7 de mar de 2010

A não-filosofia da caneta


Há quem prefira lápis. Eu prefiro caneta.

A maioria das pessoas preferem lápis e usam explicações filosóficas para justificar essa preferência. Que o caminho percorrido pelo lápis pode ser refeito com o auxílio de uma borracha que o vai apagando. Eu prefiro caneta.

Dizem que o lápis precisa ser apontado frequentemente e que assim é a vida; que precisamos ser, de quando em vez, re-apontados para podermos funcionar direito. Mas eu prefiro caneta.

Não é por nada não. Eu poderia enumerar um bocado de coisas poético-filosóficas aqui e fazer vocês brilharem os olhos, abrirem as bocas, ou revirarem as tripas em agonia. Mas não quero. Só quero o meu direito de não preferir lápis sem ter que me transformar num Platão ou num Aristóteles para fazê-lo. Pode até ser que Platão e Aristóteles usassem um lápis. Mas eu prefiro caneta.

Sei que a caneta - este objeto ligeiramente poderoso que assinou várias leis e que ultimamente tem servido apenas pra isso (e olhe lá) diante dos filhos mais novos da datilografia – sei que ela é prenhe de coisas filosóficas e malucas que me poderiam atribuir. Sei que o que a caneta escreve não pode ser apagado senão com um daqueles corretivos brancos, que emporcalham todo o caderno e é o vilão dos professores. E, aliás, também não uso corretivo (corretivo, mata-borrão, o escambau!). Ainda que filosoficamente ou amalucadamente, diria que prefiro a inalterabilidade do traço da tinta da caneta. É isso. A velha palavra de mineiro que não tem volta.

Neste ponto dir-me-ão os psico-caligrafólogos que eu, por esta análise, sou um sujeito firme como café com farinha e mantenho-me inflexível diante de uma decisão. Estas coisas ditas no dia seguinte a uma discussão acerca de posturas pedagógicas caem muito bem. Poderão dizer: esse aí sim, é adepto da pedagogia tradicionalista. No entanto, não tem nada a ver.

Eu sou a criatura mais baderneira do mundo, no que se trata de textos. Rasuro mesmo! Pinto, repinto... É porque não posso corrigir, porque escrevo de caneta. Poderia usar borracha, se escrevesse de lápis. Mas eu prefiro caneta.

A caneta tem, por fim, essa firmeza na tinta. O grafite se desgasta com o tempo, fica difícil de enxergar. A tinta pode até sofrer esse processo, mas leva mais tempo. E na vida, entre caneta e lápis, nessa filosofia de vocês acharem que tudo pode ser filosofado, na vida usa-se caneta. Porque a vida é uma prova, e entregar uma prova escrita a lápis é arriscado. Podem alterar suas respostas...

Eu prefiro caneta.

Fernando Lago Santos - 6 de março de 2010 – 9:30hs

Prédio II da Universidade do Estado da Bahia – campus X.

De Monitor de ensino, enquanto os sofredores escrevem um texto dissertativo de auto-avaliação.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Também prefiro caneta!
    Minha vida é escrita a caneta. Uso mais a cor branca, ninguém precisa saber de sua existência, apenas que ela existe...(que coisa não?).Não uso corretivo, as vezes na maquiagem. Se eu fosse usar na vida, a cor da caneta é branca, não vai fazer diferença.Não uso a borracha tempo, a gente esquece, mas ele não apaga(que coisa não?)
    Mas tenho um lápis guardado na manga.Eu gosto de desenhar (rsrs)E preciso apagar.

    post bacana! E não é filosofia...rsrs A quem diga que não.. eu digo que sim !

    Bjus.

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  3. No fundo no fundo, Rose, sou um preguiçoso. Atualmente tenho preferido digitar mesmo rsrsrs

    Obrigado pelo coment, volte sempre!

    Bêjo

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?