tortura.

- Claro, você tem minha palavra.

No dia anterior, confirmada a retirada do grupo revoltoso, Ludovico fora ao quarto de Açucena para ver se ela, enfim, cedia. Inventou algumas histórias para aumentar a tristeza e decepção da moça. Talvez assim ela concedesse com mais facilidade o que Ludovico tanto desejara nos últimos meses. Disse que os Coraças acovardaram-se. Que o noivo dela, como guerrilheiro, era um ótimo poeta. Que fugira ao ver o rosto de Ludovico, sozinho, indo a peito aberto ao encontro do líder da revolução passional. Estava disposto a negociar sua libertação. Se não o fizera foi por culpa do próprio poeta, que tremeu nas bases e fugiu de medo ao ver o opositor.

- Eu não acredito nisso! – disse ela, com a última força que lhe restava. E chorando, adquirindo força não se sabe de onde, agarrou o pescoço do rei e gritou num desespero profundo:

- O que você fez com ele, maldito?

Por uns instantes o rei apiedou-se. Mas foram instantes curtíssimos. Logo revoltou-se ao perceber quão grande era o amor de Açucena pelo seu noivo. Que diabo de amor era esse que não acabava mais?

- Já chega! – disse jogando a moça pro lado, na cama e se postando sobre o corpo dela – chega dessa palhaçada! A essa hora o seu poeta deve estar morto! Morto, entendeu? – E começou a despi-la bruscamente. Foi assim que aconteceu, à força. Injusto. Se Açucena tivesse alimentada e em disposição não permitiria que isso acontecesse.

Quando o rei amarrava o cordão das calças ela o fitou como nunca fitara ninguém antes. Com uma seriedade tremenda, disse:

- Eu tenho muito nojo de você!

Ludovico saiu, o semblante triste. Nunca se rebaixara a tal nível. Nunca precisara violar mulher alguma. Estava envergonhado.

Ficou vários minutos olhando seu rosto no espelho. Nojo? Então Açucena tinha nojo dele? Como é que alguém poderia ter nojo do rei? Isso podia? Não podia!

- Agora não te resta outra alternativa – disse o Dom.

- O que está dizendo?

- Você deve matá-la.

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[1] Mas atenção, excesso de honra e coragem pode causar obesidade.
[2] Ossos do ofício.
[3] Dedo de Deus, é o que diziam.
[4] Andaram lendo Marx, um alemão que escrevia umas coisas malucas por aquela época.
[5] Ou um infarte, que seja.
[6] Evitai trocadilhos.
[7] Metaforicamente, era bem isso.

24 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte V)

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Havia uma semana que o rei Ludovico III deixara Nandinávia. Quando ele chegou, cheio de pompa, coisa de rei, ninguém imaginava que iria ficar tanto tempo. Quando ele saiu, com a mesma pompa, todo mundo já conhecia o motivo de ele ter ficado tanto tempo na pobre vila. Sempre tinham ouvido falar na destreza do príncipe para conseguir as mulheres que quisesse. Agora poderiam orgulhar-se de terem vivido isso de verdade. E mais. De terem conseguido vencê-lo. Nandinávia era uma vila pequena. Todo mundo podia se dizer co-participante da trajetória do rei para conquistar a noiva do Poeta da Vila. Coisa para entrar nos anais da história.

Mulheres mais moças e tão bonitas quanto Açucena iam ao gabinete improvisado do rei para oferecer-lhes seus serviços.

- Sim, majestade! Tenho certeza que serei uma concubina muito melhor que Açucena! Me leva pra corte.

Mas Ludovico era focado. Chegou a se balançar pela irmã de Açucena, Milena. Mais jovem, virgem, beleza fresca de adolescência, parecida com a irmã. Tão nova e já tão sedutora! Mas perdeu todo o interesse quando percebeu que Milena estava fazendo aquilo para tirar os olhos do monarca da noiva do poeta. Isso era o que mais irritava o rei. Que diabo de amor é esse, que todo mundo apóia!?

Mas agora tudo estava bem. O rei voltara a reinar novamente. Isto é papel de rei. Deixem-se as paixões aos poetas, que tão pouco na vida têm!

Emanuel Rodrigues e Açucena jantavam felizes no restaurante do francês Michel[1] fazendo planos para casarem-se dali a três ou quatro meses.[2] Quadro magnífico! Se houvesse outro poeta da vila que não fosse ele ou outra poetisa que não fosse ela, com certeza escreveriam várias poesias, vendo aquele casal assim tão belo.

Lá fora, alguma coisa fazia as pessoas se movimentarem na rua. Uma pessoa entrou e o burburinho invadiu também o interior do restaurante.

- O que será que está acontecendo?

- Não sei. Mas deve haver alguma coisa.

- Estou com um mau pressentimento...

Terminaram e caminharam calmamente em direção à porta. Ali, perceberam dois soldados que pareciam esperar por alguém que estava dentro do restaurante. Mas as pessoas iam passando normalmente, apesar da estranheza com relação aos milicos. Devia ser esse o motivo do burburinho. Quando o casal de poetas ia passando, um dos soldados se pôs à frente.

- Mas que raios é isso?

Dois outros soldados aproximaram-se. Só então o poeta e a poetisa da vila perceberam que a rua estava tomada por soldados[3] aparentemente em operação importante.

- Senhor Emanuel Rodrigues, o senhor acaba de ser convocado para a missão Fronteira Norte. Informação confidencial. Iremos tratar dos detalhes no quartel mais próximo, na Terra de Sapucaia!

- Me prendam como desertor. Ou atirem em mim, porque eu não vou!

E continuo seu caminho, sem a menor cerimônia.[4] Ao virarem a rua, sussurrou à moça:

- Amanhã estaremos longe.

Não houve, porém, amanhã para o casal. Na casa de Açucena, dois soldados da guarda da corte esperavam-na para levá-la. Ordens de sua majestade.

**************

Cinco dias preso no calabouço do quartel da Terra de Sapucaia. Cinco dias sem comer. Cinco dias chorando a desgraça de não poder quebrar todas as paredes daquele lugar e correr a resgatar a sua noiva dos braços daquele cafajeste real. Cinco dias apanhando dos soldados mais truculentos, quando queriam obrigá-lo a fazer qualquer coisa que ele achava humilhante. Beijar o retrato de sua majestade, por exemplo.

Uma das piores torturas que sofria era quando entrava o major Flores[5]. Homem não muito encorpado, mas sua cara expunha respeito. Sua voz era seca, suave... Não era irritante nem intimidava. Mas dizia coisas terríveis.

- A essa hora o rei deve estar indo para o banho. Hora em que a rainha mãe está recolhida na leitura de folhetins e rainha esposa no seu passeio pelo jardim do palácio. Você não acha que é uma boa hora para uma concubina entrar em ação?

Ou:

- Olha, lá no palácio tem um quarto bem fechado, quase não se ouve nada de que se diz lá dentro, mesmo que seja aos berros. Aposto que é lá que sua majestade vai fazer bom proveito da mais bela flor nandinavense.

Como das primeiras vezes o poeta reagiu com socos e cabeçadas, chegando a tirar sangue do major, o oficial passou a usar a tática de manter o rapaz sentado na cadeira e segurado por dois fortes soldados de infantaria[6].  Isso, porém, não impediu o major de levar umas duas ou três cusparadas na cara.

No palácio, num quarto cuja porta era protegida por dois soldados, Açucena não fazia nada além de chorar. À rainha Vitória, sua esposa, Ludovico tinha dito que era uma criada xucra do sul, convinha não mexer com ela, era do tipo de gente que não aceitava muito a sua condição servil. A rainha mãe, porém, conhecia o filho, sabia perfeitamente que ele era capaz de tudo para sujeitar uma mulher aos seus caprichos. E ouvira rumores sobre o caso da vila. Tentou aconselhá-lo, investida de sua autoridade de mãe. Mas Ludovico III insistiu na tese de que era uma criada negando tudo o mais que se dizia sob suspeita na corte. A rainha fez cara de desgosto e advertiu:

- Um dia você vai se arrepender da maneira com que trata as mulheres.[7] Tome cuidado. As coisas ruins um dia podem se voltar contra a gente...

Dizem que palavra de mãe é sempre profética. Ludovico III, porém, não era dado a religiosidades, salvo quando era obrigado pelos conselheiros, em nome das relações institucionais entre Estado e Igreja. Conformidades cabidas a um rei.

**************

Decrépito. O poeta da vila já não aguentava escrever. Algum soldado piedoso deixou tinteiro, pena e papel na alcova. Piedoso? Nem tanto. Fora o próprio major Flores que deixara o material ali. Contava que o poeta escrevesse seu próprio epitáfio, ou uma carta de despedida que fosse, como é próprio de poetas. A intenção era fazer dele um herói de guerra, produzido. Sádicos, sabiam que o frágil rapaz da vila não iria resistir muito. Era possível forjar um ato heróico qualquer, para manter a pose do Exercito. O poeta/ jornalista que morreu triste, servindo o seu reino. Um herói produzido pelos seus próprios assassinos.

Emanuel Rodrigues não resistiu. Pegou da pena e começou a rabiscar... mas não conseguiu escrever. Como iria escrever? Não dava para escrever sem Açucena... Começou a rasgar todos os papéis com fúria jamais vista em um poeta[8] proferindo palavrões impublicáveis, alguns inexistentes.

- Onde está a placidez do Poeta da Vila? – Uma voz rouca entrou pelo minúsculo buraco da sela. Emanuel voltou-se.

- Vá embora! Deixe-me morrer em paz, ao menos!

- Está tão louco que não me reconhece mais?

Emanuel levantou num ímpeto. Olhou por entre as barras de ferro e reconheceu o rosto de Pedro, o amigo da Gazeta.

- Mas como conseguiu entrar aqui?

- O Exército de sua Majestade não é páreo para o poder investigativo de um jornalista.

Foi em que se aplicou o jornalista durante as duas semanas que correram entre a prisão do casal poeta e aquele dia. Pedro localizou todas as famílias destruídas pelo príncipe. Todos os noivos desamparados, todas as filhas “roubadas” ainda na adolescência, todos os pais marcados pela honrosa desonra de ter sua filha feita concubina do príncipe. Ao ver que, mesmo juntando toda essa gente – e era muita – não daria um movimento maciço contra o Exército Real, usou do dom da palavra herdado de seu pai, seu avô, e seu bisavô[9] para convencer as pessoas a se juntarem num movimento de massa como nunca se tinha visto em Lagolândia.

Por alguns dias a multidão marchou silenciosa em direção à Terra de Sapucaia. A primeira tarefa era tirar o poeta da prisão. Um colunista de oposição deu logo o apelido para os que seguiam o jornalista da Gazeta: os Coraças. Era a revolução dos que acreditavam no amor, no poder do coração.[10]

Tomaram o quartel da Terra de Sapucaia facilmente. Ninguém dava nada por um poetinha qualquer, provinciano e sob devastador efeito da inanição. O quartel estava mal vigiado. Foi fácil para os amorosamente enraivados militantes. Primeiro triunfo da Revolução dos Coraças.

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[1] Sempre franceses!
[2] As coisas andavam rápidas e nem estavam de barriga!
[3] Uns oito ou dez milicos.
[4] Cerimônia não é bem o forte dos poetas, dizem.
[5] Flores e não Fleury, favor não confundir.
[6] Mau uso do dinheiro público. Pagando soldados para tal fim! Lagolândia não era perfeita como o Brasil é.
[7] Dizem que era meio feminista, não se sabe.
[8] Nem nos byronianos.
[9] Frutos do caloroso clima de Nandinávia.
[10] Apesar de tudo, ainda existe gente assim.

23 de dez de 2010

Abre Parêntesis*




23 de Outubro de 2008

12 de Maio de 2009

13 de Dezembro de 2010

__ de ________ de 2011


Ciclo.
Inquebrável?



* Golpe de Estado dos Fantasmas do Lago.

16 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte IV)

Parte I - - - Parte II - - - Parte II


- Majestade, está aí o mensageiro da corte.

- O que querem?

- Vou mandá-lo entrar.

O mensageiro entra e, após reverenciar ao seu rei, passa, sem mais cerimônias[1], a revelar o conteúdo da mensagem.

- Majestade, todos concordam em unanimidade que o rei já ficou muito tempo fora da corte. E, ainda muito mais do que devia neste vilarejo insignificante.

Ludovico deu um fortíssimo tabefe na mesa.

- Quem? Quem? Quem é que está dizendo isso? Quem pensam que são? Eu sou o rei! EU SOU REI!!!

Notícias não muito confiáveis vindas de não muito confiáveis informantes que ouviram de não muito confiáveis circunstantes dão conta de certa quantidade de espuma na boca de sua majestade.[2]

- Majestade. Todo o corpo de conselheiros, os deputados aliados, os senadores. Vossa mãe! Todos apelam que vossa majestade volte imediatamente ao reino.

- Diga à mamãe que entenda. Estou num desafio muito importante nesta terra e que não posso abandonar. Diga isto à minha mãe. Os outros não me importam.

O único conselheiro que o acompanhava resolveu intervir.

- Majestade, com todo respeito, vossa mãe é a única que não poderia ifluenciar politicamente no Partido Conservador.

- Pois é isto. Os senadores e deputados, majestade. Eles proferem ameaças constantes – disse o mensageiro.
- Que se dane o Partido Conservador!

- Mensageiro – disse o conselheiro. A cordialidade usual, conhecido por respeitar as menores classes. – Dê-nos licença um minuto.

E enfiaram-se o rei, o marquês e o conselheiro, no gabinete fechado da casa. Meia hora depois voltavam. O rei já tinha uma mensagem para mandar de volta à mãe e aos aliados políticos.

- Diga a todos que volto em três dias.

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- Temos que fugir!

- O que? O que você está dizendo, meu amor?

- Temos que sair de Nandinávia imediatamente! Eu não quero te perder!

- Fica calma...

- Ele apareceu lá em casa ontem. Minha mãe contou. Ofereceu dinheiro pra ela facilitar as coisas. E tentou convencê-la de que ser concubina era o contrário de desonra.

- Maldito! Maldito! Vou ter que tirar satisfações com este cafre!

- Não! É perigoso!

- Pior perigo é te perder para aquele pulha!

- Amor, se te virem falando assim terão motivos pra te prender! Vamos fugir de Nandinávia enquanto é tempo!

- Eu não vou fugir de um rei covarde!

Batidas desesperadas na porta. O poeta toma a sua espada[3] e, com cuidado, vai verificar quem é, mas acalma-se ao ver que era Pedro, um amigo da Gazeta. Abre a porta e o jovem entra eufórico.

- Boas notícias, companheiros apaixonados! O rei se vai amanhã bem cedo!

Abraços e sorrisos gratuitos na pequena casa de Emanuel Rodrigues, o Poeta da Vila.

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[1] A cerimônia nesta hora era justamente não ter cerimônias.
[2] Dá pra confiar em mais ninguém hoje em dia
[3] Olha o que estava faltando pra deixar a história emocionante!

10 de dez de 2010

A Revolução dos Coraças (parte III)




- Olá!

- O senhor me desculpa – disse Açucena sem se virar – mas estou um tantinho ocupada agora.

- E não tem nenhum minuto sequer?

- Desculpa, senhor – e voltou-se ao interlocutor – eu realmente... Oh! Majestade! Perdão!

E abaixou-se em reverência.

- Tudo bem, pode se levantar.

- A que devo tal honra?

- Vinha passando e achei digno de um rei tentar descobrir de que fonte provinha esse aroma maravilhoso!

- Ora, majestade, assim me deixa encabulada!

- Como é seu nome? Bela desse jeito, só pode ter nome de flor.

- Açucena.

- Não disse?

- Nunca tinham me dito que vossa majestade era tão gentil.

- Dizem muitas coisas de mim que não são verdade.

- Acontece. Vossa majestade me perdoe, eu não gostaria de ser impetulante, mas eu tenho que terminar meus afazeres. Isto é, se vossa majestade me dá licença.

- O mínimo que eu poderia fazer, por teres me dado licença de contemplar por infindáveis minutos a sua beleza e ouvir sua doce voz.

- Com sua licença.

E desapareceu casa adentro. O rei montou em seu cavalo e seguiu caminho. Tinha lançado a primeira semente. Agora iria à Gazeta, ver o tal poeta.

Emanuel Rodrigues preparava-se para fechar a porta da gráfica quando sentiu uma mão no ombro. Voltou-se e não pôde ocultar a surpresa:

- Majestade! – Reverenciou-o.

- Pode se levantar. Tem tempo para um chá?

- Sim, mas, perdoe-me a pergunta, a que devo a honra de tomar um chá com vossa majestade?

- Já explico.

- Tudo bem, vamos.

Emanuel caminhava desconfiado. Reis eram reis. Não andavam de papo com jovens rapazes da plebe assim, sem mais nem menos. Quanto mais sendo um jornalista. Quanto mais sendo de uma Gazeta oposicionista – mas isso o rei não sabia. Quanto mais morando numa vilinha furreca e oculta como aquela! Alguma coisa sua majestade queria...



**************

- Mas qual o interesse em me ter na província do Norte[1]? – fez o Poeta sem entender nada da proposta do rei.

- Você não entende, homem? O exército está com ações planejadas na fronteira com a Espanha. Precisamos de um bom cronista para registrar tudo. Memórias da guerra. Você entende como são essas coisas...

- Sim, mas por que eu? Tanta gente boa na corte! Ou na própria província do Norte!

- Assim vou pensar que é desfeita.

- Vossa majestade tem que entender. Não dá pra sair daqui agora!

- Ora bolas, por que não?

- A menos que...

As reticências mais reticenciosas que já se viu.

- Fala, fala! – disse o rei com uma pontinha de esperança

- Só vou daqui a um mês. E levo minha mulher. Adianto o casamento e levo ela.

- Está louco? Vai levar uma mulher pra guerra?

- Não necessariamente. Mas quero ela perto de mim!

- Não, nem pensar! A moça fica.

- Então vossa majestade pode procurar outro jornalista! De preferência da própria província do Norte, pra manter o orgulho da terra.

Dizendo isso, levantou-se sem dar tempo a reações por parte do rei.

- Agora preciso ir! Adeus, majestade! E saiu caminhando calmamente.

Perplexo, o rei admirava a insolência do rapaz. Ao mesmo tempo em que prometia a si mesmo irritado:

- Vai ser minha! Vai ser minha! Agora é que quero mesmo! Vai ser toda minha!

Quando Açucena contou ao noivo poeta a visita do Rei e seus galanteios[2], Emanuel entendeu tudo. Sua noiva tinha sido sorteada pelos olhos do rei-moço como objeto de desejos.

- Estamos desgraçados! – disse Açucena chorando e abraçando o noivo. Naquele dia não tiveram a mínima vontade de fazer poesia.


[1] Já dei uma pista de onde fica Nandolândia: ao sul da Espanha
[2] Num casal de poetas, segredo fica guardado só pra poesia. De resto, tudo é compartilhado

Novembro de 2010