28 de out de 2010

Despertar


Imagem: Blog Lupevision (Luciana Vasconselos) 


Oito horas da manhã. Mesmo dia, mesmo sol, mesmos raios, mesma cidade. No entanto ali, naquele quarto de solteiro, ventilado por um pequeno ventilador, também não se permitia conhecer o lindo dia que estava lá fora a todo vapor. A cortina da janela impedia os finos raios do sol de chegar ao interior do dormitório. Na cama, entre lençóis e travesseiros, remexe-se uma criatura aparentemente humana, que se confunde com os panos.

Eduardo abriu os olhos, bocejou, coçou o saco e olhou pro relógio digital no pulso. Oito horas! Cedo demais para levantar. Nada melhor do que ficar deitado pensando na noite anterior, em que nada acontecera, como em todas as noites da sua medíocre vida.

- Droga de vida! Não acontece nada!

Queria conhecer uma garota. Conhecer só não. Conhecer, conversar, sair, namorar... Qualquer uma que fosse bela e inteligente. Ou apenas bela, desde que não fosse totalmente desmiolada. Mais pra ele mostrar aos outros, pra acompanhá-lo socialmente. Pra verem que ele não era nenhum merdinha, como diziam alguns colegas do Segundo ano da Escola JK.

Maria! Ela se chamaria Maria! Maria do que fosse: do Céu, da Terra, do Ar... Mas Maria. Sempre gostou do nome. Não por uma questão religiosa. Não ia à igreja e nunca foi fã da virtuosíssima virgem. Pouco conhecia sobre ela e seu papel na história da redenção do mundo. Mas gostava do nome.

- Eu te amo, Maria, Maria! – disse beijando o travesseiro, imaginando uma Maria com a cara da atriz principal do filme que vira no sábado passado. Súbito, vindo da cozinha, um grito habitual e insuportável o convida de volta à vida real:

- Dudu! Acorda, meu filho! São mais de oito!

Insuportável, mas mãe é mãe. Com velocidade de tartaruga, Eduardo levantou, fez suas necessidades, tomou café trocou de roupa e saiu de casa às nove e meia para ir ao curso de inglês que seu pai pagava e nem ele sabia pra que.

- Porque você tem que aprender a falar inglês! O inglês é muito necessário nos dias de hoje! – Dizia o velho.

- Por quê?

- É a futura língua universal, meu filho! – Justificava imitando a propaganda da escola que ministrava o curso. E concluía – Você tem que agradecer por isso! Nem todo jovem tem essa oportunidade.

Oportunidade! Era uma das palavras mais usadas pelos seus pais para mandá-lo fazer o que não queria. Por ele, passaria a manhã assistindo Tom e Jerry e às tardes assistindo filme. Mas infelizmente ele tinha a oportunidade de estudar no “instituto educacional que mais cresce em Brasília”, outra expressão copiada do anúncio. Seus pais viviam fazendo isso.

Saiu de casa com sua bicicleta, como sempre. O curso era no centro da cidade e começava às dez horas. E Eduardo tinha a oportunidade de ter uma bicicleta; nada mais que isso. Seu pai usava o carro, um modelo que já quase completava uma década, para se deslocar até o seu trabalho. O camelo era sua única companhia, e ele até gostava.

Um dos seus melhores amigos era o Emílio, garoto muito cabeça. Tinha quinze anos e fazia o curso de inglês junto com Eduardo na Easy Language School (ELS). Conheceram-se ali, havia alguns meses e ficaram logo amigos, porque Emílio era bom em inglês e Eduardo era uma negação. Formaram uma dupla perfeita. Os dois pólos do equilíbrio.

Naquele dia era aniversário do irmão de Emílio, que seria comemorado com um churrasquinho modesto no sítio do avô dele, na estrada para Ceilândia, porém perto. Eduardo pestanejou diante do convite. Não se dava muito em festas.

- Não é nada estapafúrdio, uma coisa familiar – disse Emílio. – Vai ser muito legal, vai ter uma bandinha de amigos nossos tocando lá. Pô, a gente precisa se divertir também, né?

- Então tá, eu vou! – concordou Eduardo finalmente. – Vai ser onde?

- Na casa do meu avô. No sítio Boa Esperança. Passa lá em casa, a gente vai...

- Não, eu sei onde é... Eu mesmo vou.

- Pedalando...

- É bom que exercita – riu. E Emílio não viu saída senão rir também.

(Fernando Lago Santos - 2006)

15 de out de 2010

Da discreta arte de ser indescritível*

Caríssima, 

Nem sei como começar sem parecer estar te imitando...


Pensei que nessa vida gente assim era coisa rara. Coisa de uma ocorrência em cada país, talvez em cada planeta. Isso é um pouco do meu ego negativo, de achar que nessa vida ninguém é tão tímido, calado e metido em si como eu... Sua mensagem mudou um pouco essa minha visão, porque vi que você tem muito de parecido comigo... 

Sou tímido, e também sou constantemente tachado de sonso. Pra falar a verdade ainda não aprendi a diferenciar uma coisa de outra; talvez porque não saiba exatamente o que é uma coisa e o que é outra. Me entendes? Acho que não... Falo muitas asneiras constantemente e provavelmente inintendíveis a criaturas de cabeça lúcida. Acho que pra entender uma cabeça como a minha só sendo louco. Ou psiquiatra, o que – dizem por aí – não é muito diferente.

Pois é, você pediu que eu me descrevesse e acho que minhas palavras me denunciam: sou indescritível. Há alguns aventureiros que se arriscam. Uns dizem que sou inteligente, outros que sou lesado, outros que sou inteligente, mas lesado. As opiniões divergem-se, inclusive a minha. Acho que sou uma dessas criaturas que há no mundo, tipo um ornitorrinco. Já viu um? É um mamífero, acho. Um mamífero que tem bico! E uma das criaturas mais estranhas que já vi...

Começo a falar besteira. Acho melhor parar por aqui, se não você vai achar que eu sou maluco mesmo... Que eu fugi de uma clínica de recuperação, como o cara da novela das oito que começa mais de nove (não assisto, mas repercutiu muito). Ou sei lá! Definitivamente chega! Acho que já deu pra você sacar que eu não sou normal! 

Abraços,           

Fernando Lago – Aprox. Junho/julho de 2009

*Extraído e adaptado de uma série de correspondências com uma amiga.

12 de out de 2010

Quando teus olhos fecham



Quando teus olhos fecham
Imagino que imaginas
Algo inimaginável

Quando teus lábios se abrem
Eu sorrio e tu ris
De um sorrir inigualável

És toda extrema
Em tua beleza
E magnífica
Graça salvívica
Flor de açucena
És realeza

És doce e eterna
Em teus carinhos
E infinita
És tão bonita
Guia-me, terna
Por meus caminhos

Fernando Lago – 08 de Junho de 2007

3 de out de 2010

Avulsus - Eduardo e Mônica




Advertência


Eduardo e Mônica são dois personagens da música de Renato Russo. O seguinte texto foi escrito há alguns anos e usa estes nomes e características dos personagens para compor a estória, sem interesse de plágio ou alienação de direitos autorais. Caso a composição da narrativa fira ou transcenda os limites da reprodução da propriedade intelectual de algum membro da família do artista, herdeiro do seus direitos, favor comunicar-me que retirarei a estória ou modificarei os nomes.


Grato,
O autor




(...) O olhar da moça agora era quase que exclusivamente dedicado ao playboy. O cara parecia entender mesmo de bebida. Naquele momento, qualquer um que entendesse um pouco de bebida entenderia mais que o Eduardo. Ele sabia que tinha que retomar a conversa com a garota, mas como? Tudo que o cara falava estava muito além da sua compreensão. Só Mônica entendia. Os dois dialogavam e Eduardo estava a escanteio. Ponta esquerda! Como na época em que jogava bola num timeco da quadra cem. Sempre era o ponta esquerda! Não sabia o que tinha de errado na posição para todos os mais entendidos zombarem da cara dele. Mas convenceu-se ali que tudo o que era esquerda era ruim. E agora, nesse time, nessa disputa ele era também o ponta esquerda.

Mas Eduardo não queria ficar pra trás. Como não podia falar nada acompanhava os dois nas bebidas. “Bebida de rico, pensou, não deve ser muito forte. Eu agüento.” E foi entornando junto com os dois pinguços de luxo. Nunca tinha visto uma mulher beber tanto e não embargar a voz. Ele já se sentia tonto.

Mônica ria sinceramente e olhava pro Eduardo como que pra compartilhar com ele as risadas. Mas Eduardo ria sem gosto. Estava doido para ir embora. Por dentro tinha vontade de esganar aquele metido a besta. O cara o olhava com um jeito desafiador.  Mônica não percebeu aquele confronto de córneas e continuava a rir gostosamente das piadas do Playboy. Eduardo tentava, mas não conseguia ver graça alguma.

Outra bebida! E Eduardo e Mônica levantavam o copo para aceitar a sugestão. E a conversa rolava. E Eduardo amargava. Olhou no relógio: Uma e meia! A mãe devia estar para botar um ovo de preocupação. Já podia se considerar sem vídeo game por um mês.

- Outra rodada! – gritou o Rapaz. Eduardo não agüentaria mais uma.

- Pra mim não! – Disse ao garçom, mas ele já enchera a taça até a boca. Eduardo empurrou o copo para frente. – Já chega por hoje...

- Não agüentou o tranco? – Perguntou o playboy sarcasticamente.

- Eu sei me controlar!

- Você é um fraco! – disse pegando o copo do visinho de cadeira – Me dá isso pra cá!

- Tome o meu também! – disse Mônica – Também não agüento mais.

O cara ficou meio sem graça. Eduardo deu um risinho por dentro, mas a testa franziu ao olhar o relógio! Como meia hora passa rápido! Eram duas da manhã e ele tinha de ir embora ou seria linchado em casa. Provavelmente a mãe estaria até agora acordada esperando por ele, como é mania de mães.

- Acho que já vou...

- Está cedo! Fica um pouco mais...

- Eu realmente preciso ir... O maluco aí te faz companhia – disse apontando o playboy, mas ao olharem pro banco do bar improvisado perceberam que o cara caíra com o nariz no balcão. Se olharam e não puderam conter o riso. Era talvez a primeira vez que riam juntos de verdade, entendendo o motivo da risada.

- Botando banca de bebedor...

- Tá chapado!

Eduardo achou a maior graça de vê-la falando assim. E achou viável ser sincero:

- Na verdade eu também estou meio tonto... O melhor é eu ir pra casa

- Vou com você até o portão – disse Mônica tomando o seu braço.

Ao chegarem ao portão custou ao rapaz despedir-se. Achou que devia falar alguma coisa. Pensou bem, bem, não queria perder contado com aquela bela moça... Mas antes que ele falasse algo ela perguntou:

- E aí, a gente se vê por aí?

Era justamente o que ele queria perguntar, mas não sabia como.

- Pode ser... Posso te ligar?


Fernando Lago - 2006