19 de jul de 2012

Tempus fugit

          Primeira parte


Cruzou com a moça de cabelo enrolado na altura da faculdade pública que ficava no caminho para o seu trabalho. A mesma moça que ele via todos os dias, invariavelmente, às sete e meia da manhã, provavelmente a caminho de alguma atividade universitária. A moça era a mesma, jovem e bonita, os mesmos cabelos enrolados balançando por sobre os ombros, um restinho caindo pelas costas abaixo e os olhos castanhos meio perdidos num horizonte em que só se via prédios. É certo, a moça era a mesma, o horário é que era estranho. Já não era sete e meia, muito menos era manhã. Pelo contrário, passava das dezessete horas. Que raios aquela moça estaria fazendo ali àquela hora? Teria ela uma jornada dupla de estudos na faculdade? Será que foi reprovada em algum componente do currículo e precisa repor as aulas no horário oposto? Ocupar-se-á ela de algum estágio ou bolsa de pesquisa naquela instituição? A essas perguntas, se dirigidas à moça de cabelo enrolado, provavelmente caberia apenas uma única resposta que é, contraditoriamente, outra interrogação: que tem o nosso sujeito que ver com isso?

Diminuiu os passos para ficar mais tempo contemplando a silhueta da moça que andava compassadamente. Como é praxe masculina, prendeu um pouco o olhar na sua bela traseira, que movia-se de um a outro lado a cada passo que dava a moça de cabelo enrolado. As curvas, os passos, tudo parecia uma dança. Um requebrar de cadeiras para ninguém botar defeito. O rapaz aumenta o passo, quer ficar mais perto dela e consegue. A moça do cabelo enrolado continuava caminhando impassível, sem sequer voltar a cabeça para ver quem era o dono dos passos afoitos que vibravam na calçada. Nem mesmo alterou a marcha dos seus próprios passos. Cidadezinha tranquila, rua clara e aberta, há muito não se tinha notícia de assaltos por ali, o que explica a placidez da moça de cabelo enrolado.

Caminhando bem perto, o rapaz sentiu o seu perfume, comtemplou hipnotizado o balançado do seu corpo e teve vontade de sentir sua pele amorenada bem de perto. Teve uma ereção, pensou em roubar-lhe um beijo, mas já estava no seu limite. Diminuiu os passos, respirou fundo e tentou se acalmar. Não era um tarado qualquer.

A faculdade se aproximava, a moça de cabelo enrolado ia se afastar. Que era da faculdade, não havia dúvidas. Além do nome do curso figurando nas costas da camisa, a bolsa típica de universitária a tiracolo. E não esqueçamos que havia muito tempo que o nosso caminhante a contemplava seguindo em direção à faculdade, sempre no mesmo horário de sete e meia da manhã. É certo que, para chegar à conclusão de que se tratava mesmo de uma universitária, ele próprio a vira atravessar o portão da faculdade sei lá quantas vezes.

Apertou o passo e ficou ao lado dela, caminhando agora no mesmo ritmo. O que não andava em ritmo nenhum era o seu raciocínio, que tentava pensar em algum meio de puxar conversa com a beldade universitária que há tanto tempo seus olhos contemplavam de longe, movido, dessa vez, muito mais pela curiosidade do fato de a moça estar ali em horário diferente. Olhou para o pulso e lhe ocorreu a ideia mais batida desde que se começou a contar as horas.

- Oi! Poderia me informar que horas são agora?

- Agora? – repetiu a moça do cabelo enrolado, uma pergunta boba, pois que interessaria para alguém perguntar que horas foram há dez minutos ou que horas serão daqui a meia hora? Desnecessário. A moça do cabelo enrolado retirou o celular do bolso, respondendo:

- Agora são 7:33.

- Da noite???

Outra pergunta idiota, visto que estava claro e, salvo o sol tivesse perdido a hora da sua troca de turno com a lua, noite é que não podia ser. A moça de cabelo enrolado achou a pergunta tão obvia que só viu ocasião de sorrir, achando que era alguma brincadeira do rapaz. Mas ao olhar diretamente o seu rosto viu que não tinha graça a desorientação que se apresentava nos seus olhos.

- Da manhã... Por quê?

- Nada, nada – disse o rapaz. Preciso apressar o passo. Muito obrigado, você é uma moça realmente bela.

A moça de cabelo enrolado sorriu agradecendo, sem entender muito bem o que tinha acontecido com o rapaz. “Ou é louco ou está muito atrasado para algum compromisso sério.” Pensava consigo, o que é um pleonasmo óbvio (e a própria expressão “pleonasmo óbvio” é, em si só, um pleonasmo óbvio): desde que o homem se ocupa na atividade de pensar, ele o faz apenas consigo mesmo, pois, ainda que ele passe a expressar esses pensamentos em palavras audíveis, já não estará pensando e sim falando.

Da mesma forma, era apenas consigo mesmo que o rapaz pensava que aquela moça só poderia estar maluca. Ela e o relógio do telefone celular, o que, aliás, também ele trazia ao lado, bem à mostra, em uma daquelas antigas capas que a gente pregava na cintura e que hoje em dia já está fora de moda. (Pensemos, portanto, que, ou o nosso rapaz não se preocupava muito com essas coisas de moda, ou essa história se passa numa época em que ainda era moda andar com o celular à mostra na cintura). Mas de nada nos importaria esse detalhe senão para ressaltar o quão ridículo o rapaz se sentiu ao dar conta do fato. Se também ele tinha um relógio bem ali na facilidade de sua cintura, por que interromper a marcha pacífica da moça de cabelo enrolado, fazê-la abrir a bolsa, retirar o aparelho, abrir o visor e olhar a hora, se ele mesmo poderia fazer isso em segundos? Com toda a certeza, pensava o rapaz, a menina tinha percebido o aparelho figurando ali na cintura, e é mais do que provável que ela tenha percebido que o que o rapaz queria mesmo era um contato, algum pretexto para puxar uma conversa. Daí, concluiríamos nós, a sua reação quando o sujeito simplesmente se despediu, apressando o passo, depois de ter tido sucesso na tentativa.

Mas por que raios teria ela visto 7:33 da manhã quando deviam ser, no mínimo umas 5:15 da tarde? Como poderia ele saber que era exatamente esta hora? Ora, saiu, como todos os dias, às cinco em ponto do trabalho, nenhum minuto a mais, porque não ia dar dinheiro de graça praqueles putos; nenhum minuto a menos porque os putos eram tão putos que descontariam no salário os minutos, bem calculadinhos. Demorou, do caminho que separa a empresa do ponto exato em que viu a moça de cabelo enrolado, cerca de 15 minutos. A pé, porque tinha a maior preguiça de esperar ônibus e além do mais, esses ônibus dessa cidade são uma porcaria desconfortável. Assim, só poderia ser, agora, cinco horas mais quinze minutos da tarde; talvez mais, porém nada menos que isso. E, confirmando a facilidade que seria ele mesmo ver as horas num caso de real necessidade, meteu a mão na cintura e sacou o telefone celular, que não era do mesmo modelo do aparelho que a universitária sacara da bolsa há alguns minutos, não necessitava de abrir o visor, as horas já se mostravam ali, logo de cara: 7:37.

Mas como? Todos os celulares do mundo tinham endoidado!

[Continua....]

Fernando Lago - Julho de 2012

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Pode se jogar, mas não esqueça a sua bóia, viu?