13 de nov de 2009

Ordem e Progresso

Não subverta

A ordem do planeta

Deixa tudo como está

Ta tudo bom

Tudo legal

Não existe o mal


Toda a pobreza

Servida nesta mesa

O destino te preparou

Não se preocupe

Tudo está certo

Pra quem é esperto


Nada de greve

A vida é tão breve

Não adianta reclamar

Quem não se atreve

Sabe que deve

Obediência a quem mandar


Vê se te liga

Não me persiga

Porque eu tenho mais poder

Quem me defende

Sabe e entende

O que sou capaz de fazer


Estou cansado

Do proletariado

Que pensa que pode lutar

Vê se te aquieta

Vê se te emenda

E não sai da tenda


Mas que atitude

De quem se desilude

Pensando que pode mudar

Se outros escutam

Esse safado

Estamos ferrados


Estamos ferrados

Estamos ferrados

Nós ‘tamo’ acabado!


Fernando Lago – 25 de Outubro de 2009


9 de nov de 2009

Terra das Palmeiras (2005)

(A história da vila onde nasci)

O mar estava calmo... Poderia estar bravio também, mas eu achei melhor que ele estivesse calmo e, portanto, digo que estava calmo, ora bolas![1] Uma esquadra de quatro, ou cinco, ou seis caravelas – eu não sei bem ao certo, porque não sou muito bom das aritméticas – mas certo é que vinha a tal esquadra.

Foi lá pelo dia 22 de Abril que Cabral e sua tripulação desembarcaram no nosso litoral para, enfim descobrir o Brasil,[2] que na época ainda não era Brasil.

Cabral e Caminha quiseram logo fazer as médias com o nosso pessoal:

- E aí, nativos – disse Cabral[3] - Como vivem a cá nesta ilhota?

- Vive muito bain – disse Caminha – mar, sol, índias peladas...

- É maravilha eshta ilha!

- E cês tão achano qui ta in ilha, é?[4]

- E não? Pois pois, estamos onde, ó pá?

- Pindorama, oxente!

- PINDORAMA??? – Perguntaram os lusitanos em coro[5]

- É!

- E, nativo, que quer dizer tal palavra cá em minha língua?

- Lá ele! Eu sei lá de língua de homi! Inda mais barbado assim!

- Quis dizeire: que significa, ó raios!?

- Oxe, portuga! É Terra das Palmeiras!

Fernando Lago Santos. Da série: Estórias que não estão na História. 2005


[1] Percebe-se que o compromisso com a verdade não era muito a minha praia quando comecei a escrever (e agora?)

[2] Dizem as más línguas que na verdade ele queria descobrir as Índias – e vê-las peladas...

[3] Você imagina o Cabral falando “E aí”? Eu imaginei...

[4] Sempre achei o baianês (o puro) intrigante...

[5] Como se fossem personagens de sitcom

2 de nov de 2009

O pseudônimo

O pseudônimo

(Fernando Lago)

O assessor do deputado *** veio até mim em alvoroço com um papel impresso na mão. Era o último texto da minha coluna publicada no Jornal Virtual da região, em que eu, com outro nome pseudonimato, criticava certa atitude do seu chefe diante da reunião do plenário.

- Fernando, disse ele calmamente, quase suando, como quem não sabe como falar uma coisas que não quer falar – o deputado ficou meio chateado com seu último texto na internet...

- Com que?

- Porque você criticou ele, disse que ele era “um sujeito meio abilolado”.

Superestimando o humor do empregado da câmara, gracejei:

- Mas não fui eu, foi o meu pseudônimo!

- Ah, fez ele conformadamente.

Neste instante o deputado apareceu. Cumprimentou-me e, num riso bonachão, disse:

- Meu caro, Fernando. O senhor anda se portanto um tantinho mal, como colunista. Aquele texto que o senhor escreveu outro dia estava um tantinho assim ofensivo.

Imediatamente o assessor inteveio:

- Não foi ele, deputado, foi o empregado dele!