16 de mai de 2011

Entre Fernandos






Será pecado mortal
 – favor, chama aqui o padre!
Ler os poemas de Álvaro de Campos
E achar que fui eu que escrevi?

Será blasfêmia artística?
Um disparate rimológico?
Respondam, sacerdotes, gurus, pajés da arte moderna,
Será?

Opino, creio que não
Não há de ser um pecado
Achar que são minhas as letras
Que há pouco dançavam no livro
Sensualizando meus olhos

Não, não há pecado!
E ainda se o houver
Não poderão condenar-me

Não, porque o pecado não é meu
É antes do Álvaro de Campos
Que décadas antes do meu nascimento
Adivinhou-me tão bem

Talvez um outro Fernando
Excelente Pessoa
Em alguma dimensão
Ou em dimensão nenhuma
Esteja rindo da minha cara

De tempos em tempos, diz ele,
Nasce um com essa sina
A sina de ser poeta
A sina de ser Fernando
A sina de ser sozinho
Com os consigos de si.

Talvez, Fernando, talvez...

Talvez seja essa a sina
A sua de ser tantos em uma só Pessoa
A minha de afogar-me em meu próprio Lago

Somos fernandos
A mesma reclusão do mundo
A mesma impessoalidade consigo próprio
De diferente, só o alcoolismo
E a genialidade
Coisas nem sempre  inclusas no pacote de fernandices.


Teixeira de Freitas, Janeiro de 2011 

Um comentário:

  1. É Fernando...

    E quantas vezes também eu já me peguei nas letras de outrem... E depois do espanto vem sempre o encantamento... Mas, sempre fica a estranheza de algo que nos faz sentir como um pensamento roubado rs Mas, afinal, pensaram antes e sentiram antes... E fica então o conforto de não estarmos só em nossos devaneios...

    E talvez em algum lugar o outro Fernando esteja a dizer que tu Fernando seja apenas mais um de seus acessórios - o acessório que se auto-afirma em ti:

    '... Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
    Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
    Arredores irregulares da minha emoção sincera,
    Sou eu aqui em mim, sou eu.
    Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
    Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.'

    beijocas-fãs...

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?