11 de out de 2008

Texto escrito paralelamente como suplemento de "Tentando entender a Vida"


Dilema de Clécio Pereira


Clécio chegou pra mim estupefato. Sentou-se no meu velho sofá e cruzou as pernas aflito. Nunca pensei que o veria daquele jeito. Ele, que sempre fazia piadas de tudo e de todos, agora parecia ter sido convertido de Arlequim a Otelo. Pior! O dilema da suposta traição de Desdêmona não era tão sério quanto o dilema que vivia o meu amigo. Otelo era um obsecado e a traição não era certa. Mas não era pai de um filho de uma namorada e não estava sendo obrigado a pôr uma argola dourada no dedo, pela lei inescrita e invisível de ética.


- Logo eu, Fernando - lamentava - logo eu que sou livre como uma pomba!


- Como uma pomba?


- Um pombo! - corrigiu engolindo em seco à minha infame brincadeira. O negócio era sério mesmo. Ele não estava pra piada...


- Mas o que há, Clécio? Não é o fim do mundo! Você tem um emprego na editora! Um ótimo emprego, aliás. É por causa da Táty?


- Taty é passado, Fernando.


- Medo da mãe dela não pode ser! Depois que ficou viúva, dona Margarida se apegou a você de uma forma que não sei não... - de novo tentando fazer piada - Parece ter te eleito o patriarca da casa.


- Você não vê que não estou pra brincadeira, Fernando! - irritou-se.


- Logo você, Clécio! Que perde o amigo mas não perde a piada...


- Agora o negócio é brabo, Fernando! Eu estou num dilema shakespiriano, como você diz...


- Casa com ela, clécio! "Aos grandes males os grandes remédios" já disse Hipocrates.


- Não é propriamente um mal...


- Com certeza não! Mas se você diz que a Taty é passado e que você quer aprender a amar sua namorada e agora tem mais esse filho que está esperando... Casa com ela, meu!


- Fernando, eu não já te contei das poucas e boas que vivi com a Júlia nestes cinco anos de namoro... Agora ela está melhor, mas se tiver uma recaída? Casamento é coisa séria...


- Cinco anos de namoro, Clécio! Tudo está conspirando para o matrimônio. Analisa comigo, meu filho: A Taty vai casar com Hélio, você voltou com a Júlia, como sempre voltou muitas vezes antes... Nestes cinco anos entre idas e voltas vocês permanecem juntos... Agora com essa gravidez... Clécio, casa com a Júlia! Pra mim com filho ou sem filho já estava na hora de casar mesmo...


- Quer saber? Você tem razão... Hoje mesmo vou me resolver com a minha amada...
Janeiro de 2007

Um comentário:

  1. Vejo maturidade em suas palavras, gosto de aprecia-las...

    Tamu junto

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?