2 de abr de 2010

O Pé de Meia (Malu)

Maria Luisa visitou-me ainda uma última vez naquele ano de 1965, antes de partir para a Europa no navio inglês do senhor-mister-captain Nick Jones. Explicou-me que sentia muito deixar a vida que levava por outra ajuda que não fosse a minha e por outro motivo que não fosse casar-se comigo; mas que não podia esperar a vida inteira por mim e por meu pé de meia. Aquiesci com um balançar de cabeça, mas sem palavras, porque tinha medo delas em certas ocasiões. Muitas coisas perdi nesta vida por não ter governado palavras que insistem em sair do coração e saltar gritantes boca afora. Coisas boas e ruins, esclareço.

- Diz alguma coisa, por amor de Deus!

Naquela época eu tinha uns trinta e três anos. A idade de Cristo, brincavam uns pândegos que comigo andavam. Mas todos concordavam que a idade e a barba, ainda preta naquela época, eram as únicas coisas que eu tinha em comum com o Galileu. Maria Luisa tinha cerca de dezenove ou dezoito anos; nunca se sabe ao certo a idade dessas moças. Nos conhecêramos havia pouco mais de dois anos, quando cheguei no Rio de Janeiro, ainda na época do Jango. A casa em que a encontrei, aos cuidados da senhora Margarida da Silva, me tinha sido indicada como a melhor de todo o Rio. A mais limpa, mais chique, com mulheres “de classe”. Conquanto meu poder monetário não bastasse para tanto, quis fazer vezes de fidalgo do Século XX, freqüentando esta respeitável casa de mulheres belas e brancas.

Só conheci Malu na terceira vez em que lá fui, porque a moça com quem costumava me deitar estava indisposta naquela noite.

- Tem essa aí – disse Margarida, referindo-se à moça – é escurinha, mas faz bem o trabalho.

A indisposição da loira era nada menos do que uma gravidez que lhe fez perder o posto. Passei a freqüentar assiduamente o quarto de Malu. Ao cabo de uma semana já estávamos amigos.

Obviamente que essas visitas tão freqüentes, causaram no meu salário de funcionário dos telégrafos um enorme rombo. Com alguns meses de exclusividade Malu arrancou de mim muito dinheiro e, principalmente, muita história. Contei-lhe naquela cama de bordel toda a história da minha vida, desde a minha infância na roça até o meu quase noivado com a filha feia do prefeito de Feira Livre, de onde tive de sair corrido por contrariar a moça e o seu poderoso pai.

De lá até o Rio, caminho que durou alguns anos, conheci muitas moças; poucas sérias. Estive de namoro com uma adolescente virgem no Vale do Camará, quase perto daqui. Mas, como em geral acontece, os pais dela não a deixaram casar com um homem como eu. Não pela idade em si, mas pelo fato de esse homem não ter dinheiro bastante para dar àquela moça uma vida igual à que ela tinha na casa dos pais. Ademais, sérias brigas políticas obrigaram-me a deixar o Vale.

Arrumei um emprego no Rio de Janeiro como funcionário dos Telégrafos, onde conheci Tião Peixeira, freqüentador assíduo das casas de mulheres do Rio. Como ficou sabendo de minha solteirice, achou favor me indicar as melhores da cidade.

Com um ano e pouco de experiência um do outro, Malu e eu já ousávamos falar em casamento. Pretendia tirá-la da vida, ir com ela para algum cantinho escondido, no campo ou no mato, onde ninguém nos fosse achar. A chefe da casa achava minha idéia absurda.

- Casar-se com uma...

- Não termine a frase! – interrompi – não se esqueça que a senhora também é uma!

- Não me esqueço disso, meu caro – respondeu calmamente – nunca me esqueço de minha condição. Não falava disso. Mas é que ela é preta!

- E daí!

- Daí que um homem como você não devia ter como senhora de sua casa uma negra!

- Por que não? Um homem como eu?

- Parece que o senhor é daquele povo moderno. Desses que estão mandando aos montes ir embora do Brasil. Mas conheço a sociedade; e lhe digo uma coisa: quando te apontarem pelos salões ou pelas ruas, o senhor há de se lembrar de mim.

Creio que Margarida da Silva fazia de mim um juízo errado. Pensava que eu fosse um homem rico, importante, com representação social. E não a culpo por isso. A clientela de sua casa era justamente esta. Era inimaginável que um simples funcionário dos telégrafos tivesse dinheiro o bastante para visitas tão freqüentes àquele luxuoso lugar. E eu não tinha. O próprio Tião Peixeira ia ali, quando muito, uma vez por ano. Admitia publicamente – para os homens – que sabia das melhores casas cariocas. Mas que por uma condição de telégrafo com contas pra pagar, preferia sempre as mais baratas.

Além do dinheiro gasto nas minhas visitas à casa de Margarida da Silva agora eu reservava alguns trocados no fim do mês destinados ao resgate de Malu. A carta de alforria – pensei rindo sarcasticamente contando o dinheiro que já tinha juntado e verificado que ainda era pouco. Precisaria de pelo menos três anos para juntar o necessário.

Não me preocupei com o que me dissera a Margarida. Talvez não fosse direito um homem de posição social casar-se com uma prostituta negra. Mas eu era apenas um funcionário dos telégrafos! Mas no fundo concordava com a caftina. Um homem com muito dinheiro não quereria como senhora uma negra. Eu era, naquele momento, a única esperança de Malu.

Errei feio. Um certo dia, após dois meses de férias na Bahia, para visitar meus pais que não tinham notícia de minhas aventuras nas terras cariocas, fui informado de que Maria Luisa deixara o bordel de Margarida da Silva.

- Como assim?

Foi com muito alvoroço que a chefe da casa tentou me explicar seu engano. Malu, a negra, conquistara um homem ligado ao governo que, ironicamente, por uma indisposição – sem gravidez – de sua predileta, satisfez-se com a negra, que estava livre por conta de minha viagem. A moça deixou-me uma carta muito afetiva tentando explicar, mas que pra mim não bastava.

O caso teve repercussão política. Os militares não gostaram nada do envolvimento de um dos seus com “aquele tipo de gente”. Três meses depois o homem de Maria Luisa anunciava que ia à Europa, porque precisava de novos ares para o seu frágil pulmão. Extra-oficialmente sabia-se que ele tinha sido exilado “pacificamente” pelos seus amigos do poder.

- Diz alguma coisa, homem!

Maria Luisa estava bem vestida. Vestido europeu, suponho. Sapatos visivelmente caros. Vinha na companhia de uma moça, provavelmente porque não ficava bem visitar sozinha um homem solteiro. Ri internamente da suposição desta particularidade, imaginando se teria o figurão a idéia de quantas vezes fora eu ao quarto de Malu e ela ao meu. Olhei pro seu vestido, pros seus sapatos, pra sua bolsa de luxo. Olhei com bastante atenção para a bela moça que a acompanhava... Nem com dez anos juntando parte do meu salário de telégrafo eu poderia dar tudo aquilo a ela. Proferi a única coisa que arrumei para dizer-lhe:

- Seja feliz!

Fernando Lago Santos – 16 de Outubro de 2009

7 comentários:

  1. Preciso re-construir meu blog, pois há muitos blogs na seção de blogs que leio, que não leio mais. O teu é um dentre os poucos em que visito, mas como sempre, raramente deixo comentário. Bom, isso é notável em qualquer usuário de internet que não se organiza e não escreve mais nesse mundo das palavras na internet. Uma coisa que aprendi, é que essa ausência causa um grande buraco, é como se algo falta-se. Mas por ironia, em alguma visita de rotina a qualquer outro blog, encontramos um post que ascende em nós todo o desejo de descobrir e incomodar o mundo. Falo isso, não porque me identifiquei com o personagem ou a sua história, mas me identifiquei com suas palavras em um texto bem escrito onde mostra claramente a evolução de um escritor que nasceu com a missão de escrever para o mundo. Não é exagero, o único exagero aqui é o tamanho desse comentário. O resto é percepção de que a vida passa, e se nós não assumirmos nossa posição nela tomando coragem para fazermos aquilo que acreditamos, ela passará e não deixaremos nenhuma marca, as pessoas não lembraram do amor ao ouvirem falar de nós, e não irão se sentirem mais fortes para continuar seguindo o caminho da vida.
    Parabéns por tudo irmão, que Jesus possa ressuscitar sempre em sua vida e fortalecer a suas palavras fazendo-o escrever o amor para o mundo que precisa tanto.

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  2. Comecei a ler e não quis parar para ´confirmar o trágico fim desse solteirão. O que vale a pena é que podemos nos surpreender sempre.
    Bela história.
    inté

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  3. Igor,
    sempre bom te ter por aqui. Sabe, apesar de ser um grade egoísta e de admitir que minha escrita é mais pra mim do que para qualquer leitor, eu fico feliz em saber que me lêem. Sim, pra que falsa modéstia ou demagogia? Apesar de reconhecer-me um escritor nanico, eu gosto de ser lido e quero ser lido. Do contrário não publicaria nada no blog... nem escreveria, aliás. Valeu mesmo pelos elogiosos comentários, amigo. Sei que não mereço, mas estou estudando e praticando para um dia merecer de verdade.

    Diu,
    confesso que sinto certo narcisismo ao ler alguns comentários aqui... rsrs culpa de vocês. Mas quando releio a historieta acabo admitindo que é mesmo boa, não obstante à pobreza de seu co-autor - porque a vida é a verdadeira autora. Na minha próxima postagem publicarei uma seguda parte, que escrevi um mês depois desta. Mas vale tão pouco quanto...

    Beijos!

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  4. que lindo!
    adorei... você tem muuito talento, né?

    me encantei com a historia e a forma com que você escreveu!

    *-*

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  5. Obrigado, Duanny. Palavras elogiosas que não mereço. ;)

    Beijos!

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  6. Primeiramente, uma honra ter você como leitor! Obrigada pela visita e espero que volte sempre ao meu pequeno e singelo espaço.
    O seu que é legal, cheio de coisas, mensagens e super movimentado!
    Escreveste uma bela história!
    Parabéns, grande beijo.

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  7. Nandinha,
    obrigado pela visita e pelo comentário. Esteja à vontade pra voltar sempre e dar os pitacos que quiser...

    Beijos!

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?