29 de jun de 2010

Você, tão menina

Você

Tão menina

Malina, tanto desafina o meu coração

Beleza felina

Maquina tanta coisa fina pra minha paixão


Tão bem

Quanto voar

É me por à sua frente para te admirar

Teu ar

Me oxigenar

Parar, te ter na mente, comigo levar


Rosto, rastro, pasto exposto

Um trovoar de trovador

Posto, casto, parto, porto

Marina lá, o cais do amor


Fernando Lago Santos – Junho de 2010



Talvez seja um esboço para algo maior... Há uma pretensão de musicá-la. Pretensão assaz pretenciosa...


25 de jun de 2010

Poesia Não de amor

Uma repostagenzinha básica, com pequenas edições...



A poesia que escrevo agora

Infelizmente, devo dizer,

Não vem de dentro pra fora

E, minha amada, não é pra você


Não é, pois não falo de amor

Meu bem, estas quadras não são

Compostas com todo fervor

Que existe em meu coração


Não é, pois não falo em paixão

Meu bem, me entenda, é favor

Compreenda, não faço menção

Que por ti tenho grande amor


Não digo eu nessa poesia

Que você é minha vida

Nem digo que não viveria

Se você se fosse em partida


Não digo que te amo tanto

Que não há mágoa ou pecado

Que diminua, portanto

O’amor a você dedicado


Não digo, repito, não digo

Que seus belos olhos amenos

Num olhar doce e amigo

Me envolve em carinho sereno


Não digo – a poesia não fala

Que o meu coração é só seu

Que agora ele se cala

Mas no seu já se perdeu


Não digo a verdade, que é

Você a mais bela menina

Entre as outras, tenha fé

É bela como pedra fina


Não digo que toda você

Cabelos, olhos, coração

Fascina todo o meu ser,

Que inflama de amor e paixão


Não digo aqui nada disso

E nem pretendo dizer

E, sabe, eu não farei isso

Porque todo mundo no mundo

O milionário e o “vagabundo”

De Teixeira a Passo Fundo

(E principalmente você)

Estão cansados de saber


Fernando Lago - 02 de Abril de 2009

23 de jun de 2010

Da guludisse escriturária de um amador

Quando disse ontem à Taynara Ambrósio que estava criando outro blog, ela me fez uma perguntinha inevitável, com seu jeito meigo de interpelar: Por quê?

Não achei outro motivo para explicar senão a minha guludisse. Nunca achei necessário ter mais de um blog pessoal e repudiei a idéia por muito tempo. Este aqui bastava. Além disso, minha cara e minhas letras já estão espalhadas por diversos outros espaços, não achava necessário mais um. Empestiar a rede assim com minha presença!

No entanto, de algumas semanas pra cá, tenho sido constantemente assombrado por idéias malucas, que me martelam, martelam, martelam... Novo blog, novo blog, metáforas... Vozes sombrias, fantasmagóricas... Meus fantasmas... Os fantasmas do Lago.

De forma que, medroso que sou, acabei por ceder à vontade das minhas assombrações. Está criado um novo blog, sobre o qual não tenho poder algum... Governam ali os meus fantasmas... Os Fantasmas do Lago.


20 de jun de 2010

Algo de mim...

"a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais..."

(Clarice Lispector)


Autocrítica


Me olho

Me transformo

Me reflito

Me organizo

No conflito de mim mesmo


Me recolho

Me resigno

Me refaço

Me questiono

Nas questões que o mundo faz


Me renovo

Me enquadro

Desenquadro

Reenquadro

Neste quadro de minha vida


Me construo

Pouco a pouco

Me melhoro

Pouco a pouco

Pouco a pouco

Vou vivendo

Preenchendo minhas lacunas


Fernando Lago – 01 de Agosto de 2009



Eu sou assim (Autobiografia)


Eu sou assim

Um sujeito inexplicável

Um ser anti-social

Totalmente sociável


Se fumasse meu cigarro

Se tomasse meu trago diário

Se praticasse uma orgia intelectual qualquer

Se me inebriasse do perfume

(E talvez de algo mais)

De todas as belas damas que me cercam


Talvez chamassem-me cafajeste

Talvez chamassem-me sortudo


No entanto, que vida!

Que morte!

Que comédia poética!

Que poesia cômica!


Máscaras de Arlequim!


Arre!

Não prestem atenção em mim!


Fernando Lago Santos – Junho de 2009


19 de jun de 2010

Breves Palavras sobre Saramago















"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer...”




Foi incrivelmente a primeira mensagem que vi na minha caixa de entrada do e-mail, pela manhã. O título era bem claro, o conteúdo mais ainda. Mas era, ainda assim, inacreditável. Morreu como? Como morreu?

José Saramago, único escritor da língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura! Com prêmio ou sem prêmio Saramago era um grande escritor! Um grande lutador! Um grande homem... Entretanto, ninguém merecia aquele prêmio mais que ele. Há alguns dias atrás uma promoção do Digestivo Cultural perguntava quem merecia ganhar o Nobel este ano... Confesso que não achei resposta. Quem seria tão genial quanto Saramago? Quanto o Márquez? Não sei...

Engraçado como quando a gente descobre algo ou alguém e de repente começa a ouvir falar dele(a) em toda a parte. Com Saramago foi assim. Na verdade não foi bem uma descoberta. Já havia muito que tinha notado a sua presença nos meus livros didáticos de literatura, mas fazia que não via. Birrento! Mas depois que comecei a lê-lo no Caderno de Saramago, li O homem duplicado e assisti Ensaio Sobre a Cegueira, passei a achá-lo genial. Daí vi que ele era muito mais que um escritor genial, era um homem genial, um grande crítico da sociedade e um amigo valiosíssimo dos movimentos sociais de luta. Descobri sua participação no livro Terra, de Sebastião Salgado – que traz várias fotos relacionadas à luta pela terra – e vi, espalhados por aí, muitos escritos que demonstram a sua preocupação com a justiça social.

Um grande homem sim senhor! Expressão clichê pra definir pessoas célebres, mas por que diacho tenho eu que fugir de clichês? É o que posso oferecer agora, já que atravessar o oceano e levar-lhe flores seria muito custoso e talvez nem chegasse a tempo... Restam-me os clichês.

Fernando Lago Santos – 18 de Junho de 2010

17 de jun de 2010

A Memória e a Música


1 – De como comecei uma amizade com o velho Gonzaga

Foi no ano passado. Um dia de primeiras vezes. Primeira viagem universitária interestadual que eu fazia, a primeira vez que visitaria uma capital e a primeira vez que participaria de um Encontro Acadêmico numa universidade federal. Não tenho a menor vergonha de dizer que sou um caipirão à moda antiga. Não tenho vergonha, mas também não uso disso para me fazer de coitado. Sou pobre, nascido no interior do interior; mas assim muitos outros há. “Tantos Severinos, iguais em tudo e na sina.”

Mais de nove horas de viagem. Também era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa. Meus limites eram São Mateus, ES do lado de cá e Porto Seguro, do lado de lá, de onde vim ainda pequeno. Mas isso não importa! Tantos outros têm limites tão menores, enquanto um bocadinho privilegiado tem limites tão largos que acham que nem tem limites... Mas, enfim!

Fomos de carro. Alguns outros foram de ônibus, mais tarde. Percurso longo, enfadonho, rodovia curvilínea. Bom mesmo é uma musiquinha, pra ajudar o veículo na sua comilança de estrada. Revirei o porta-CD’s da professora. Naquela longa jornada pudemos ouvir vários álbuns, mas dois deles marcaram muito e até hoje eu os escuto com muito prazer. Não sei explicar o porquê. Creio que os ouvi a ambos na volta. Talvez a saudade de casa, a emoção da viagem bem sucedida, o prazer de ter compartilhado com amigos tão queridos de uma quase-semana tão boa, tenham aumentado minha sensibilidade musico-sensorial e me proporcionado a memorização daquelas músicas. Especulação só! Não entendo patavina de psicologia!

Na ida, lembro de termos ouvido Pereira da viola, o CD ao vivo da banda Kid Abelha e uma coletânea de músicas de grandes cantoras como Adriana Calcanhoto, Ana Carolina e Marisa Monte. Mas pouco gravei destes. Até já tinha o DVD do Kid Abelha em casa, mas ouvia pouco. Ainda hoje só escuto de tempos em tempos... Não conhecia Pereira da Viola e confesso que não me lembro de nenhuma das músicas que ouvi na estrada... Não guardei nada dele, de forma que posso dizer que continuo não conhecendo o seu trabalho. Quanto à coletânea das nossas moças, eu já conhecia a maioria das músicas, então ouvi-las já trazia experiências de outras épocas e não fundou-se ali uma experiência nova através delas. Quero dizer que quando as ouço de novo, lembro de outras experiências e não necessariamente daquela.

O que me marcou mesmo foi o álbum Documento, de Raul Seixas e a Coletânea da Série Bis de Luiz Gonzaga, que escutamos na volta. O que eu conhecia do velho Gonzagão era o que todo mundo da minha idade conhecia. Algumas músicas isoladas, xotes, causos etc. nada muito concreto. Aquele momento, com todas as emoções acima citadas, com todas as primeiras vezes concretizadas, com a graça da capital mineira saindo das minhas narinas, com todos aqueles montes e planícies tão diferentes da paisagem eucaliptica das estradas do extremo sul baiano, parecia casar direitinho com a sanfona de Luiz Gonzaga e com a guitarra amalucada e o inglês abaianado de Raulzito. Talvez tenha sido esse o motivo de eu tê-las guardado em mim... Talvez. Não sei, porque como já disse não sou psicólogo e nem estudo nada da área. Tudo aqui vem da lábia do Censo Comum, o melhor amigo de Tertuliano Máximo Afonso, que de vez em quando me aparece por aqui também a dizer isto e aquilo outro.

Ao chegar em casa procurei ambos os discos na internet, com a desculpa de mostrar ao meu pai, que sempre gostou de ouvir os dois artistas. Achei Documento e outras coletâneas de Luiz Gonzaga, mas não a que eu queria. Seria um presente perfeito pro dia dos pais... Perfeito porque não era caro e era a cara do meu pai. Eu, quebrado e doido pra agradar ao velho, mas enrolado como fio de telefone. Passou a data, passou a idéia, mas não a vontade de achar o CD. Numa outra viagem, assim, sem nem pensar muito, entrei no Shopping Iguatemi, em Salvador, e acabei achando o bendito. Não era mais dia dos pais. Na verdade até o aniversário do velho já tinha passado. Mas comprei o CD assim mesmo. Pessoas especiais não precisam de datas pra ganhar presente. E além do mais, antes de entregar o CD a painho, tratei de salvar uma cópia em “Minhas Músicas”...

Toda vez que escuto as músicas de Luiz Gonzaga me vem á cabeça o percurso Teixeira – BH e tudo o que significou pra mim aquela viagem. Os cinco minutos de uma música podem comportar muito mais sentimentos do que se possa imaginar...

Fernando Lago – 15 de Junho de 2010

13 de jun de 2010

Não feche o seu portão









Não feche o seu portão

Preciso me encontrar

Favor deixar entrar

Fazer uma audição

Preciso conferir

Se eu estou ai

Tenho quase certeza

Musa da beleza

Que estou residindo no seu coração


Não tente me expulsar

Que eu não vou sair

Cê não vai resistir

Meu jeito de te amar

Eu preciso, princesa

Desta sua lindeza

Me dê a sua mão

Que em seu peito-nação –

Meu principal destino – vou me exilar


Se você não sentir

Que há uma luz acesa

Me diga com clareza

“Eu não te quero aqui”

Pois o meu coração

É um grande fanfarrão

Não vai desconfiar

Se você não falar

Que já não me quer bem, que tenho que sair


Não tenho esperteza

E não vou insistir

Porém há de convir

Pra mim será surpresa

Mas eu não vou chorar

Se você não me amar

Mas não será em vão

Se meus escritos são

O jeito de expressar minha feliz tristeza


Fernando Lago – 12 de Junho de 2010


10 de jun de 2010

A Praça dos Leões





Praça dos Leões -
Teixeira de Freitas, BA.











Os leões dessa praça rugem

E eu não sei o que espero aqui parado

Há tantas coisas no mundo

Algumas no meu coração

Há tantas coisas nas proximidades

Não sei se alguma me compete...


Fico aqui sentado

Pensando que a beleza não me é cabível

Porque aparentemente não tem nada comigo

Mas mesmo assim me dizem que tem


Os leões dessa praça

Em coro gregoriano

Me dizem que o chão é aqui abençoado por seus passos

E pela matriz que se ergue logo ali à frente

E que conhecem de longe a sua voz rara

Os leões dessa praça têm ouvidos mui potentes

E falam coisas muito belas sobre você


Certos estão os leões dessa praça

Certos quando dizem que você é admirável

E lamentam juntos sua própria cimentez

Quando você passa por outro lado

Para os quais nunca podem se voltar pra contemplar o seu belo sorriso


Eu tenho ciúmes dos leões dessa praça

Que apesar da concretude de seus corpos

Apesar do barulho insistente dos carros por ali

Apesar das negociatas e negociações de varejos e varejeiras

Podem ver-te passar com freqüência

E soltar pelo ar versos melódicos que vocês não podem ouvir

Que estão em linguagem de leão de praça


Os leões dessa praça são tão piegas quanto eu...


Fernando Lago – 09 de Junho de 2010

7 de jun de 2010

Outras Breves Palavras

Achei que mantinha o diálogo...

Não posso dizer que já disse tudo
Ainda creio que não disse nada...
As palavras, quando não acompanhadas de um olhar
Tem pouco ou nenhum valor...
É o que minhas experiências me repetem
Com irritante insistência
E insistente contundência...

Pedem-me que me aposente...
Que deixe de construir castelos.
Já prometi que sigo este conselho
Mas costumo mentir...

(Junho de 2010)

1 de jun de 2010

Sobre Olhares e Cérebros











Aquele olhar sim, eu nunca vou esquecer. Não pelo olhar em si, porque já estou acostumado a vê-los deste tipo e até a senti-los em mim mesmo. Muito comum, quando não sou capaz de disfarçá-los. A vida me ensinou técnicas de dissimulação, as mais diversas. Quase não uso, porém, a não ser em alguns casos. Mas aquele cara... Um intelectual!

Era um sujeito realmente impressionante. Concordavam todos com isso, até os que discordavam dele nas suas convicções. Com todos os seus defeitos, sua inteligência era inegável. Meio doido, diga-se de passagem, como a grande maioria dos intelectuais. Roupas esquisitas, sem padrão de moda, cabelo grande e despenteado... um sujeito esquisito. Mas a esquisitice dava lugar à admiração, quando opinava. E tinha opinião sobre tudo. Tudo mesmo. Podia até estar errado, mas tinha uma opinião... Falava-se de um assunto e ele dizia: “Penso isso, por tais e tais motivos, por tais e tais fundamentos, por tais e tais autores clássicos, por tais e tais autores modernos...”

Não significa que concordavam com tudo que ele falava. E essa é a grande beleza da coisa! O intelectual pode e deve ser contestado; intelectual não contestado não é intelectual. Toda idéia requer debate; nada pode circular sem debate. Debate que pode virar discussão, que pode virar até briga... mas a idéia circula.

Eu estava sentado, um canto quase invisível do corredor. Pouca luz, lugar ermo, escondido; ele não me viu. Melhor assim. Naquele instante, pensando na minha vida distante, o que eu menos queria era um debate político-filosófico no corredor. E ele era mestre pra isso. Não conseguia ver um parado sem retomar um debate interrompido, ou iniciar um novo debate sobre isto ou aquilo outro, esta ou aquela postura deste ou daquele... Na falta de uma matéria, até Alice no País das Maravilhas virava pauta... Conseguia fazer relação com tudo. Alice com Aristóteles, Aristóteles com Cesar, Cesar com Calígula, Calígula com o Presidente Lula, o Presidente Lula com ele mesmo... Era um senhor cheio de relações. As mais demoradas possíveis, e por isso me encolhi ao máximo, na penumbra daquele canto de corredor, para que não fosse chamado a mais uma discussão teórica.

Não deixei de observar que uma moça chegava. Mais nova, amiga dele de há muito. Eu não gostava dela. Pouca gente gostava... Abraçou-o, ele retribuiu e olhou pro nada. Este olhar, exatamente este olhar... O nada! Olhar pro nada é atitude de poucos... Olhar pro nada é atitude filosófica, mas não de filósofos. É filosofia empírica, é coisa de sentimento. Olhou pro nada, mas não simplesmente olhou pro nada. Olhou pro nada como quem procurasse no nada algo que o levasse a um tudo.

Foi uma das minhas maiores descobertas pseudo-científicas: os intelectuais – mesmo os mais loucos e mais reflexivos – os intelectuais não estão imunes ao amor...


Fernando Lago Santos - Junho de 2010