26 de dez de 2011

Discrição ou Soneto de Descrição




Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
(Álvaro de Campos)


Derramo no papel parte de mim
Que oculta o sorriso dos meus lábios
Por muito cri que assim fazem os sábios:
Mostrar-se em fragmentos, o seu fim

O que lhes mostro é pouco interessante
Não menos do que aquilo que escondo
Um ser jamais completo ou redondo
Buscando-se em ânsia alarmante

Perceba a discrição com que descrevo
Por medo de dizer minhas verdades
Que nem de mim pra mim eu me atrevo

Por medo da minha sinceridade
Encerro o soneto que escrevo
Discreto e descrito à metade.


Dezembro de 2011

6 de dez de 2011

Mattina



Numa dessas madrugadas
Que eu acordei com você
Presente na minha ausência
Saí a caminhar pelo quintal do mundo
Iluminado por lua nenhuma
Só pelas luzes artificiais
Que o prefeito mandou acender
Para a festa de final de ano

Você
Criatura semiperfeita
Que o acaso me roubou
Bem podia inexistir
Bem podia ser
Uma fada imaginada
Embora inimaginável

Andei pela calçada turística
Esperando que você, de repente,
Atravessasse o meu caminho
E após um cumprimento
Me perguntasse sorrindo
“Demorei?”
E eu responderia, “um pouco”
E a visão seria divina
O acaso devolvendo
Com juros e correções
O bem que me roubara

Nos daríamos as mãos
Caminharíamos, um, de fato
E sentaríamos à beira-mar
Para ver o sol nascer...

Ah!
Como é fértil a imaginação
De quem não consegue dormir!

O dia clareou
E eu vi o nascer do sol
Chateado e sozinho

Novembro de 2011