9 de jan de 2011

Encontros e reencontros




Texto publicado na coluna do Jornal Independente



Sou piolho de livraria. Ainda mais do que de biblioteca. A grande diferença de uma livraria para uma biblioteca é justamente o marketing empregado para vender livros num país em que muito pouco se lê. Apesar de ser gostoso estar numa biblioteca, aquela aura intelectual que paira no ar que se respira lá dentro, aquele silêncio de ouvir agulha cair no chão, o romantismo todo de se falar por bilhetinhos com a menina bonita que está lendo O pequeno príncipe compenetradamente, et cetera, et cetera... No entanto, a biblioteca se organiza como um organismo vivo. Complexo. Você é quem está atrás dos livros. Ninguém entra numa biblioteca por acaso, salvo os apaixonados pela bela moça fã de Saint Exupéry ou pela bibliotecária – coisa rara, porque as bibliotecárias, sem querer generalizar, nem sempre são tão simpáticas.

Na biblioteca nós procuramos os livros. Na livraria o livro é quem nos procura. Foi assim que o livro Hamlet e o filho do padeiro piscou pra mim numa livraria, se apaixonou por mim e, para me convencer a levá-lo como concubina literária, mostrou logo em letras garrafais o nome do seu autor: Augusto Boal. Não sabia do que se tratava, mas, após tantos encontros e reencontros com o escritor/teatrólogo, tive quase certeza que o livro era bom.

A primeira vez que ouvi falar de Augusto Boal foi em 02 de Maio de 2009, dia exato de sua morte. Eu participava de um encontro sobre a atualidade do pensamento do educador Paulo Freire e, mais especificamente, compunha uma mesa de debate acerca dos cinqüenta anos de publicação da Pedagogia do Oprimido, considerada sua obra de maior relevância. Um dos participantes pediu permissão para comentar e, com certo peso no olhar e na voz, citou um Jornal da TV para dizer que, naquele dia, tinha falecido o precursor do Teatro do Oprimido.

Confesso, não prestei muita atenção ao colega. Suas palavras foram jogadas no ar. Mas bem me lembrei delas quando vi o nome do Boal na ementa de uma oficina de teatro que fazia parte das atividades de um encontro de estudantes no Maranhão. Entrei na barca e não afundei. Mergulhei e consegui nadar, submerso no mar de exercícios e jogos teatrais que o sujeito que instruía a oficina ia conduzindo. Saí de lá decidido: assim que pisasse em sacro solo teixeirense ia indicar – impor – a todos os meus conhecidos envolvidos em teatro a leitura de Teatro do Oprimido e outras poéticas políticas. E lê-lo, se possível – tamanho era o acúmulo de livros que eu tinha a ler, e ainda hoje é assim; parece a dívida do Estado, que não acaba nunca.

Cumpri a primeira parte da decisão e, pra minha surpresa, o grupo de teatro já conhecia Boal e o estava estudando. Quanto à segunda parte, a da leitura, fui adiando, como é de meu feitio. Prática milenar e deplorável. Tem gente que adia por hobby. Acho que não sou assim. Acho. Mas adio feito um louco, compulsivamente. Culpa do tal do capitalismo, que nos ensinou que tempo é dinheiro.

Segui adiando, até que me encontrei com o referido livro de Boal, quando exercia a minha mania de piolho de livraria. Era uma autobiografia, mas foi a porta de entrada para ler também outros textos seus e outras obras completas, embora esteja ainda em débito com o Jogos para atores e não atores, que prometi ler depois. Vou adiando...

Fernando Lago – Novembro de 2010


Um comentário:

  1. Você ainda está em vantagem perante a mim. Eu já ouvi falar de Boal e nem correr atrás de algo dele para ler eu fui. E olha que foram boas criticas.

    Também sou rato de livraria. E lá sempre tem os livros que a gente quer. e quando não tem é só pedir que a gente acha.

    Quanto as bibliotecas. É um reino encantado que aos poucos vai se misturando com o mundo real e perdendo seu encanto. Dias desses fui a uma tentar ler um livro e nas três horas que permaneci nela não consegui. Não respeitam mais o silêncio que nela é preciso ter.

    Abraço, nobre chará.

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?