28 de set de 2011

Le rouge


                                                                                   para Luiza Nunes


Você
Poesia ambulante
Pedaço de luz caminhante
Carrega consigo o semblante
De quem quer revolucionar

Sua alma
Da minha espelho
Seu belo cabelo vermelho
Seu jeito a que me assemelho
De o mundo em versos traçar

Menina-poesia
Beleza tremenda
Cê gira a moenda
Das minhas tristezas

E com maestria
Me põe uma venda
E faz com que acenda
Novas certezas

Menina, deixa o mundo enrubescido
Com sua beleza sem igual
E com um doce pedido
Tudo vermelhece
Só pra combinar
Com o seu visual

Setembro de 2011

22 de set de 2011

Quer dançar?

Casal Dançando, Anita Malfatti, 1910-1920, acervo IEB-USP (do blog Borboleta Pequenina


Me pegou de surpresa aquela menina de riso aberto e pele amorenada. O convite vindo junto do sorriso parecia mais uma provocação, um desafio, mais um “duvido que resista” do que um convite.

Não estava acostumado com aquilo. Interiorano. Pobre de leituras, de vivências, criado em quintais. Cheio de valores familiares. Habituado a ser o convidador. Expert em tentar dobrar a timidez das meninas do interior. Mesmo assim, meus convites eram sempre simplórios, sem muita insistência e quando eu dizia “quer dançar” e elas diziam “sim”, tudo era apenas dança.

Aquela menina não me convidou para dançar. Convidou para sambar num chão de brasas. Para um frevo fervoroso em larva ardente. Chamou-me a um tango numa fogueira de são João. Ela ousou, num sorriso, tudo o que eu não tinha ousado a minha vida toda. Antes que eu respondesse, sua mão já me obrigava a levantar. Não por puxões agressivos, mas por uma leveza de toque entre o meu braço e o dela.

Tomei de um só trago o restante da bebida, pousando no balcão o copo vazio. E deixei-me guiar pela sua cintura, cingida pelas minhas mãos provincianas.

Aquela mulher não dançava. Fazia poesia com os quadris. Cada movimento no ritmo da banda era um verso, que rimava com minhas mãos. E quando seu corpo perfeito juntou-se às imperfeições do meu, viramos uma poesia completa, versos alexandrinos.

Encostou os lábios nos meus ouvidos e disse baixinho:

- Não tenha medo de mim.

- Eu não estou com medo, minha linda.

- Então me aperta mais forte, mais forte...

Tão fácil ser obediente a este tipo de ditadura, tão doce. Bailei com ela. Parecíamos um. Por um instante achei que todos olhavam pra nós. Terna ilusão. Cada casal naquele salão pertencia ao seu próprio mundo. Mas o meu era o melhor de todos.

Pulando as previsíveis etapas da paradinha pro descanso, das falas ao pé do ouvido regadas a vinho na mesa, das mãos passeando no corpo, da coreografia das línguas, fomos parar num minúsculo apartamento, submundo dos meus planos secretos. Não me envergonhei. Ela era estudante, como eu, devia ter um igual.


Enquanto acariciava o seu corpo, uma Vênus da capital, perguntei meio que sem pensar.

- Nos veremos de novo?

Ela libertou-se dos meus braços, com um pouco de dificuldade, pegou um papel que tinha no criado-mudo e escreveu um número de telefone. Fiz o mesmo, entregando a ela o número de três celulares que eu tinha. Depois, se jogou em mim de novo, convidando para uma contradança.

Me senti meio bobo em não esperar mais. No fim de semana seguinte, telefonei pro número que ela me dera, a fim de, pelo menos, ouvir aquela voz que embalara os meus sonhos.

- Não tem ninguém com esse nome aqui, desculpa.

- Tem certeza?

- Claro, conheço todos os funcionários daqui.

Por que raios ela me dera o número de uma loja de cosméticos até hoje não sei. Mas sei por que lhe dei os meus três números, todos corretos. E até hoje, quando um deles toca em horário nobre, espero ouvi-la dizer... “Quer dançar?”

Fernando Lago – 22 de Setembro de 2011

19 de set de 2011

Um clássico (quase) infantil

Imagem: Michigan J. Frog (Warnner Bross)



Era uma vez uma princesa muito bonita que vivia, como toda princesa que se preze, à procura de um príncipe que lhe curasse um daqueles males de princesa que só um príncipe pode curar: a solteirice.

Caminhava pelo belo bosque, que depois de muitos anos de luta o Greenpeace conseguira que transformassem numa Área de Proteção Permanente, conforme as determinações do IBAMA. Ao passar pela beira do Lago, ouviu uma voz que lhe invocava pelo título de nobreza:

- Princesa! Venha cá, princesa...

- Mas será que estou ficando louca? – disse a moça com seus botões, sem se dar conta de que falar sozinha também era uma coisa de louco – estou ouvindo o Lago falar comigo?

- Não está louca não, princesa – redarguiu a voz – não é o Lago que lhe fala, mas eu...

A princesa forçou os olhos em direção à beirada do Lago, de onde vinha a voz, mas não viu ninguém.

- Mas não consigo te enxergar...

- Chegue mais perto...

A princesa, num ímpeto de coragem, aproximou-se da margem do Lago e pôde enxergar o dono da voz. Um pequeno sapo, em cima de uma Vitória Régia, tomando banho de sol.

- Ah, então era você! Pensei que estivesse louca. – disse, não notando também que falar com sapos não era assim uma coisa de gente normal.

- E o que você quer de mim, asqueroso anfíbio?

- Calma lá, princesa, não precisa ofender. Só quero conversar...

- Me leva a mal não, senhor, mas não costumo conversar com sapos não... Até lago, digo, até logo.

Já ia saindo, quando ouviu a anfibiosa voz do sapo dizer sedutoramente:

- Bem sei que você anda pretendendo um pretendente que lhe pretenda, não é?

- Como? – disse a noiva, voltando imediatamente – Por que está dizendo isso?

- Porque talvez eu possa ajudar...

- Então você é alguma espécie de cupido! Adoraria contar com sua ajuda. Eu te recompensaria muito, te cobriria de ouro. E nem e preciso de muito ouro pra isso, já que você é bem pequenininho assim, ó... E é até perigoso, ouro é pesado... Mas, enfim, eu acharia um jeito de te recompensar. Mas tem que ser príncipe. Pelo menos ter sangue nobre... Ou algumas ações na Vale do Rio Doce ou na Petrobrás... Mas onde está sua flecha? Ai que emoção, um Cupido!

- Bora parar com a palhaçada? Que mané cupido o que! Eu tenho lá cara de cupido? Isso aqui é uma fábula, não é mitologia grega!

- É verdade, devo ser mais realista. Você é então uma espécie de conselheiro amoroso...

- Não.

- Um astrólogo, cartomante, pai de santo...

- Deixa de ser besta, mulher, não sou nada disso.

- Então não vejo como poderia me ajudar...

- Você não está vendo que eu sou um sapo?

- E daí?

- E você é uma princesa...

- Continuo no e daí...

- Mas será possível? Você não conhece nada de histórias infantis?

- Ah não, não, não! Já sei aonde você quer chegar!

- Mas não custa nada tentar...

A princesa começou a refletir e lembrar das histórias que a sua avó contava. A família da rainha tal que tinha beijado um sapo que virara o príncipe de tal no ano tal do século tal... Sua mãe disse uma vez que tudo o que as gerações mais velhas falavam devia ser valorizado. É bem verdade que ela própria também tinha dito em outra ocasião que a velha não andava muito bem das ideias, mas plagiando em pensamento o simpático sapo que estava ali diante dela, achou que não custava nada tentar. Com essa raridade de príncipes na freguesia não podia perder essa oportunidade, ainda que remota. Além do mais, caso o sapo estivesse mentindo, só perdia alguns minutinhos da sua preciosa vida. Depois era só escovar os dentes muito bem escovados com Colgate, enxaguante bucal et Cetera et Cetera e tudo estaria resolvido, nos trinque, nos conforme. Lavou, tá novo! (Ai, essas modernosas!)

- Admito que ouvi falar algo assim, por altos e baixos, nos corredores daquele palácio... mas será mesmo que...?

- Palavra de escoteiro – disse o sapo que apesar da pele verde nunca fora escoteiro na vida

- Então prepare-se...

Dito isto, a princesa agachou-se, preparando o biquinho real, mas não alcançou o sapo e agachou mais e mais e mais... Antes mesmo de conseguir oscular o bichinho percebeu um vozerio e um barulho de flashes vindo detrás de si... Eram vários paparazzi de tabloides do Reino, captando-a em sua real descompostura.

MORAL: I'm your biggest fan, I'll follow you until you love me Papa-Paparazzi

Fernando Lago – Setembro de 2011

5 de set de 2011

τρία



O número 3, segundo tradições milenares, familiares e wikipediais, tem uma grande importância mística, simbolizando união e equilíbrio. Procês terem ideia, o danado do número aparece na Santíssima Trindade, sendo de suma importância pros cristãos, representando o conselho máximo deliberativo das decisões divinas; na política temos os três poderes (jurídico, executivo, legislativo), símbolo da perfeição que é o sistema democrático (haha). Aliás, se não tiver pelo menos três pessoas pra tomar uma decisão, aí fudeu a democracia! Porque vai dar sempre empate. Até numa discussão, se você precisa de uma segunda opinião, precisa também de uma terceira pessoa.

O três também é usado como pedido de socorro. De acordo com os meus conhecimentos (wikipedia.org), para se pedir socorro no deserto ou em alguma outra região, basta fazer três fogueiras, porque três é um código mundial. Enfim, se você tiver num deserto, faça três fogueiras que alguma coisa muito legal vai acontecer.

O três também é conhecido sexualmente na prática de ménage à trois. Mas não tenho certeza se essa informação é pertinente.

Três Mosqueteiros, Três Porquinhos, Três Marias, os três anos de estágio probatório do servidor concursado... Enfim, o três é um must. Pra desbanca-lo mesmo, só o sete. Mas a gente chega lá.

Você deve se estar perguntando por que diabos estou falando com tamanho misticismo sobre esse número primo. É que hoje, 05 de Setembro de 2011, completa-se um ciclo de três anos da existência deste espaço de inconfidências, e achei que seria legal saber um pouco mais sobre a simbologia que carrega este numerozinho.

Mas, por outro lado, quantos números que são trazidos no bojo destes três anos!
Veja bem, são três anos com doze meses cada um, isto é, 36 meses. Isto deve dar uns 1095 dias (calculadora, pra que te quero!), no ar vinte e quatro horas por dia graças à tecnologia dessa coisa de internet que não parece de Deus, estamos acesos há mais ou menos 26.280 horas! O que isso importa? 

Não sei, só deu vontade de dizer.

São três anos, 222 postagens, 10.533 visualizações, 478 comentários publicados, vários xingamentos não publicados, pessoas do mundo todo se encontrado na beira deste lago tão pobre e tão poluído pelas suas próprias águas...

Enfim... Não irei aqui relatar os insucessos que me levaram a criar este espaço. Já fiz isso antes, e já o fiz mais de uma vez. Só vou dizer que estou muito feliz de estar aqui com vocês. Espero que possamos continuar aqui por muitos anos mais, juntos sempre nessa alegria de viver, eu aqui no meu velho e querido banco e vocês aí, porque... Meus advogados me advertiram que não tenho caixa para responder processo por plágios. Enfim!

Pra finalizar, selecionei uns dois ou três pares de frases veiculadas neste blog através dos meus rabiscos inconsequentes, pra posar de pensador e fazer parecer que saiu alguma coisa que preste daqui ao longo destes três anos. Enjoy!

Pois é, você pediu que eu me descrevesse e acho que minhas palavras me denunciam: sou indescritível. (Outubro de 2010)

Nasci bonito, a sociedade é que me corrompeu. (Março de 2011)

É que na verdade gosto de ser inexplicável. Só se é explicado o que está pronto, e eu mudo a cada minuto. (Janeiro de 2010)

...somos jovens! Podemos nos dar ao luxo de mudar de opinião de um dia pro outro! (Abril de 2011)

Já amanhece, eu sei. O mundo acorda, a gente adormece (Maio de 2010)

...roubou o sorriso de uma estrela, assim, como quem rouba goiaba na casa do vizinho...  (Maio de 2011)

Na grande peça da vida, meus papeis são todos curtos. (Março de 2011)

...vejam só que absurdo. Qualquer um hoje em dia pode se tornar adulto! (Novembro de 2010)

Recusei-me a puxar o estrato de todos os meus atos nestas duas décadas de vida. Não seria agradável verificar que estou em déficit comigo mesmo. (Novembro de 2008)

A gente tenta guiar os humanos para o caminho certo, mas alguns não têm jeito mesmo. (Janeiro de 2010)

Que posso eu fazer? Cresci no meio de seres humanos. Deu no que deu: virei um também. (Março de 2011)

O menino cultiva amores. Tem uma criação de afetos em seu quintal. Mas afeto é bicho de asa. Logo cresce, sai voando. (Novembro de 2010)

Enfim, lamento por ter lamentado tanto quando eu podia agir que agora nada me resta a não ser lamentar. (Outubro de 2008)

Setembro de 2011