22 de set de 2011

Quer dançar?

Casal Dançando, Anita Malfatti, 1910-1920, acervo IEB-USP (do blog Borboleta Pequenina


Me pegou de surpresa aquela menina de riso aberto e pele amorenada. O convite vindo junto do sorriso parecia mais uma provocação, um desafio, mais um “duvido que resista” do que um convite.

Não estava acostumado com aquilo. Interiorano. Pobre de leituras, de vivências, criado em quintais. Cheio de valores familiares. Habituado a ser o convidador. Expert em tentar dobrar a timidez das meninas do interior. Mesmo assim, meus convites eram sempre simplórios, sem muita insistência e quando eu dizia “quer dançar” e elas diziam “sim”, tudo era apenas dança.

Aquela menina não me convidou para dançar. Convidou para sambar num chão de brasas. Para um frevo fervoroso em larva ardente. Chamou-me a um tango numa fogueira de são João. Ela ousou, num sorriso, tudo o que eu não tinha ousado a minha vida toda. Antes que eu respondesse, sua mão já me obrigava a levantar. Não por puxões agressivos, mas por uma leveza de toque entre o meu braço e o dela.

Tomei de um só trago o restante da bebida, pousando no balcão o copo vazio. E deixei-me guiar pela sua cintura, cingida pelas minhas mãos provincianas.

Aquela mulher não dançava. Fazia poesia com os quadris. Cada movimento no ritmo da banda era um verso, que rimava com minhas mãos. E quando seu corpo perfeito juntou-se às imperfeições do meu, viramos uma poesia completa, versos alexandrinos.

Encostou os lábios nos meus ouvidos e disse baixinho:

- Não tenha medo de mim.

- Eu não estou com medo, minha linda.

- Então me aperta mais forte, mais forte...

Tão fácil ser obediente a este tipo de ditadura, tão doce. Bailei com ela. Parecíamos um. Por um instante achei que todos olhavam pra nós. Terna ilusão. Cada casal naquele salão pertencia ao seu próprio mundo. Mas o meu era o melhor de todos.

Pulando as previsíveis etapas da paradinha pro descanso, das falas ao pé do ouvido regadas a vinho na mesa, das mãos passeando no corpo, da coreografia das línguas, fomos parar num minúsculo apartamento, submundo dos meus planos secretos. Não me envergonhei. Ela era estudante, como eu, devia ter um igual.


Enquanto acariciava o seu corpo, uma Vênus da capital, perguntei meio que sem pensar.

- Nos veremos de novo?

Ela libertou-se dos meus braços, com um pouco de dificuldade, pegou um papel que tinha no criado-mudo e escreveu um número de telefone. Fiz o mesmo, entregando a ela o número de três celulares que eu tinha. Depois, se jogou em mim de novo, convidando para uma contradança.

Me senti meio bobo em não esperar mais. No fim de semana seguinte, telefonei pro número que ela me dera, a fim de, pelo menos, ouvir aquela voz que embalara os meus sonhos.

- Não tem ninguém com esse nome aqui, desculpa.

- Tem certeza?

- Claro, conheço todos os funcionários daqui.

Por que raios ela me dera o número de uma loja de cosméticos até hoje não sei. Mas sei por que lhe dei os meus três números, todos corretos. E até hoje, quando um deles toca em horário nobre, espero ouvi-la dizer... “Quer dançar?”

Fernando Lago – 22 de Setembro de 2011

Um comentário:

Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?