30 de jun de 2009

Nota Rápida

Comecei hoje a ler O homem duplicado, de José Saramago. Vocês, leitores atenciosos, blogonautas contumazes (aprendi essa no jornal eletrônico aqui da cidade, mas inda estou incerto sobre o significado), hão de lembrar que na postagem A redenção de Saramago eu disse que me estava preparando para ler um livro do portuga, Nobel de Literatura. Ainda não venci meus preconceitos estéticos, o que tornou a leitura do primeiro parágrafo um desafio; mas estou me aplicando na luta pela superação destas convenções. Da linguagem nem falo nada. Basta considerar que todos os dias eu visito o blog do autor pra ler suas crônicas. Por fim, estou gostando do que li até agora. Como disse, pra ser Nobel ele deve escrever alguma coisa que preste, não é?

25 de jun de 2009

Internet e afins (Curtas)

  • Não há mais de cinco anos que eu fui apresentado à dona Net. Sou um roçaliano! A tecnologia foi entrando em minha vida aos poucos. Aprendi a mexer em computador em Lan houses; muito mais do que aprendi nos cursos (aprendi é modo de falar, pois não aprendi nada na verdade. Apenas descobri como abrir uma página e como passar de uma pra outra). É incrível verificar como em menos de cinco anos as coisas mudam tanto.

  • Um dos meus últimos trabalhos escritos (a mão, pra você ver como computador é uma coisa nova na minha vida), cuja redação ainda não terminei, mas a estória está todinha na minha cabeça, passa-se no ano de 2020. Sim, uma estória futurista, mas num futuro muito próximo. Contudo, estória passada no futuro só tem graça se tiver coisas novas, tipo carros que voam, casas inteligentes, etc. Minha preocupação, no entanto, era que entre 2006 (quando iniciei o escrito) e 2020 não havia mais que catorze anos. Poderia o mundo mudar tanto em tão pouco tempo? Com essa reflexão acerca da Internet, dos celulares (celulares, meu Deus! Quem era eu pra ter um celular?) e dessas coisas moderninhas a gente percebe o quanto o mundo mudou em menos de dez anos... Imagine em 15!
  • Cinco anos! Cinco anos que me foi apresentado esse bicho a que chamam de internet. E hoje, ao invés de rabiscar folhas de caderno velho, já vão as letrinhas direto pra tal da net. Que evolução! Mas a verdade é que só fui ficar amigo mesmo da internet há menos de dois anos atrás. E tornei-me íntimo dela de verdade há um, quando comprei um PC. Ou seja, há um ano a internet ainda era algo extra-ordinário na minha vida. Orkut era algo que eu acessava de tempos em tempos (mas já tinha hehehe). Blog (o seu diário na internet, como propagandeava os sites) eu costumava dizer que era o meu “de-vez-em-quandário” na internet... Só escrevia lá de vez em quando, quando podia ir a uma Lan house. Hoje, quanta diferença! Coisa de louco!
  • Outro dia estava acessando o EuAutor – site de compartilhamento de textos autorais onde se pode encontrar diversos poetas, contistas, cronistas e etc – onde inclusive eu tenho um perfil, e acabei encontrando uma moça que escrevia expressões bem moderninhas, tipo eh, ao invés de é; feh, ao invés de fé; jah, ao invés de já. Não obstante a esta particularidade, Mallu Fer não perde a sua expressão poética; continua sendo uma excelente poetisa e essa marca peculiar talvez seja mais um indício de sua genialidade. Isso prova o quanto a evolução da língua trazida pela internet já é presente. É um modernismo novo (redundância?), renovação dinâmica da língua, como os poemas da geração de 22.
  • Hoje em dia quem não tem Orkut? Reparei que até o Word já reconhece Orkut como palavra do seu dicionário! Agora mesmo escrevi com “o” minúsculo e o próprio editor corrigiu, botando o “O” maiúsculo. Fica até engraçado. Parece que Orkut hoje em dia é algo obrigatório que todo mundo tem que ter. Tipo identidade, CPF, título de eleitor... Já estou até achando que vai chegar um dia em que o cara chega pra se inscrever num concurso público e lê lá no edital um “Parágrafo único - serão exigidos os seguintes documentos: RG, CPF, CTPS, URL do Orkut...
  • A propósito de Orkut, outro dia a gente estava aqui na sala e uma moça parou à janela pedindo ajuda. Um quilo de alimento, alguma coisa qualquer. A gente sempre ajuda, mas dessa vez não tinha nada mesmo. Nossa despensa estava vazia (fim do mês, feira acabando). Aí ela viu minha irmã sentada à mesa do computador e pediu um pedaço de papel. Anotou um endereço de e-mail no papel e disse: Fia, depois você me adiciona no Orkut. Quase não me segurei... Foi só ela se afastar da janela que eu caí na risada...
  • A propósito de a propósito (fugindo um pouco do assunto de internet) vocês perceberam o quanto eu gosto dessa expressão, né? A PROPÓSITO... Acho tão elegante! Prefiro dizer a propósito do que “e por falar em...” Não que eu ache deselegante, é mania mesmo! Mania de leitor de Machado.
  • A propósito de Machado :) , foi um dos primeiros que procurei quando comecei a freqüentar a dona Net. Li muitos contos de machado de Assis na internet. Não lembro mais de p... nenhuma, mas o importante é que eu usei a internet para o bem. hehehehehe.
  • Por falar nisso (enjoaram já do a propósito, aposto) internet é um mundo. O mundo tem coisas boas e ruins e... Putz, não dá pra querer dar liçãozinha de moral aqui! O que é que eu vou dizer? Que se deve observar os filhos enquanto estão na rede? Se eu sou um desses filhos! Se odeio ser observado! Só posso dizer, galerinha que anda por aí pelas páginas da vida (que falta de criatividade! Copiar o Manoel Carlos!), que na internet há muitas coisas boas para se navegar. Muita cultura, muita sabedoria compartilhada. Claro que até nisso a gente tem que tomar cuidado, porque nem toda sabedoria existente na internet é legítima. Se até eu, caipirão vigenário, ando a publicar coisas por aqui, muitos falsos sabichões também podem fazê-lo. Portanto, não troque um bom livro por um site suspeito. As bibliotecas ainda existem, os professores ainda existem, as escolas ainda existem... E espero sejam perpétuos!
  • Amém!
Fernando Lago Santos - 25 de Junho
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22 de jun de 2009

Curtas


Depois de tantas delongas, tantas enrolas, enfim, depois de tantas compridas... Resta-me apelar às curtas (Péssima introdução, além de ambígua, mas não achei nada melhor).

 Esta semana quase perco meu cartão... Fui ao banco fazer uma operação de rotina (tirar extrato, faturas, porque fora da rotina mesmo só se eu fosse tirar dinheiro) e flup! O filho da mãe engoliu meu cartão... Era noite e na agência só tinha um guarda, que me aconselhou voltar ali no próximo dia útil. “Fica tranqüilo, disse ele, aí estará bem seguro”. Aí era a hora de, se eu fosse casado, soltar aquela velha piada: “Mais seguro de que com minha mulher...”

 A propósito, para resolver esse negócio do cartão estive no banco umas três vezes seguidas. Parece que hoje eu estava com sorte, nas três vezes eu encontrei vaga no estacionamento... de bicicleta.

 O excelentíssimo governador do nosso estado – não sei quem inventou esse negócio de chamar político de excelência; são uns excelentes filhos da... enfim! O nosso governador decretou, segundo leu-se no Diário Oficial do Estado, que são feriados os dias 22, 23 e 24 de Junho. Hoje, amanhã e depois... Bom, de onde ele tirou esse feriado eu não sei. Só sei que vou ter três dias pra descansar da faculdade... Ê funcionários de Estado! Aproveitem que não é todo ano!

 A propósito de Governo do Estado, lembro-lhes dos professores (des)contratados da Universidade do Estado da Bahia. Aqui no campus X alguns cursos estão sem aula devido à “contenção de gastos” feita pelo governo com a demissão dos professores contratados pelo Regime Especial em Direito Administrativo (REDA). Assim, fica subentendido que ter professores contratados é gasto! É por isso que uma professora costuma chamar esse Regime de ARREDA. E a corrigem dizendo: “Não é A REDA; é O REDA!” “Não, é ARREDA mesmo! Porque dois anos depois o professor arreda do cargo!” O governo provou que a professora estava errada. Não precisa esperar dois anos para arredar; arreda quando o governador quiser...

 Ainda com relação aos professores, vale citar a cidade de Valença, onde o Campus XV da UNEB estava paralisado por conta da falta de professores. Em resposta os discentes do departamento ocuparam o campus.

 Agora estou escrevendo os posts no Word e depois passando pro blog... Comecei a fazer isso depois que verifiquei alguns erros ortográficos nos meus textos vergonhosos. Erros de digitação, esclareço. Ainda sou uma múmia, operando computadores. Mas muito mais que isso, é a mania que tenho de guardar tudo que escrevo. Por isso, as postagens todas, antes de serem publicadas, são salvas na minha pasta aqui no PC. Economiza espaço no meu quarto, que já está abarrotado de papéis. Mas nestes que já estão lá ninguém põe a mão!

 Só faltou comentar do Brasil X Itália de domingo. Mas é melhor nem começar...
Fernando Lago - só mais um doido que fala...

20 de jun de 2009

Simone (A propósito de Filmes)

A propósito de filmes, estive pensando muito sobre isso nos últimos dias; fazendo considerações ponderáveis e ponderações consideráveis acerca da sétima arte, sem dúvida de grande significado sócio-filosófico para o ser humano. Não é nenhuma tese de doutorado. É apenas algumas coisinhas interessantes que estive pensando com relação aos filmes que assisti (e mesmo aos que não assisti).

Diz-se que não se julga o livro pela capa. Filme também é assim. E acrescento que não se julga o filme apenas pelo trailer. O que estou dizendo é que há filmes que conquistam a gente de maneira surpreendente, mesmo sem ter os elementos que a gente gosta de ver em um filme. O padrão industrial hollywoodiano. Vide De repente, Gina.

Os machões antiquados têm uma fala muito engraçada que ilustram isso. “Tem tiro? Não? Então não pode ser bom filme.” A verdade é que já está incrustado na nossa cabeça que um bom filme de ação tem que ter tiroteio, perseguições de carro, explosões, essas coisas. E realmente é muito excitante, mas só isso não é o bastante. Se o cara se fecha no estereótipo ele acaba escolhendo um mau filme sem querer. Tenho dois ou três exemplos desses em minha vida de telespectador.

Certa vez ao entrar na locadora vi que todos os bons filmes de ação estavam já locados, principalmente os lançamentos. Na prateleira havia apenas um, em cuja capa aparecia uma grande explosão de um ônibus numa rua movimentada de Nova York. Nem perdi tempo em ler a sinopse, joguei logo na sexta e loquei o filme. Ao chegar em casa, que decepção! A explosão que aparecia na capa do filme era a única em toda a trama, e acontecia lá no meio do filme, quando já se tinha até esquecido que locou o filme só por causa daquele estouro.

Agora uma coisa bem engraçada é que filme também tem seu tempo. Como assim? Exemplifico. Vocês provavelmente já viram Matrix. Talvez não a trilogia completa, mas pelo menos um deles você já deve ter visto. Este filme dividiu opiniões no cinema e a minha era totalmente negativa. Acontece que eu estava vendo o filme do ponto de vista do entretenimento. Alguns janeiros depois de eu ter assistido ao primeiro filme da trilogia na TV aberta, já ingressado na UNEB, abriu-se uma discussão acerca das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC’s). Para ilustrar o debate o professor promoveu a exibição de Matrix, o que foi encarado como uma grande besteira. Um filme de ação/ficção científica na Academia! Esse cara tá doido! No entanto esta exibição nos levou a enxergar o filme com outra linguagem, com outro ponto de vista, analisando o discurso dos personagens e a história que o filme apresenta. Achei a história impressionantemente relevante e nela podíamos inclusive identificar os conceitos de Ideologia e Alienação de Marx; com a diferença de que no filme os humanos são alienados de sua vida pelas máquinas – o que não estaria muito longe da nossa realidade, se as nossas máquinas não fossem governadas pelos próprios humanos. Mas aqui temos pano pra manga! Talvez em outra postagem...

Exemplo parecido foi uma vez que eu estava olhando os lançamentos, indeciso, lendo sinopses, observando as imagens, quando o cara da locadora (até hoje só o conheço como o cara da locadora) chegou e indicou-me A Ilha, “O melhor filme de ação do ano”, segundo o atendente, a revista e a capa do DVD. A opinião do cara da locadora, a fala da revista, as explosões na contracapa e a bela loira que protagonizava o filme me convenceram a levá-lo pra minha casa. Não consegui assistir. Vi os pedaços da estória nos momentos em que os outros assistiam e, apesar das explosões, gritarias, etc, não tive a mínima vontade de assisti-lo posteriormente. Ficou por isso mesmo. Alguns anos depois, estando eu sem fazer nada em casa liguei a televisão e que filme passava? A ilha! Estava no início, então resolvi parar pra ver se entendia qual era a daquele galego mais aquela loira. Gostei da história e assisti ao filme até o final.

Por último, gostaria de contar a reflexão que deu origem a toda essa análise amadora e exageradamente longa – eu ultimamente não tenho me controlado na escrita. Há já alguns dias que a fiz, a propósito de uma lembrança que tive.

Há cerca de três anos eu fui a Porto Seguro passar certo feriado prolongado com minha família. Estudava o 3º ano do ensino médio, na época. Como tinha um trabalho pra fazer e entregar vim na frente, chegando aqui mais cedo para dar tempo fazer o bendito trabalho. Ao chegar em casa vi na estante alguns DVDs de filmes e, olhando um por um não achei nenhum que me agradasse. Marquei apenas um mísero DVD pirata, sem capa e sem estampa, com um nome de mulher escrito a Piloto na superfície: SIMONE. Por se tratar do nome de uma mulher, achei que pudesse ser um filme razoavelmente bom. Marquei-o para dar uma olhadela depois.

Alguns dias depois, cumpridos os compromissos escolares, lembrei-me do tal filme e fui ver qual era a da tal Simone. A história parecia-me besta. Um diretor cinematográfico chamado Victor Taransky (Al Pacino) brigava com uma atrizinha exigente e acabava ficando sem possibilidade de realizar seu filme. A primeira parte do filme se limita a contar as mazelas deste diretor, separado de sua ex-mulher, que é ainda por cima uma das diretoras do Studio. Assim, correndo de credores e das dívidas, Vuctor acaba encontrando um expert em informática que lhe fala de certo programa de computador que revolucionaria os filmes da telona. Como o cara parecia um maníaco, Taransky dá pouca atenção pra ele. Aí você pergunta, mas onde entra a tal Simone nessa história? Calma!

Encurtando a estória, o expert acaba morrendo de câncer (justamente provindo de suas “atividades computadóricas”) e manda entregar os HDs com um programa chamado Simulation One a Victor Taransky. Simone (Rachel Roberts) é justamente esse programa. Explico: o projeto era criar uma atriz totalmente virtual, mas com uma eficiência nunca vista. Sem atriz para protagonizar o ser filme, Victor vê em Simone a sua única saída. Usa a atriz virtual como protagonista do seu filme, com certo receio de ser acusado de antiético pelas academias de cinema. Todos os medos do diretor se amenizam ao perceber que a principal preocupação da crítica cinematográfica era saber de onde um diretor tão obscuro teria tirado uma atriz tão boa.

Através de Simone, Victor alcança muito êxito e usa de técnicas de marketing para mantê-la no topo e para que ninguém saiba que ela é irreal. Simone vira uma pop star a nível mundial. Mas todos começam a desconfiar da fidelidade cega que Simone tem para com seu diretor e começam a acusá-lo de mantê-la em cárcere, lavagem cerebral, coisas desse feitio. Com o tempo Taransky passa a odiar Simone, mas não consegue reverter o seu sucesso. Então ele percebe que a única maneira de se livrar daquele fardo era Simone morrer. Anuncia ao mundo a morte de Simone e destrói, através de um vírus, o programa que lhe deu a fama. Junta todos os arquivos em um baú e o joga em alto mar.

Durante o enterro, porém, um policial fã de Simone, abre o caixão desconfiado e percebe que não há corpo. Victor Taransky passa a ser acusado pelo assassinato de Simone e é preso. Revela então a verdade, que Simone era apenas uma ilusão, um programa de computador, mas ninguém acredita, principalmente quando vem a público uma gravação do sistema de segurança do cais que mostra ele carregando um enorme baú. Quem descobre a verdade são sua filha e sua esposa, que conseguem recuperar todos os dados do Simulation One. Simone aparece em cadeia nacional e revela ao público que tudo não passou de uma estratégia de Marketing.
Foi ao lembrar este filme que desenvolvi toda essa reflexão acerca do cinema. Agora penso que é hora de parar... Já escrevi muito! E ler não é tão gostoso quanto assistir.
Fernando Lago - 20 de junho de 2009

16 de jun de 2009

De repente... Gina!


Ela apareceu em minha vida da maneira mais casual que se possa imaginar. Uma loira de olhos débeis, mas belos. Aquele olhar de tristeza, de quem busca algo, mas não sabe onde encontrar. Também devo ter esse olhar, porque quando penso conquistar algo, em um curto espaço de tempo me convenço de que estava errado. Meu olhar deve ser igual ao dela...

Mas não estamos aqui para falar de mim. Estamos aqui para falar de Gina, ou de Angelina Franke. E de como ela surgiu em minha vida assim de repente e provavelmente há de ficar pra sempre em minha lembrança.

Aconteceu no último sábado. Foi tudo muito de repente. Eu estava sentado no sofá, assistindo TV. Na verdade não necessariamente assistindo, mas pulando canais, como é típico de sábados em horários que não se tem nada pra fazer e nenhum programa bom pra assistir. Seriam dez e meia da noite. Fui pulando os canais... 1, 2, 3, 4... Parava em alguns para observar por três segundos e seguia... 5, 6, 7, 8, 9, 10... Nada que prestasse na Televisão... 11, 12, 13, 14... De repente... Gina!

Foi uma bela imagem a que vi... Uma loira, sentada num café de algum lugar do planeta, sendo importunada por um desengonçado sujeito engravatado (os há no mundo inteiro) que não tendo outro lugar para sentar, teve de dividir a mesa com ela. Era um tipo tímido, assim como eu... Desengonçou-se com o interesse da moça em saber o que era aquele monte de apostilas que ele carregava.

O legal de pegar o bonde andando, é que você faz um esforço mental danado pra tentar entender em que lugar e contexto se passa a cena. Era uma moça loira que se encontrava com um homem de meia idade num café e começavam a conversar civilizadamente, como se é de esperar de pessoas civilizadas. Não reconheci a língua que falavam. Pensei ser francês, mas acabei concluindo que não era. Talvez fosse alemão, porque identifiquei algumas palavras levemente parecidas com expressões do Inglês. Enfim, fui me envolvendo, para descobrir em que língua falavam.

Depois acabei ficando curioso também pra saber no que ia dar aquilo tudo. Um homem e uma mulher num café. Ele tímido, ela bela e loira... A conversa dos dois acabou. Agora tudo podia ser... Se a loira fosse apenas uma personagem qualquer, desses que só aparecem para suplementar a história, tudo acabava ali e eu poderia ir pro meu documentário da Reforma Agrária, que estava passando na TV Brasil – antiga TVE (ultimamente tenho dedicado algumas partes do meu dia à leitura deste assunto). Mas as coisas não são assim. O homem tímido e sisudo, ao invés de levar suas apostilas levou o jornal da moça loira e teve de voltar ao café para desfazer o engano. Por sua parte, a loira percebeu também o equívoco e saiu com tanta pressa pra ver se encontrava o dono dos documentos que acabou derrubando o café de uma senhora. Neste instante o homem chegou e indenizou a acidentada, pagando-lhe um outro café.

Foi assim que Laurens Wagner e Angelina Franke se conheceram. E foi assim que conheci os dois, e o seu filme romanesco, mas envolvente e extremamente reflexivo.

Só no meio do filme é que fui assimilando as coisas, cada detalhe, cada questão específica. Laurens era um dos assessores do Ministro de Finanças da Alemanha (a língua tão enrolada era o alemão mesmo; eu dou palpites fortes!). Vivia para o trabalho; um daqueles solteirões que não saem do computador ou dos papéis de trabalho. Gina era parteira, trabalhava trazendo à luz os infantes. Por acaso, assim como que para responder a um desafio da própria Gina, Laurens a convida para sair. Mas se arrepende na última hora, assim como ela, e ambos vão ao encontro apenas para notificar ao outro que não irão. Mas acabam almoçando juntos realmente e, por sugestão do seu chefe, que estava admirado por vê-lo pela primeira vez na vida namorando, Laurens convida Gina para ser sua companhia na reunião do G8, na qual estaria trabalhando. Gina aceita. Laurens, sempre tímido, não ousa fazer nada que sugira à moça que ele tem interesse nela. Ela também não se aproxima muito. Mas com o desenrolar dos fatos acabam se envolvendo e tornando realidade aquilo que publicamente já se aceitava há muito tempo entre seus colegas.

A reunião do G8 é minuciosamente planejada para que os líderes mundiais estejam “protegidos” dos manifestantes populares ou movimentos sociais. Para ser aceita como acompanhante do Laurens, por exemplo, Gina teve seu passado investigado pelo setor de segurança, para que tivessem certeza que sua visão política não “atrapalharia” as negociações entre os membros do G8. Ela, moça simples e nunca envolvida em militâncias, até então não sabendo nada da política internacional, obviamente foi aceita.

No entanto Gina passa a ler os relatórios de Laurens e a perguntar-lhe coisas sobre a reunião. E de repente começa a perceber que algo estava errado nessa política de países ricos em “benefício” dos pobres. Ora, por trás de todos aqueles números havia crianças de verdade, que morriam de fome aos milhares por dia na África. Gina passa a ser incontrolável durante os jantares com o ministro e os outros assessores internacionais. Começa a questionar a política do G8 para os países pobres e acaba sendo expulsa do encontro ao questionar o discurso da Chanceler alemã e a fazer declarações fortes relacionadas ao descompromisso daquela reunião. É acusada de fingir estar apaixonada por Laurens para se infiltrar no encontro e expor aos lideres mundiais a sua visão política radical. Laurens não pode defendê-la e acaba pedindo demissão.

A estória, além de nos encantar por ser uma estória de amor entre um homem e uma mulher diferentes, faz-nos refletir sobre esses blocos de países que aí estão. É-nos cabido questionar se realmente essas pessoas, que enchem a boca para dizer que lideram os países mais ricos do mundo, se reúnem para negociar melhoras para o resto do mundo ou para fazer cada vez mais política de sustentação da economia a curto prazo. Será que estão realmente preocupados com a fome e a miséria dos países pobres? Será que se preocupam tanto com “um milheiro” de crianças que morrem hoje, e amanhã e depois quanto com uma multinacional que está prestes a falir?

Deixo-lhes a refletir, que já escrevi demais...

Fernando Lago - Junho de 2009

6 de jun de 2009

Duas Poesias

Côrte

E disse o Coronel Telles
A Don Rodrigo Montfort
Que essa de se apaixonar
Por mulheres disputadas
Não é pra simples mortais
É pra príncipes ou regentes

Disse isso e é Don
E eu, então, que sou plebeu...

Fernando Lago – 05 de Junho de 2009


Dueto de choro

E eu
Com aquela viola chorona
Só sei dizer coisas doces
Só sei dizer coisa incerta
E certo da minha incerteza
Choro
E chora a minha viola
De poeta sem amor

Dueto de choro é triste
Mas a vida é assim mesmo
Há coisas que não se concertam
E poeta
Poeta com viola em punho
- Viola que chora tanto –
Poeta é pra chorar
Só que chora mais que a viola
Que é bicho presunçoso
E com orgulho ferido
Ela para de chorar
E para de cantar
E para de melodiar

E no silêncio da noite
Ou da manhã inebriante
Chora sozinho o poeta
Sem viola e sem musa
Sem rima e sem prosa
Sem motivo
Sem razão
Chora só por chorar
Porque é poeta chorão.

Fernando Lago Santos – 03 de Junho de 2009

1 de jun de 2009

Seminário de Pedagogia da Terra

Centro de Formação Carlos Marighella

Nesse fim de semana tive oportunidade de vivenciar uma ótima experiência, que com certeza há de contribuir para o meu crescimento crítico e intelectual. Participei na última sexta (29) e sábado (30) do Seminário de Articulação do Módulo VI da Pedagogia da Terra.

O curso de Pedagogia da Terra é uma conquista dos movimentos sociais junto ao Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e à Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Na Bahia o curso acontece no Centro de Formação Carlos Marighela, que fica no Assentamento 1º de Abril, localizado na estrada de Cumuruxatiba. O curso é de responsabilidade da UNEB – Campus X e visa a formação de educadores e educadoras do campo, conscientes de seu papel social e da luta pela reforma agrária e é especialmente voltado a pessoas ligadas à Terra, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a outros movimentos sociais do campo. Na matriz curricular do curso não falta nada do que há nos outros cursos de Pedagogia da UNEB. A diferença é que o Curso de Pedagogia da Terra é enriquecido com discussões voltadas ao campo e à luta pela reforma agrária, além de terem componentes a mais, necessários à educação do campo, como direito agrário, por exemplo.


Mística

Os discentes vêm de diversos lugares e ficam no assentamento durante cerca de cinqüenta dias, que é o tempo que dura o período das aulas. Estudam durante todo o dia e mantém grupos de estudo durante os horários que não são de aula oficial. Foi uma ótima oportunidade de conversar com pessoas de diferentes lugares da Bahia e de outros estados, como um dos graduandos, que mora na divisa de Goiás.

Formação - Início do dia

Estavam presentes as professoras Cecília Mourão, Prof. Msc. Luzeni Ferraz, Prof. Msc. Jucilene Ferreira e Prof. Drª Nalva Araújo além dos monitores de ensino Fernando Lago (este simplório que relata), monitor de Educação do Campo (Prof. Luzeni) e Taís Nascimento, monitora de Sociologia da Educação (Prof. Nalva). O seminário foi na sexta e no sábado das 8 às 16 horas, encerrando com o filme Histórias de Um Brasil Alfabetizado, que traz diversos depoimentos de educadores(as) e educandos(as) da EJA.

Leitura de uma das Cartas de Ademar Bogo - Com trilha sonora rsrs

Algumas coisas me surpreenderam neste seminário, pois acabei por fazer algumas comparações inevitáveis com a forma como nós, discentes, encaramos os cursos aqui e lá. A primeira delas foi logo ao entrar no Centro de Formação e reparar em um rapaz que cuidava de toda a organização do encontro vendo se isto ou aquilo está bem e, mais tarde, ao iniciar o Seminário, convidando a mesa e mediando o debate entre os alunos e os componentes da mesa. Ora, que de surpreendente há nisso? É que esse rapaz era um dos discentes do curso, ou seja, os próprios estudantes organizam os seus seminários e os horários, cobrando inclusive dos próprios professores. É a tal auto-organização dos alunos, de Pistrak. Outra surpresa foi de, sempre acompanhado das professoras, chegar ao Centro de Formação e já encontrar os alunos na sua grande maioria prontos para iniciar as atividades, sem precisar um professor para chamá-los e exortá-los a iniciar. Além disso, quem regula os horários são os próprios alunos e os cumprem muito bem. Outra surpresa foi ver à noite, após o jantar, muitos alunos reunidos para estudarem juntos, além daqueles que foram procurar os professores para orientações na elaboração da monografia.

Professoras/coordenadoras do Estágio Supervisionado (Cecília, Luzeni, Jucilene e Nalva)

A convivência no assentamento é muito boa e os educandos do curso, bem como os assentados, são pessoas muito legais. A comida também é muito boa, mas isso não vem ao caso (só que acho que se ficasse lá um mês engordaria um bocado rsrsrsrsrs). Foi uma experiência excelente, inclusive para ver de perto a realidade acerca do MST que muitos veículos de comunicação não mostram. A grande maioria só sabe noticiar as “invasões” do movimento (enquanto noticia as “ocupações” dos EUA no Iraque), sem explicar a lógica e a filosofia desse povo que luta não apenas pela posse de um pedaço de terra, mas pela reforma agrária e pelo fim da desigualdade social neste nosso País.

Fernando Lago Santos - Graduando do V semestre do curso de Pedagogia na UNEB - Departamento de Educação Campus X - Teixeira de Freitas - BA