1 de dez de 2009

Dir-se-á

In Memoriam A Ricardo Lago dos Santos


Dir-se-á por aí e por cá

Que mais um vagabundo se foi

Encerrou sua lida sofrida na terra

Recebeu da mão dos homens da lei

O que de fato mereceu


Dir-se-á por aí e por cá

Que a braveza e a ‘breveza’ da vida é atroz

Que os homens só cumprem aquilo que ela manda

E que na verdade

Eram maus

E mereciam castigo e paulada


Quem mandou?

Mexeram com quem e com que não deviam

A maldita!

Objeto de ódio e tesão

Tesão simbólico

Uma loucura mórbida e desesperada

Prazerosamente imbecil


E eu

Simples passante na vida

Vi o menino que corria comigo pela Rua da Bica

Que sabia, muito mais que eu, como subir num galho de árvore

Que tinha força e boa vontade divinas

Que muito mais que eu se dispunha ao trabalho pesado

Que tinha uma esperteza que superava todas as minhas qualidades


Que mentia, sonhando serem as coisas melhores que eram

Que brigava comigo, que fazia as pazes

Que encarava com irreverência as ordens postas do colégio

Que jogava bola tão ruim quanto eu

Que dormia e acordava cedo tradicionalmente


Eu, meus amigos

Vi esse menino ser seduzido pelas promessas falsas

Pelos falsos sonhos e se debandar pelo mundo de lá

Sem conhecer o mundo de cá


Dir-se-á por aí e por cá

Que ele tinha de ir

Que outros mais têm de ir

Que se deve dedetizar a terra

Limpá-la de raças inferiores


Dir-se-á que esses meninos

Tirados do seio de suas famílias

São culpados por todos os males da humanidade

A pobreza, a fome, é tudo coisa deles...

Mas eles não são causa, meus caros

Eles são conseqüência


Sim

Por que não hei de confessar?

Chorei por ele e choro.

Hão de me achar ridículo

Dirão por aí que chorei por um condenado

Mas nesse mundo nosso

Quem não é condenado?


E o meu choro hoje

Não é isoladamente por um número-primo

O ser humano por trás dos números estatísticos

Choro hoje porque as condições criadas estão estabelecidas

E não mudará com a morte do meu companheiro de aventuras infantis

Choro porque apesar do que dirão todos os noticiários policiais, ele não foi mais um corpo encontrado estendido no chão

Choro porque apesar do que dirão todos os comentários críticos

Ele e seu companheiro não são a causa de sua própria morte


Choro porque ele,

Meu companheiro de passeios de bicicleta

Faleceu em vão

Encarado pela sociedade como mais um

Vítima da desatenção

Do desprezo

Da marginalização.


E choro principalmente

Porque enquanto os nossos jovens morrem

Numa sociedade cada vez mais mantenedora do tráfico como meio de vida

(que na verdade é um meio de morte)

O dinheiro público e outros tantos dinheiros

Rolam e desenrolam nos bolsos e nas meias dos verdadeiros vagabundos desse país


Fernando Lago Santos – 30 de Novembro de 2009


Um comentário:

  1. Comovente, chocante! Infelizmente acabamos por banalizar trajédias semelhantes a estas, como se fosse apenas "mais um". Culpados? Não podemos assim considerar, pois interpretado por mim nas entrelinhas do seu texto, são vítimas! Infelizmente e com muito pesar que assistimos tantas injustiças, tanto roubo; de pizza a panetone, de mensalão a pé de meia!

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?