22 de out de 2011

Lila



Sentiu o vento gelado no rosto. Estava tarde, já começava a escurecer e o menino devia estar preocupado. Mexeu as pernas e jogou o corpo pro lado, cortando o vento na curva em direção ao centro da cidadezinha, onde ficava o prédio velho em que se viam. Manobrou para chegar por trás. Sempre fazia isso e não sabia por que. Não era gaiatice, vontade de assustar o menino, nada disso. Na sua cabeça, parecia que o menino gostava mais quando ela chegava assim, de mansinho, e sentava-se do seu lado sem alarde. Mas não sabia explicar por que se sentia assim.

Pousou de mau jeito. O vento atrapalhou a aterrissagem e ela se esbarrou num varal antigo com uns trapos velhos pendurados ali provavelmente há anos.

- Odeio o inverno!

Estava frio. De longe, viu o menino sentado no cantinho onde costumavam conversar sobre tudo e sobre nada. Ou apenas ficar calados, às vezes. Estava encolhido, olhando para algum lugar indefinido, provavelmente dentro de si mesmo.

A menina pegou um pequeno impulso e, sem levantar voo, chegou rapidamente perto dele e sentou-se ao seu lado silenciosamente, como sempre fazia.

- Pensei que não viesse hoje...

- Pensei que não me esperaria tanto...

Ela percebeu que ele tremia um pouco.

- Está com frio?

- Um pouco.

- Pra que veio pra cá sem agasalho, seu louco?

- Estava calor quando saí de casa.

- É verdade... me atrasei.

- Mas está aqui. Sempre está. Por isso vale a pena te esperar...

- Toma, pega meu casaco.

- Mas, e você?

- Estou acostumada com o vento. É meu amigo, não me fará mal.

- Obrigado.

Ele pôs o casaco dela, como estava quentinho! Como queria aquela quentura ao seu lado. Sempre. Por que, por que ela não se instalava em sua casa, como ele sugeriu tantas vezes? Tinha certeza que se conversasse com a mãe ela não faria objeção. Sempre foi tão solidária!

- Você estava tão pensativo quando eu cheguei – disse a menina.

- Nós, seres humanos somos assim...

- Assim como?

- Pensamos, pensamos, pensamos... E às vezes só fazemos isso. Poucos de nós têm coragem pra ultrapassar a barreira do pensamento e realizar coisas, porque... Você não entenderia.

- Por quê? Fala como se eu não fosse humana também.

- Seres humanos não voam, Lila!

- Como é que você sabe?

- Eu é que não vou tentar!

Ela ficou olhando o rosto debochado do menino. Estava séria. Como ele pode ser tão infantil?

- Pareço um monstro?

- Não, Lila, você é linda!

- Então o que tem em mim que me descaracteriza como ser humano, Ricardo?

- Já disse, você voa! Eu nunca vi nenhum ser humano voar!

- Quais são as características de um ser humano?

- Bom, eles não voam...

- Então, se eu parar de voar, viro um ser humano?

Não, porque a qualquer momento você pode se sentir tentada a sair voando de novo. Porque você pode, Lila. Aí que está a questão! Você pode.

- Então o que eu sou?

- Você é a criatura mais doce que eu conheço!

Ela ficou calada, riscando o piso da cobertura com o dedo indicador. A cidade lá embaixo começava a silenciar-se, cá em cima a escuridão já dificultava um pouco a visão. O menino acendeu uma lanterna, iluminou os olhos dela brincando e percebeu que ela estava chateada.

- Pode ficar em pé um pouquinho, Lila?

- Por quê?

- Pode ou não pode?

A menina levantou-se, sacodindo a poeira do vestido. Ricardo sentou-se à sua frente, ligou a luz da lanterna e ficou olhando deslumbrado. Pediu que ela virasse, ela obedeceu. Ele sorria, virava a cabeça para um lado, para o outro... Ela sem entender.

- Pode se sentar, se quiser – disse enfim.

- Que bestagem foi essa?

- Você é perfeita!

- Pare com isso, Ricardo! Me explica direitinho o que quer?

- Eu retiro o que disse.

- De que eu sou perfeita?

- De que não é humana. Você tem todas as características de um ser humano...

- Mas eu posso voar.

- E quem garante que o problema é com você?

- Que quer dizer?

- Se os outros não podem voar, talvez seja porque não aprenderam.

Ela sorriu, enquanto ele continuava:

- Talvez você seja mais humana do que pensa, mais humana do que nós...

- Você não tem jeito, Ricardo!

E meio sem querer, mas querendo muito, a menina encostou seu rosto ao dele, depois os lábios e tão rápido quanto se atraíram, repeliram-se, como quem encosta a mão num eletrodoméstico que dá choque.

Atônito, ele levantou-se rápido e saiu correndo desesperadamente em direção à borda do prédio e, sem que Lila pudesse fazer nada para evitar, saltou fora do prédio, com os braços abertos. 

Fernando Lago - Setembro de 2011

3 de out de 2011

Perdido



Eu pedalei, pedalei muito. E o que haveria de fazer em uma bicicleta além de pedalar? Pedalei e fui longe, muito longe. Ganas de fugir do mundo, de andar por lugares exóticos dessa cidade. Como não tinha, lugares desconhecidos me satisfaziam. Aquele, além de desconhecido, isolado.

De repente me senti perdido. Eu, um jovem tão conhecido e conhecedor, perdido na própria cidade! Procurei um letreiro, uma placa, qualquer coisa que me indicasse a localização, o ponto geográfico em que me encontrava naquele instante. Nada! Nem ninguém! Perdido e sozinho.

Uma pessoa vinha andando tranquilamente pelas ruas vazias, aspecto de cidade abandonada. Graças a Deus, eu encontrei ajuda! Ajuda? Por que não? Pela tez do sujeito não parecia nenhum psicopata, nem muito menos dava a aparência de estar perdido como eu... Devia conhecer bem o lugar, pela tranquilidade com que caminhava. Pálido, cara de americano. Ou europeu, sei lá, que das caras de caras como aquele cara eu não entendo, caramba! Só sei que devia ser estrangeiro. Ou filhote de um.

Xenofobia à parte, resolvi inquirir o sujeito de uma vez:

- Com licença, o senhor pode me ajudar?

O homem, que vinha caminhando com cara de paisagem, parou um pouco, com cara de cubismo, esticando as sobrancelhas como quem dissesse: “comequeé m’ermão?”

- O senhor sabe o nome dessa rua? Desse bairro?

­- What? I cannot understand you! ­

- Pronto!

Pronto! Mais essa agora! O sujeito não parecia um gringo; era um gringo. E, pior, um gringo que não falava português! Excelente hora pra eu testar o inglês da escolinha maia boca em que eu estudava, não?

- Excuse me, could you tell me where we are?

- What?

- This place, the name, localization…

- Of course, it’s New Jersey!

Nova Jersey! Quer dizer que tem um bairro com esse nome na cidade e eu nem sabia?

- I got to go to Vila Caraípe, or Caraípe Ville, do you know how I can do it?

- Sorry, I don’t…

- Caramba!

- Is this place here? I’ve never heard about it! And I live here since many years ago!

- Where you from?

- A city near to here…

- E por que você só fala inglês, porra?

- What? I don’t speak Spanish, please! Where are you from?

- It’s not Spanish, is Portuguese! And I’m from here, Brasil!

- Brazil! Are you crazy?

- Why?

- We’re in USA.

Morri de rir. O estranja devia ter amaluquecido de vez.

- You are crazy! This is Brasil!

Agora o cara que riu gostosamente, como se eu tivesse contado uma piada daquelas bem sujas que os homens gostamos. Me irritei.

- Quer dizer então que eu montei numa bicicleta, pedalei, pedalei, pedalei e vim parar nos EUA???

- What??? – disse o gringo mal contendo a risada – please, speak eglish, man!

- I just was in home, boring a lot. Tooke my bike and start cycling, with no road…

- And I was just walking in my favorite place, decided to make a detour and… Well, don’t care! We are in USA!

- Brasil!

- USA!!

- Brasil!!!

No meio da discussão, surge do nada um sujeito tranquilo, caminhando pelo outro lado da rua, usando um grande chapéu para tapar os raios quase inexistentes do sol. Creio que eu e o gringo tivemos a mesma ideia, porque ambos corremos desesperadamente em direção ao transeunte, assustando o coitado, com as perguntas feitas quase neuroticamente.

- Estamos no Brasil? – Perguntei

- We’re in USA? – perguntou o yankee

 - No señor – disse o sujeito – nosotros estamos en Mexico!


Fernando Lago – 2005. Revisado em 2011.