14 de dez de 2008

Resenha da microssérie Capitu



A primeira coisa que pensei ao terminar de ler Dom Casmurro – lá se vão cinco ou seias anos, eu tinha catorze anos (perdoa-se a igenuidade da idade) – foi em crescer, me tornar diretor ou cineasta e adaptar fielmente a obra para a TV ou o cinema. Eu achava que todos compreendiam bem o Bentinho, suas idéias, seus desejos, suas vontades e, portanto, seria aplaudido por minha idéia. Bom, eu o compreendi por que o achava parecido comigo. Tudo o que ele fazia parecia com algo que eu já tinha feito ou gostaria de fazer na vida. Sua calma, sua timidez, sua ironia ao escrever, tudo me lembrava a mim mesmo.
Ao ouvir dizer de uma adaptação televisava na Globo logo pensei: “Tenho que ver essa. Vamos ver se vai ser como eu faria”. Decepcionei-me totalmente... Na verdade, antes mesmo de assistir já imaginava que não cumpriria a função de representar a genialidade de Machado, mas achei que antes de uma crítica definitiva eu devia assistir pra ter certeza. Assisti e não gostei. Já na primeira cena que vi o diálogo me desagradou. Não vi a elegância das palavras dos personagens Machadianos. Pareciam estar forçando um drama que não há nem na narração nem nos diálogos de Dom Casmurro.
Como parei de assistir desde a primeira cena, analisarei aqui apenas alguns pontos, visíveis nas chamadas e nos anúncios feitos com tanta ênfase nos programas “culturais” da emissora:
1 - Os personagens parecem palhaços. Tudo bem, isso pode ser o estilo pessoal do diretor, aquela coisa da maquiagem cadavérica do José Dias, das roupas espalhafatosas e que pouco têm a ver com o estilo do livro. Bom, eu não gosto, mas ele e outras pessoas podem gostar. No entanto, tem que pensar que se está adaptando uma obra de cem anos de gloriosa história. Toda a adaptação deve zelar pela autenticidade da obra, assim penso.
2 - Os diálogos são incrivelmente bobolóides e dramáticos, fugindo aos sons que tínhamos na memória. Que quero dizer? É que parecem exagerados, cheio de um dramatismo que não há em Machado. O Bentinho parece um moleque dengoso ao se dirigir a Capitu. Ele é tímido; ser tímido não é ser dengoso. Eu sou tímido e não sou dengoso! O velho Bento Santiago narra a história como um velho cansado e acabado. Dom casmurro não aparentava a velhice. Ele mesmo diz que as pessoas lhe davam menos anos do que ele tinha. Além disso, ao narrar as suas memórias, Bentinho é sarcástico, irônico, filosófico, jamais dramático.
3 - Os capítulos curtos só confortam a leitores, não a espectadores. O estilo consagrado de Machado de fazer capítulos curtos, e que tanto ajuda a leitores preguiçosos como eu, não serva para a TV. Na Televisão ninguém quer a cena a todo instante para ouvir um título. Se ao menos ele apenas pusesse a legenda, com a narração de Bentinho em decorrência, talvez até desse pé, e manteria a fidelidade à obra. Mas interromper assim, não ficou bom para a TV.
4 - Uma frase que diz tudo, e encerra a minha análise: "As melhores adaptações nos permitem enxergar nos atores (na interpretação) cada minúcia, cada ademane, cada detalhe de cada personagem." Os olhos de ressaca da Capitu da Globo são forçados, percebe-se que ela tem a intenção de ter olhos de ressaca. A boa interpretação não é forçada, e falando isso me refiro também ao dramatismo na fala. Por mais teatral que seja o estilo dos diretores, essa interpretação não combinou bem com Machado.
Não vi ainda uma adaptação desta genial obra que me agradasse. Gostei do filme Dom, mas como filme, não como adaptação de uma obra secular. É uma adaptação livre, isso fica claro logo no início, bem como a do conto A Cartomante. São histórias paralelas que lembram obras Machadianas. Tem também o filme Capitu, que não é de minha época e eu ainda não assisti, por isso não sei informar da sua fidelidade.
Mas, meus amigos que nunca leram Machado, não se iludam. O livro Dom Casmurro é, repito, uma obra de arte que atravessou séculos. Talvez a interpretação da série tenha deixado uma má imagem do autor em suas cabeças, daí a necessidade de se fazer críticas (boas ou ruins). Por isso não deixem de ler uma boa obra por conta de uma má adaptação...

Dezembro de 2008 (baseado numa resposta do autor a um tópico criado na comunidade de Machado de Assis no orkut)

2 comentários:

  1. Concordo em alguns pontos com a sua crítica.
    Mas eu gostei do estilo teatral do diretor.
    Concordo com você em sua opnião sobre os exageros...
    Mas gostei da narração do Dom Casmurro.
    Também não gostei do Bentinho ainda menino.

    Sugiro a você, visitar o blog e assitir os estudos de alguns persnagens, irão mostrar melhor a construção deles.
    Creio que você vai gostar.

    Mas enfim, Machado de Assis é muito bom para saude.

    Tamu junto

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  2. Impressionante como a Globo consegue transformar tudo que seus interesses comerciais tocam em coisinha fofa, mas estéril.

    quanto às adapatações do livro, não te parece que faltou aos diretores a leitura do be-a-bá da crítica machadiana, a formulada por Roberto Schwarz em, dentre outros, "Ao vencedor, as batatas!"?

    sem essa leitura, Machado é facilmente reduzido ao rodapé de dramalhões de novela das oito..., quando, ao contrário, é uma lúcida exposição das contradições ocultas na sociedade brasileira, de suas elites, de sua história.

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?