10 de abr de 2010

Reencontro (Malu)

Foi o caso que tive de voltar ao Rio para resolver certo negócio envolvendo um sobrinho meu muito querido, cujo pai – meu irmão – falecera com a confiança de que eu o trataria como ao meu próprio filho.

Sempre achei problemático esse negócio de um moribundo pedir a alguém que trate um ente como a seu próprio filho. Principalmente eu, que depois de tantas tentativas de noivar-me com moças feias, beiro os setenta e cinco anos sem nenhum casamento no currículo e nenhum filho para continuar a minha linhagem. A não ser, é claro, que alguma daquelas honradas moças, companhia perfeita para homens como eu, tenha concebido algum feto desse nobre cliente sem que ele próprio soubesse. Mas duvido muito!

Quanto ao meu sobrinho, era um bom moço! Tinha uma grande consideração por ele. Mas não podia dizer que o considerava como filho, porque nada entendia sobre paternidade. Mas era digno de consideração e, por um afeto imenso, eu fazia muito para ajudá-lo a crescer na vida. Ainda mais quando a mãe dele invocava o finado para, discretamente, evidenciar aos meus olhos a minha obrigação selada diante do leito de morte de seu marido. Obviamente que no momento em que ele dizia aquilo, já indo em direção à luz, eu não disse sim, nem não. Mas calei-me. E o adágio popular diz que “quem cala consente”. O fardo ficou-me.

É de se presumir, quando digo que tive que voltar ao Rio, que eu não esteja mais morando no Rio. Realmente não estou. Voltei a viver na Bahia quando completei sessenta e cinco anos e a cidade grande me encheu, com todos os seus monumentos, edifícios, tecnologias, carros e, especialmente, seus habitantes. Mudei-me para uma minúscula cidade no interior. Casas pequenas, pessoas simples, conversas no fim da tarde, andanças possíveis, uma cidade perfeita para um velho viver o que lhe resta e, enfim, morrer.

A moça que cuidava de minhas coisas – remédios, receitas, documentos de aposentadoria, coisas de velho – disse-me um dia, quando cheguei em casa à tarde, que um sobrinho meu havia ligado pela manhã e explicado que necessitava de minha influência na esfera carioca para uma questão de negócios. Retornei imediatamente a ligação e o rapaz explicou-me a situação, coisas da profissão de advogado que eu não saberia explicar, já que nem mesmo pude entender direito. Os anos levaram de mim grande parte da minha inteligência. Ainda assim, dispus-me a ajudá-lo apresentando as ligações necessárias. Encontrei dificuldade, obviamente. Ora, havia dez anos que eu abandoara a cidade pra vir pro interior Baiano. Renascer agora e conclamar algumas das minhas relações antigas, algumas delas datadas ainda da época dos telégrafos, ia ser no mínimo exaustivo. Ainda mais para um setentão como eu. Mas o fiz pelo meu sobrinho. Demorei-me lá cerca de uma semana e meia.

Negócio resolvido, decidi, antes de voltar à pacata vida do interior baiano, dar uma volta pela cidade maravilhosa – talvez a última de minha vida. Dei uma de turista. Passei pelo Cristo, fui à lapa, visitei alguns museus e, quando caminhava pelo calçadão, faltou-me o ar e, sem alternativa, sentei arfando no banco, onde já estava então sentada uma senhora bastante elegante.

- Desculpa – falei – é que eu me senti um pouco mal! Essas peripécias são demais para um velho de setenta e cinco.

- O senhor está muito bem para a sua idade – sorriu. E era preciso ter memória muito fraca e não ter coração para esquecer um sorriso daqueles.

- Malu?

- Como disse?

- A senhora. É a Malu, não é?

- Há mais de quarenta anos que não me chamam assim...

- É de se imaginar. Era mais um nome de guerra...

- Não, senhor, um apelido como qualquer outro!

- Você também está bem para a sua idade. Se bem que eu nunca soube a sua idade realmente.

- Quem é o senhor para tomar tais liberdades comigo? Se me conhece por causa de meu remoto passado, saiba que tenho vida nova agora e que não aceito propostas indecentes.

- Então não se lembra mesmo de mim?

- Ora, meu senhor, não é evidente que não?

- Sou eu, o Arnaldo, ex-funcionário dos telégrafos. Que quase foi seu noivo...

O gesto que ela fez naquela hora eu nunca mais vou esquecer. Baixou as pálpebras por um momento, mexeu os lábios lentamente e abriu os olhos num súbito quase agressivo, como se estivesse irritada com a própria falta.

- Ora, o senhor! Quase que um grande amor na minha vida!

O “quase” foi de uma ironia tremenda. Mas algumas pessoas, como eu, ficam imunes ao sarcasmo depois dos setenta anos.

- Tenho um débito de mais de quarenta anos com você – completou.

- Por quê?

- Ora, porque te deixei daquele jeito, sem considerar a imensa dedicação que me tinha. Cai nos braços de outro e...

- Perfeito! Sinto-me mais tranqüilo. Percebo que você ainda lembra...

- Mas é claro que lembro! Apenas não te reconheci; isso não é pecado.

- É verdade. São quarenta e dois anos de rugas a mais...

- Eu, sinceramente, não sei o que Deus queria ao fazer-nos encontrarmos justo aqui e agora. Mais lhe peço perdão por tudo que te fiz passar naquela época.

- Não falemos dessas coisas! Quer tomar algo comigo?

- Certo. Vamos àquele quiosque.

Sentamos num pequeno quiosque onde se lia: Margarida’s Space. Ri discretamente do nome. Ela percebeu o embuste e riu também acrescentando:

- As coincidências da vida são tremendas...

Confirmei com a cabeça e ela novamente sorriu. Mas dessa vez não deu a explicação sobre o gesto. Acomodou-se na cadeira, chamou o garçom, pediu o que queria, não me lembro se foi um conhaque ou a tradicional cerveja. Tem de se perdoar a falta de memória de um septuagenário, nome que, aliás, nunca pensei que fosse usar referindo-me a mim mesmo. Parece que quando a gente fica velho se desliga dos detalhes. Na minha não-velhice sempre fui ligado a essas pequenas coisas. Uns trinta ou quarenta anos atrás eu diria tudo o que Malu fez naquele encontro. Se me olhara com estranheza, se se sentara com cuidado, se tinha nojo da cadeira... Coisas que ninguém se importa.

Pedi algo também – o mesmo que ela, por isso é vão perguntar o que era. Não me surpreenderia muito se de repente aparecesse ali a velha Margarida e nos revelasse que deixara o negócio de bordel para investir em bares de praia. Mas isso era humanamente impossível. Já era muito velha na ultima vez que a vi. E fazia bem já uns vinte e cinco anos, se não fosse mais. Na verdade, depois que Malu foi embora, desgostei do lugar. Tomei uma raiva tremenda daquela casa que não conseguia mais sequer me excitar naquele ambiente. Fiz igual ao Tião Peixeira e comecei a freqüentar lugares mais baratos. Voltei lá uma ou outra vez depois que subi de posto, mas nunca me tornou a assiduidade de antes.

- Casou? – perguntou Malu

- Não. Fiquei na mesma história...

- Não achou uma outra p... que lhe desse vontade de tirar da vida?

Agora sim parecia a minha Malu, aquela que eu conhecera na casa de Margarida da Silva. Toda aquela elegância moral não tinha nada a ver com ela. Conservava sua beleza, é certo. Devia ter agora uns sessenta anos, mas trazia na sua velhice uma alegria pândega das velhas senhoras cheias de vida. O tempo fez bem pra ela.

- Não que valesse a pena.

- Confesso ter pensado que já estivesse morto.

- De certa forma estou...

- Mas que isso!

- Malu...

- Por favor! Não me chame assim...

- Como chamo? Madame Maria Luisa?

- Luisa. É como me chamam as amigas...

Sorri. E ocorreu-me perguntar o que acontecera depois daquele dia em que ela sumiu. Seu corpo negro remexeu-se na cadeira do quiosque. Ela torceu um pouco o nariz e disse:

- Me decepcionei um pouco. Depois um pouco mais e ainda muitas vezes na vida! No pouco tempo que me resta na terra é provável que ainda me decepcione mais... Mas não quero falar nessas coisas...

- Você decepcionou-se? Mas parece tão melhor? Não creio que tenha tornado a ser quenga!

Um jovem casal, provavelmente namorados, que tomavam uma daquelas bebidas modernas que servem muito nas praias de hoje em dia, olhou-nos com estranheza. A cena era realmente exótica. Dois velhos conversando sobre o sombrio passado um do outro num mundo em que não lhes tem mais lugar algum.

- Não, Arnaldo – disse Luisa – não voltei à vida. Por uns momentos fiz coisas humilhantes na Europa, depois que o meu amásio me abandonou para voltar ao Brasil. Disse que o País precisava dele. Obviamente que de mim, negra e prostituta, o país não precisava. Ninguém precisava. Acabei ficando nas ruas de Paris. Acredite, meu nobre cavalheiro, miséria é miséria, mesmo na mais linda das cidades. Até cheguei a procurar os prostíbulos de lá, mas não fui aceita.

Fiquei pensando que talvez Maria Luisa não vivesse tudo isso se tivesse ficado comigo. Ou talvez vivesse pior. Talvez voltasse à casa de Dona Margarida em dois anos, dois meses ou dois dias. Não dá pra saber. Fiquei tentando construir na minha cabeça a trajetória de Malu se fosse minha esposa. Enquanto ela ia contando a real, a que vivera, a que sofrera.

- E como chegou a esse status em que te vejo hoje?

- Casei com um político na Itália... Faleceu aqui no Brasil faz dois anos.

- Não compreendo.

- O que não compreende?

- Esse seu magnetismo com as pessoas ligadas à política.

- Acho que na vida passada eu fui Cleópatra...

- Quem sabe... Mas Cleópatra não era negra, era egípcia.

- É tudo África!

Não tive remédio senão rir. Ela sempre fora brincalhona e astuciosa. Não acredito que alguma vez na vida pudesse ter se interessado por mim. Sou um sujeito muito sem graça – agora na velhice, ainda mais. Ela, uma mulher negra e que foi prostituta. Uma história que não me atrevo a contar totalmente.

A vida vive nos pregando peças. Creio que me colocou diante de Maria Luisa para que pudéssemos acertar as contas. Agora estávamos quites. Não porque ela tenha me pago alguma coisa, mas porque eu, homem fraco e ora acabado, resolvi perdoar toda a dívida.

- Para onde vai agora?

- Vou voltar pro interior da Bahia. Quer vir comigo? É um bom lugar pra morrer.

- Não, obrigado. Não pretendo morrer ainda logo. Tenho que ter alguém que ponha flores no meu túmulo e no do meu marido, que apesar de italiano enterrou-se aqui no Rio.

- Se quiseres eu ponho...

E rimos, ambos velhos, com a ausência de alguns dentes, talvez. Mas talvez com a maior presença de espírito de toda nossa vida.

Fernando Lago Santos – Novembro de 2009


Esse conto é uma continuação de O Pé de Meia


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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?